Traição no Forte de Ceulen

Forte Ceulen no Rio Grande (Forte dos Reis Magos), por Frans Post (1638)

Por Demétrio Diniz

O coronel Joris Garstman dobrou a rua do Bom Jesus, ouvindo as orações que vinham da sinagoga dos sefarditas, e ao chegar no cais do Apolo viu duas raparigas louras que àquela hora da manhã ainda tentavam angariar cliente. O coronel, protestante rígido, evitou olhá-las e praguejou:

– Imundas!

Pôs o pé direito no Bullestrate, como sempre costumava fazer sempre que adentrava o iate, e deu a ordem ao comandante da embarcação:

– Solte as amarras.

O coronel e comandante do forte Ceulen tinha sido convocado pelo conselho supremo da Companhia e voltava para Natal com a ordem que lhe dera o presidente:

– Mate todos os portugueses do forte.

O tempo era de céu aberto, e recostado à amurada da embarcação o comandante comia uns biscoitos secos de aveia e bebia de uma bisnaga de vinho. A ele pouco importava a sorte daqueles papistas cheirando a cebola e alho, falando para dentro com a boca fechada. Queria mesmo era dinheiro e jóias, para voltar a Amsterdã e desfrutar de uma velhice de camisola e cachimbo.

À noite, quando desembarcou no forte de Ceulen ouviu choro de menino e lamúrias de algumas mulheres. Conteve a irritação, cumprimentou os portugueses com um boa-noite e prometeu conversar com eles na manhã seguinte. Cansado da viagem, recolheu-se aos aposentos.

Joris Garstman antes de se deitar contemplou as trinta e poucas casas do arruado, algumas ainda com os lampiões acesos, e sorriu ao se lembrar da sorte dos portugueses alojados no forte. Mas ao fechar os olhos, veio-lhe a imagem da moça portuguesa loura, que, separada do grupo, ele a viu cantar um cântico de mouro. Seu ordenança lhe forneceu o nome e a estória: tratava-se de Susana Lamego, filha do dono do engenho Pirangi, e que se apaixonara por um tenente francês na viagem que fez com os pais a Lisboa.

Susana surpreendeu-se pela manhã quando o coronel lhe beijou a mão e pediu que ficasse, pois precisava ter uma conversa com ela, iria depois pessoalmente deixá-la no engenho. Em seguida o viu embarcar os portugueses numa lancha.

Os colonos saíram às dez da manhã, contemplando as margens do Potengi, tranquilos, pois confiaram na palavra do comandante, e tudo que queriam era voltar aos afazeres de sua rotina. Algumas mulheres davam peito ao filho, outras cantavam, e os homens pensavam nas vacas que ficaram esses sete dias sem deleitar, provavelmente com o úbere pedrado. João Levinhagen estranhava a ordem do coronel, retendo no forte, apesar de seus rogos, a filha Susana. Mas não havia como reagir. Melhor agora era ter paciência, devolver às suas casas dezenas de compatriotas.

A lancha deslizava na manhã, e de longe se via o colorido daqueles mais de sessenta portugueses com suas jaquetas compridas e calções largos. Os lenços na cabeça das mulheres esvoaçavam na brisa leve do rio. A apreensão entre eles tinha ficado para trás. Havia quase um clima de festa, uma sensação de euforia por retornarem em segurança para casa. O coronel garantira que nada de mal lhes aconteceria, e a guarda militar que os acompanhava confirmava a proteção.

À noite Joris Garstman chamou Susana à sala de comando e preparou-a para a notícia ruim:

– Os tapuias, chefiados por Jacob Rabi, emboscaram os portugueses. Mataram até as crianças.

Dava a sua palavra de honra de que mataria o judeu Rabbi e levaria Janduí ao conselho supremo, ainda que o cacique tivesse duzentos anos, como se dizia de sua idade, e contra os holandeses se levantassem as tribos tapuias e potiguares. Mas que ela, Susana, não se afligisse, dali por diante lhe daria total segurança.

Susana de muito tempo ouvira falar na crueldade de Jacob Rabbi e na dos tapuias. E naquele momento acreditou na afirmação do coronel de que os soldados que davam segurança aos portugueses só escaparam porque atiraram fora as armas e correram, escondendo-se no manguezal.

Se acreditou, porém, no relato do militar holandês, alguma coisa a alertou na sua fala pastosa, no olhar intumescido, nos gestos excessivamente gentis. Que queria dela aquele homem rotundo, de nariz vermelho, em tudo diferente do seu amor francês?

Três dias depois o coronel apareceu pela manhã e disse que só poderia levá-la para casa depois de uma semana.

– Recebi recomendações de Recife. Não é seguro deixá-la agora – falou o holandês, ponderando que poderia ocorrer com ela o mesmo que aconteceu à sua família.

Susana Lamego desconfiou que alguma coisa acontecia de errado. Pediu então que a deixasse sozinha. Precisava organizar o pensamento. Da viseira da cela via a bruma se levantar do mar. E por trás da cerração, a espuma trazida pelas ondas. Estava nessa contemplação quando aos poucos foram-lhe desanuviando as idéias. Por intuição ou sexto sentido percebeu que era prisioneira do forte, e dali somente sairia se cedesse aos apelos amorosos do batavo. E que a chacina de seus pais, irmãos e amigos tinha sido obra do facínora de nariz vermelho. Viu-se frente a frente com o horror. Então aquele homem tinha planejado todo o massacre, e agora a mantinha encarcerada para torná-la frágil, para que ela cedesse ao seu instinto de posse.

Pediu para ver o comandante. Com naturalidade entrou na sala de comando e falou que, uma vez que ficara sozinha, sem amparo, sem família, estava pensando em aceitar sua proteção. Mas pretendia decidir em liberdade, e não contida numa cela para criminosos. Queria à noite sentar-se na amurada do forte e cantar na hora em que a lua saísse.

– Vós serás a partir de agora a senhora deste forte – condescendeu o coronel.

A moça de olhos verdes, de uma beleza como nunca se havia visto, cantou os cânticos de mouro mais dolentes que sabia:

– Para frente e para trás navega meu barco. Para frente e para trás anda minha vida.

Os cabelos louros davam brilho à noite. Alguns soldados, que não gostavam da música dos portugueses, assim mesmo choraram, tal a doçura do canto. E foram eles que a viram de um salto desaparecer no mar.

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