Trajetória de antes

TC

Na entrevista ao Portal Sul21, o escritor Fernando Monteiro faz referência à excelência poética de Mariana Ianelli. Fiquei curioso, não conhecia ainda o trabalho da poeta, recorri ao Google e cheguei a uma pequena coletânea dela, que inicia com o poema abaixo (no final, link para a coletânea).

Por Mariana Ianelli

FILHOS DO FOGO

Não foi o cansaço da jornada
Que de novo nessa noite nos venceu,
Mas um sofrimento antigo, igual a sempre,
A realidade com sua mão espadaúda
Juntando a poeira de uns castelos demolidos,
De tudo extraindo o que sobra de nosso, afinal:
O irreversível.

Cultivamos rituais silenciosos,
Temos dentro de nós a alma do mundo.
Fomos feitos para a solidão,
A mesma que sente um animal
Ao largar o seu rebanho
E esperar a morte suavemente
Numa longa tarde de chuva em Gibeon.

Damos calor às coisas enquanto é tempo
E mais tempo há enquanto estamos mudos.
Gozamos um amor tranqüilo, sem heroísmo.
Assim acontece certas vezes, por espanto:
De um golpe, o infinito nos apanha.

De Fazer Silêncio (2005)

********

http://www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet202.htm

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. Danclads Andrade 30 de agosto de 2011 13:37

    “Damos calor às coisas enquanto é tempo
    E mais tempo há enquanto estamos mudos.
    (…)
    De um golpe, o infinito nos apanha”.

    Poemas para refletir ou reflexões em poesia?

    Não importa a resposta: é poesia e ponto!!!

    Tácito, obrigado por nos brindar com esta postagem.

  2. Ednar Andrade 29 de agosto de 2011 20:50

    Boa noite, meu Editor querido. De fazer silêncio… Acredite, com salada e vinho, estou a saborear este belo presente. Muito bom!! Eu também, assim como Jarbas, nada sabia sobre Mariana Ianelli.

    “Damos calor às coisas enquanto é tempo
    E mais tempo há enquanto estamos mudos.
    Gozamos um amor tranqüilo, sem heroísmo.
    Assim acontece certas vezes, por espanto:
    De um golpe, o infinito nos apanha.

    … Cultivamos rituais silenciosos,
    Temos dentro de nós a alma do mundo.
    Fomos feitos para a solidão,
    A mesma que sente um animal
    Ao largar o seu rebanho
    E esperar a morte suavemente
    Numa longa tarde de chuva em Gibeon…”

    (Mariana Ianelli).

    Nua e crua, verdades.

    Beijos.

  3. Anchieta Rolim 29 de agosto de 2011 20:02

    Valeu pela dica Tácito, esse poema é realmente lindo! Vou agora mesmo ver a coletânia.

  4. Jarbas Martins 29 de agosto de 2011 19:24

    Nada sei da poesia de Mariana Ianelli, a não ser este “Filhos do Fogo”, aqui postado.Que bom rever, nestes inícios dos anos dez do século XXI, a volta do verso em toda sua força, ardência e inventividade.A julgar por esse poema de Mariana Ianelli – estas são as marcas que a definem e a eternizam.A cruzada, da qual infantilmente participei, ao lado de Moacy Cirne,Dailor Varela,Anchieta Fernandes e outros – quando, em 1966, lançamos no Estado as bases da Poesia Concreta – denunciando o verso, seu verbalismo o conteudismo na poesia etc., mostrou-se, ao mesmo tempo necessária e drástica.Necessária, por que se rompia com os cediços cânones literários da época, e mostrava, em outro âmbito, o verso viçoso e inventivo das canções de Caetano Veloso e Chico Buarque.Mas renegar a poesia de Carlos Drummond…só por conta do seu verso literário – valeu por um ato terrorista contra a poesia brasileira.

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