Trajetos de um livro raro

Por Marcos Caldeira Mendonça
TREM Itabirano nº 100

É possível um leitor apaixonado pela literatura recusar um exemplar da primeira edição de Alguma Poesia, livro de estreia de Carlos Drummond de Andrade, lançado em 1930 com apenas quinhentos exemplares? Raríssimo, portanto, capaz de fazer bibliófilos do mundo inteiro darem piruetas nus, na chuva, para tê-lo. Sim, é possível; recusei.

Em setembro de 2010, meu telefone fez triiimmm: “Marcos, quer ver uma primeira edição do primeiro livro de Drummond? Está na minha gaveta”. O convite veio do engenheiro itabirano Antônio Alvim, funcionário público municipal. Consoante a filosofia Miojo, respondi: “É pra já”. Peguei minha Nikon e toquei o coche para a casa de Antônio.

Encontrei-o na varanda, revendo fotos antigas de parentes – ah, o tempo, devora(z)dor. Após meia hora de papo, ele pediu um minutinho, entrou e retornou com algo embrulhado num plástico mole, de biscoito de polvilho. Enterrei os olhos no volume como um sanhaço observa mamão madurinho nesses quintais itabiranos. Antônio, calado, se alinhou ao meu lado e iniciou o desempacotamento. Primeiro movimento da Quinta de Beethoven: tchan, tchan, tchan, tchaaaaannn…

Eis o tesouro, um volume da edição primeira do livro com o qual um dos maiores artistas deste país, em todos os tempos, inaugurou sua estupenda trajetória. Atravessou oito décadas, nada o destruiu, nem fogo, nem traças, nem crianças. Manuseio, discórdias do lar, mexe-mexe nas gavetas, possibilidade de furto… A tudo superou.

Olhei capa, contracapa, lombada, colofão, folha de rosto, índice (TABUA, está escrito, sem acento), tudo, manchas, dobras e sulcos feitos pelas oito décadas. Não o apertei contra o peito, como as adolescentes do Colégio Nossa Senhora das Dores fazem com seus diários, mas, confesso, foi por pouco.

No alto da capa, um Carlos Drummond de Andrade escrito em letras pretas. Abaixo, quase no meio, em azul, alguma poesia, tudo com minúsculas. Abaixo, um traço azul; depois, em caixa-alta, Edições Pindorama, Bello Horizonte, 1930.

Antônio leu para mim a dedicatória escrita por Drummond: “Ao caro Antonio, este livro e um abraço do Carlos. B. H., maio, 930”. Presente do poeta para outro Antônio, o Camilo de Faria Alvim, itabirano, advogado, político, professor e um dos fundadores da Faculdade de Filosofia da UFMG.

Li as correções feitas a mão pelo poeta. Em “Lagoa”, Drummond borrou um “vi” repetido no verso “Eu vi a lagôa”. Em “Cidadezinha Qualquer”, corrigiu o verso “Um cachorro vae devagar”. Ele riscou a palavra “cachorro” e escreveu “homem” acima.

Emendas iguais às que estão em um exemplar que foi do próprio poeta, hoje pertencente a Pedro Drummond, neto do autor itabirano, e que serviu de base para uma bonita edição fac-similar publicada em 2010 pelo Instituto Moreira Salles, em comemoração aos 80 anos de Alguma Poesia.

Meu encontro com esse livro rendeu uma página de reportagem n’O TREM. À então superintendente da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), Marília Ramos, sugeri largar tudo o que fazia naquele momento para dar início ao processo de municipalização da obra. Comprá-la, restaurá-la e incorporá-la ao acervo do Memorial Drummond, recomendei.

Dei essa sugestão apenas para cumprir minha obrigação jornalística. No fundo, e no raso também, jamais acreditei que a FCCDA adquirisse a preciosidade. Vivíamos tempos do obscurantista governo João Izael, inimigo dos livros. Aquela turma era banda Calypso demais, era muito Gugu Liberato. Não conseguia entender a importância do livro.

