Tradição do além-mar na festa junina francesa em Natal

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Adriano Cruz e Luiz Felipe Dantas venceram o Concurso de Talentos dos alunos da Aliança Francesa com tema da cantora Zaz e levaram duas bolsas integrais para um semestre de estudo; alunos, funcionários e convidados lotaram  auditório para ver atrações de bom nível artístico

Quinta-feira passada (16), a Aliança Francesa Natal organizou um arraiá para registrar o fim do semestre letivo e mostrar que a festa de são João é tradicional nos dois lados do Atlântico.

Dentro de uma parceria que prevê, dentre outras coisas, a tradução de matérias deste Substantivo Plural para o francês, e divulgação na terra de Baudelaire, estivemos no evento que lotou as instalações da instituição com quase 60 anos de presença na capital potiguar – completados ano que vem.

Barracas com comidas típicas, trio de forró pé de serra, show de talentos e o festival da canção francesa empolgaram alunos, funcionários e convidados.

Para além do alavantú (en avant tous) e anarriê (en arrière), a tentativa de mostrar o grau de semelhança entre as festas no Brasil e na França passa por um resgate de histórias em comum, um dos alvos da parceria entre a Aliança e este portal cultural.

Pois os festejos juninos são uma herança do folclore francês, acrescida de elementos portugueses trazidos para o Brasil Colônia.

Por lá é conhecida como Fête de la Saint-Jean, com a fogueira alta em destaque já no século XII, na celebração dos solstícios do verão, véspera da colheita; e a própria quadrilha, uma tradição dos salões nobres franceses, adaptada pelos lusos ao desembarcarem nos trópicos.

Queríamos sentir o que brasileiros e franceses ligados à Aliança Natal esperavam da festa coordenada pela diretora Séverine Etxenique.

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Um dos melhores momentos do arraiá, session d’Os Pirilampos da Meia Noite trouxe três temas franceses, os standards Michelle, Ces’t Si bom (sucesso na voz de Edith Piaf) e Petite fleur, de Sidney Bechet, saxofonista e clarinetista de Nova Orleans, radicado em Paris, nos anos 1940; e dois brasileiros, Aquarela do Brasil e Emoções, de Roberto Carlos

De la musique

A abertura foi com o Festival da Canção Francesa, uma promoção que ainda reserva etapas regional e nacional, cujo campeão ganhará uma viagem com tudo pago para concorrer na França.

Disputa vencida por Rayssa Raquel, com tema da atriz e cantora Louane Emera, semifinalista do The Voice e eleita a revelação, em 2013, pela Academia Francesa de Artes Cinematográficas.

Rayssa viajará em outubro para Recife para representar o Rio Grande do Norte na regional Nordeste.

No intervalo entre as apresentações dos cantantes, conversei com o coronel da reserva da Aeronática Isac Miranda, travestido de Adolf Hitler para atuar na peça teatral Hospital Psychiatrique Saint Joconda, roteirizada e dirigida pela professora de história francesa Sueli Ratto.

Aluno do décimo período, Isac é de Belém do Pará, residente em Natal há mais de 20 anos, com filhas e netas potiguares.

“São vários personagens loucos com praticamente o mesmo objetivo, dominar a Europa. Então tem o Charlemagne, o Carlos Magno, o Napoleão e o Hitler. Eu sou um dos loucos”.

Com várias viagens à França, ele confessa a paixão pelo objeto de estudo.

“A língua francesa é apaixonante, né? Tive oportunidade de estudar francês desde a época da escola e gostava muito. E como gosto da Europa e, pra mim, a parte mais cultural de lá é em francês, eu resolvi estudar a língua. Adoro a França. É também uma forma de ocupar a mente e continuar a evoluir no idioma e na cultura, porque aqui na Aliança a gente estuda muito a cultura francesa”.

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Fotografias: John Nascimento

Coisa que o norte-rio-grandense pouco faz, mesmo com tanta influência francesa nos campos político, econômico, social e cultural brasileiro.

Da Revolução Francesa, uma das bases em nosso processo de Independência; da belle époque, que mudou a arquitetura e a moda tupiniquim; da fundação da USP, que contou com a presença de intelectuais franceses, como Claude Lévis-Strauss e Roger Bastide, e do próprio modelo de universidade pública implantado por estas bandas, bem semelhante ao francês, temos ‘galicismos’ em tudo quanto é canto do Brasil.

Isso sem falar no idioma e na gastronomia, com chefs potiguares especializados na haute cuisine.

Quer mais?

Foi um francês chamado Jean Losteau, aportuguesado para João Lostão Navarro, quem acomodou os sobreviventes do Massacre do Cunhaú em sua casa forte em Barra de Tabatinga, em meados do século XVII.

Portanto, as similitudes estão aí, basta abrirmos os livros e recontarmos as histórias.

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Carmen Vasconcelos estuda francês com foco literário: “[…] Não sei se vou ler Proust no original, meu autor francês predileto, mas gostaria”
A poeta e analista judiciária Carmen Vasconcelos, também aluna da Aliança, acompanhava as atividades do arraiá e revelou seu maior interesse pela cultura francesa:

“Literatura! Não sei se vou ler Proust no original, meu autor francês predileto, mas gostaria. Aqui eles cultivam muito isso da literatura francesa, temos essa atmosfera aqui. Li uns pedacinhos de Os Miseráveis, de Victor Hugo, mas muito pouco”.

