Tramas de um bordado da vida

“Contra a foice do tempo vão é o combate. ”

                                                                                                                              

William Shakespeare

Uma amiga minha, num bate-papo, expressou um terrível medo de envelhecer. Isso me espantou, pois, ao olhar para o rosto dela, o colágeno gritava! Jovem, uma pele de pêssego. Por que essa preocupação tão cedo? Poderia estar aproveitando a vida. Mas com meu jeito filosófico de ser, enquanto ela se maquiava diante do espelho, fiquei refletindo sobre a idolatria em torno da juventude, como se viver plenamente fosse exclusiva dessa fase do ser humano. `Power Young”

Não contive a curiosidade e perguntei a minha amiga o que a fazia pensar daquela forma, por que essa preocupação tão obsessiva com a velhice. Ela franziu a testa e me disse que a velhice a assustava terrivelmente porque sabe que será um sofrimento se contemplar no espelho e ver seu rosto todo enrugado, sem o viço, a beleza da juventude. Para ela era a total decrepitude. Como encarar o espelho daqui a alguns anos?

Contemplando seu rosto bonito, pele de pêssego e suas angústias, lembrei-me de um poema de Gregório de Matos: “Goza, goza, da flor da mocidade/ Que o tempo trata a toda ligeireza/ e imprime e imprime em toda a flor sua pisada (…)”.

A metáfora da flor é perfeita! Lembrei-me quantas vezes, no meu jardim, pela manhã, contemplava o botão delicado desabrochar numa bela rosa, mas que ao cair do dia já não tinha mais o mesmo viço! Entretanto, pensar na efemeridade da vida, da beleza juvenil não me deixa deprimida tal como minha amiga. Ao contrário, para mim ser consciente da fugacidade do tempo, deve nos ensinar a dar valor às coisas realmente essenciais, a viver cada dia como se fosse o último, beber a vida com muita sede. Mas como convencê-la, como poderia ajudá-la a redimensionar o seu olhar? Mais uma vez Pensei em receitar um livro para ela. Assim, disse que a Literatura tratava desses medos também. Ela faz cara de descaso e ironiza: “Ai, lá vem você de novo com esses escritores e filósofos. Sai desse buraco, Alice!” E eu respondi: “E saia você dessa caverna”!

Certo dia, flanando pelas ruas, parei numa livraria. Pedi um cappuccino e fui folhear alguns livros. E de frente para mim, no meio de uma prateleira, o livro “Saber envelhecer”, seguido de “A Amizade”, de Cícero. Pronto! Achei o livro perfeito para dar a minha amiga. Fiquei eufórica!

Ela recebeu o presente com carinho e um sorriso maroto no rosto como se dissesse: “você não tem jeito! ”. Combinamos de ler juntas, discutirmos, tipo um clube do livro.

Na semana seguinte, por um deslize, acidentei-me e precisei ficar acamada. Mas estava feliz porque minha amiga continuava a leitura e ligava para mim super empolgada  e marcou uma visita. No dia marcado, chegou com um embrulho bonito: papel rústico e cordinha (ela sabia dos meus gostos).

– Trouxe este presente para você, em agradecimento, especialmente pelo belo livro de Cícero.  Realmente está me fazendo ver a velhice por outro prisma.   Como se diz, “A arte de envelhecer é encontrar o prazer, o significado da vida em suas várias fases, em todas as idades, pois todas têm as suas virtudes e belezas.”

Quando abri o pacote, era um pão caseiro que ela havia feito! Que delícia! Fiquei encantada e achei tudo tão simbólico! Dei a ela o livro – alimento espiritual –   e ela me dá de presente um pão feito por ela mesma – alimento para o corpo!

– Ai, ai, ai, meu Deus! Tudo ela poetiza e filosofa.

Rimos bastante. Ela puxou a cadeira, abriu o livro de Cicero e leu um trecho para mim:

“Quando a velhice chegar, aceite-a, ame-a. Ela é abundante em prazeres se souberes amá-la! Os anos que vão gradualmente declinando e estão  entre os mais doces da vida de um homem, mesmo quando tenhas alcançado o limite extremo dos anos, estes ainda reservam prazeres”.

Fizemos uma selfie daquele nosso momento. Será uma lembrança para, quando estivermos bem velhinhas, darmos boas risadas”

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. SuelyNobre Felipe 13 de maio de 2021 21:55

    Que belo texto Gilvania!!! Um texto para ser lido, aderido e jamais esquecido!

  2. Ana Leopoldina 13 de maio de 2021 20:26

    Texto gostoso de ler. Gratidão por essas gostosura com cheiro e sabor de literatura.

  3. Gilvânia Rodrigues Machado 13 de maio de 2021 20:12

    Gratidão, Conrado! É uma honra para mim publicar no site tão renomado!

  4. Lilian Maial 13 de maio de 2021 19:36

    Ah! A eterna busca pela fonte da juventude! Difícil tema, difícil lidar com a degeneração. Mas vc abordou de uma forma poética e filosófica, o que torna tudo mais prazeroso. Contudo, se por acaso vc encontrar a tal fonte, guarda um pouquinho d’água pra mim! Se não, um naco desse pão!
    Beijos, querida amiga!!

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