Dois anos se passaram. Em 2012, a medonha turma que governava Itabira – governava é modo de dizer – foi chicoteada nas urnas, com 70% dos votos para a oposição, e o novo prefeito, Damon de Sena, nomeou o artista plástico Marconi Drummond para a FCCDA. Esse sabe a importância do livro, eu disse a mim mesmo, e decidi voltar a escrever sobre a obra n’O TREM, até convencer a prefeitura a comprá-la.

Em março deste ano, publiquei uma nota na página 8, intitulada “Itabira, não perca esse livro”, com foto de Antônio Alvim segurando o tesouro. Trecho: “Sorte. Nenhum carioca ou paulista comprou um livro raro que precisa urgentemente ser incorporado ao acervo cultural itabirano… Se um particular comprá-lo, será uma perda imensa para Itabira. Turma da cultura do governo Damon de Sena, Antônio Alvim mora na rua Tiradentes”. Foi um texto-arapuca, direcionado muito especialmente a um leitor: Marconi Drummond, que é assinante d’O TREM.

Dois dias depois, um empresário local me comunica: “Marcos, li no jornal sobre o livro raro do Drummond. Que tal se eu comprá-lo para presentear O TREM?” Respondi: “Esse livro não deve pertencer a uma pessoa, mas a Itabira, para que todos possam fruí-lo. Sugiro que o compre para o Memorial Drummond. Ademais, sendo de Itabira, também será meu. Posso cutucar o dono e dizer que você quer adquiri-lo para nossa cidade?” Cutuque, respondeu ele, para quem R$ 20, 30 mil é dinheiro em porquinho de plástico.

Tenho milhares de livros, alguns raros, ou medianamente raros, mas não sou hospedeiro do vírus José Mindlin. Gosto das obras literárias mais pelo conteúdo, pelo que me ensinam e me divertem, do que pela raridade. Por isso – e também por nunca ter me interessado pelo valor financeiro dos livros (sou leitor, não negociante) – não hesitei em defender a compra de Alguma Poesia para Itabira.

Eu com sinal verde do empresário, meu telefone faz triiimmm. Era uma secretária de Marconi Drummond. Disse-me que ele leu sobre o livro n’O TREM, ficou interessado e a mandou me pedir os contatos do dono. A ela passei telefone e endereço de Antônio Alvim – com referências, para facilitar – e enviei e-mail ao empresário: “A FCCDA quer o livro. Vamos aguardar a negociação. Se não der certo, retomamos nossa investida para comprá-lo e doá-lo a Itabira. Concorda?” Sim, ele respondeu. Continuei escrevendo notas n’O TREM, sempre forçando para que o poder público comprasse logo o diamante.

Meses depois… “Caixa, caixa”, diz o narrador da rádio Itatiaia Mário Henrique, quando o Atlético faz gol. Deu certo. O superintendente Marconi Drummond se entendeu com Antônio Alvim, comprou o livro por R$ 20 mil e anunciou essa importante aquisição para Itabira em 31 de outubro, aniversário de nascimento de Drummond.

Alguma Poesia é nosso, é do Memorial Drummond, é de Itabira e ninguém tasca, nem o Instituto Moreira Salles, nem os Corrêa do Lago, nem José Mindlin. Este já morreu, sei, mas, do jeito que era, bem seria capaz de ressuscitar só para comprar a obra.

Que o livro seja usado para fazer mais e mais pessoas se apaixonarem pelas letras drummondianas – itabiranos, inclusive.

Pensei em sugerir ao nosso bom empresário aplicar o dinheiro economizado em outra benfeitoria cultural para Itabira – ajudar a reformar o painel artístico da banda Euterpe, por exemplo –, mas não tenho coragem. Essas ações devem brotar espontaneamente…

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Marcos Caldeira Mendonça é editor d’O TREM Itabirano

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