De volta ao auditório, o quarteto instrumental Os Pirilampos da Meia-Noite merece destaque – ainda que Luiz Felipe Dantas dos Santos e Adriano Charles da Silva Cruz tenham levado o prêmio no concurso de talentos só para alunos, com direito a duas bolsas integrais para um semestre.

Na figura do médico ginecologista obstetra Sidnei Barros, descubro que a banda tem cerca de dez anos de união, com choro, samba, bolero e bossa nova no comando do repertório – que incluiu três temas franceses, os standards Michelle, Ces’t Si bom (sucesso na voz de Edith Piaf) e Petite fleur, de Sidney Bechet, saxofonista e clarinetista de Nova Orleans, radicado em Paris, nos anos 1940; e dois brasileiros, Aquarela do Brasil e Emoções, de Roberto Carlos.

Ele próprio um estudante de francês da Aliança, Sidnei toca saxofone no Pirilampos.

“Não tocamos para ganhar dinheiro. Tocamos por diletantismo e para levar alegria aos lugares mais sofridos, como o Juvino Barreto (abrigo de idosos), Lar da Vovozinha. Não ensaiamos, peguei as músicas aqui, minutos antes de tocar”.

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Peça Hospital Psychiatrique Saint Joconda, escrita pela professora Sueli Ratto, contou história de personalidades famosas, como Hitler e Napoleão, reunidos em um manicômio

Bravo!

Três semanas atrás, eu conversava com Séverine na hora em que uma mulher baixinha, de feição simpática, abriu a porta de vidro da sala e me perguntou, já com a resposta na sequência:

“Sabe quem eu sou? O cão de guarda daqui”.

Era Elvira Santiago, secretária financeira e aluna da Aliança Francesa Natal desde 1981, uma currais-novense filha de um engenheiro mineiro que migrou para o Rio Grande do Norte nos 70s para trabalhar na mina Brejuí e dar aulas de geologia na UFRN.

Soube desses dados biográficos no dia do arraiá, em uma rápida conversa que também me revelou sua origem italiana e basca – povo que habita uma região entre a França e a Espanha, famoso por aqui em virtude do grupo terrorista ETA e pela raça do Athletic de Bilbao em sustentar elencos futebolísticos apenas com jogadores nascidos no País Basco.

Elvira também é engenheira, o que pouco significou na hora de mudar o rumo profissional.

“Como meu pai trabalhava numa mina que tinha muito estrangeiro, pra mim, isso era muito normal, gente falando outra língua. Eu era pequena. Mas sempre tinha gente falando outra língua perto de mim. Na infância e na adolescência eu lembro disso muito bem. E meu pai falava cinco línguas, alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, tinha livros até em russo”.

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Diretora da Aliança Francesa Natal, Séverine Etxenique comemorou sucesso do evento: “Acho que as pessoas se divertiram. A gente cantou. […] o concurso de talentos foi de superbom nível esse ano. Eu desejo que para os nossos 60 anos, no ano que vem, seja ainda melhor”.
Para um visitante desavisado, algumas figuras presentes chamavam atenção pelas fantasias, com reis, rainhas, camponesas e os supracitados Hitler e Napoleão de um lado para outro no auditório e nas imediações da lanchonete.

Principal atrativo da noite, a peça Hospital Psychiatrique Saint Joconda reuniu um grupo de alunos em um manicômio criado pela professora Sueli.

Desconheço se tinha profissional em cena, mas algumas interpretações passariam por média em qualquer teste dramático mais exigente.

“Esse texto saiu da minha cabeça, inventei a partir dos fatos históricos. Fiz todos os personagens famosos se encontrarem em um hospital psiquiátrico. Todo mundo é doido. Inventei de última hora, contei com a colaboração de muita gente, de aluno à diretora”, disse Sueli.

Professora de história e literatura da Franca, ela é uma paulista que veio morar em Natal em 1970, trazida pelo pai comerciante com “espírito de cigano” – a mãe é potiguar.

“Sempre gostei da cultura da França. Uma vez, eu estava fazendo o que não gostava, que era trabalhar com contabilidade, e decidi fazer alguma coisa que gostasse. Me inscrevi na Aliança Francesa e fiz francês. Fiz o curso de história e literatura, através de um intercâmbio que existia com a Universidade de Nancy, na Franca. E pronto. Desde 1987 dou aula aqui”.

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Ano que vem a Aliança Francesa celebra 60 anos na capital potiguar

Aplausos efusivos, bravo! bravo!, no encerramento da dramaturgia.

O encerramento com a quadrilha estilizada no salão central da Aliança foi sonorizado por um trio forrozeiro típico, com versões pra lá de animadas de Luiz Gonzaga e das bandas cearenses dos 1990.

Pergunto a Séverine Etxe se a festa transcorreu como ela esperava.

“Eu tô muito feliz, primeiro porque tá lotado. Pra mim, é um sucesso. Acho que as pessoas se divertiram. A gente cantou. Acho que o concurso de talentos foi de superbom nível esse ano. Eu desejo que para os nossos 60 anos, no ano que vem, seja ainda melhor”.

Prestes a entrar no carro para ir embora, um flanelinha de tênis vistoso e olhar avermelhado me aborda.

“Festa irada, né, não? Tem até um cara engolindo fogo. Depois só vai ser ruim pra ele arrumar mulher que beije aquela boca, né, não?”.

Fotografias: John Nascimento

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