[Fotografia] Transparências: Corpos e vivências trans

A comunidade trans sofre com a falta de espaço e voz . Em alguns momentos, apagada completamente da história, em outros, transformada em algo de outro planeta.

Por isso mesmo transparência: quase não são vistos, quase não são percebidos. Mas, quando são, é de forma preconceituosa, baseada em ideias pré-concebidas.

Os retratos aqui buscam mostrar exatamente o que é possível ver: pessoas comuns, em parques, em suas casas, na morada dos avós, na universidade, locais onde felicidade e acolhimento se revelam.

São homens e mulheres como quaisquer outros, com uma vida toda, com histórias, sonhos e medos. Corpos e vivências singulares.


O enfermeiro Pedro Arthur Dias Camilo tinha 26 anos na época da fotografia na própria casa onde mora com a noiva. “É cada detalhe que se encaixa com o meu interior faz-me se encontrar com meu verdadeiro eu! Confesso que não é fácil viver em um corpo que não é meu, porém a cada característica que posso adquirir para que meu gênero se sobressaia tem sido uma vitória diante de cada batalha travada no meu dia a dia.”

Outro enfermeiro, Lauro Gabriel tinha 23 anos à época da foto acima.: “Pra gente que é trans viver é uma batalha diária, nesse cenário político atual trabalhar já é um privilégio, imagina uma pessoa trans trabalhando e com o que gosta? É pra realmente ficar feliz e ser grato ao
universo pelas coisas boas virem, porque a gente tem que trabalhar muito mais pra ser
reconhecido como os bons profissionais que somos.”

Marina de Freitas Pinheiro Alves é modelo e estudante de psicologia. Tinha 23 anos ao ser retratada: “Comigo mesma eu me sinto maravilhosa. Assim, comigo mesma. É a realização de uma utopia – da utopia – da minha vida. Eu nunca pensei que eu iria realmente chegar onde eu cheguei, mas eu ainda sou muito insegura em andar na rua e tudo mais. Tem aquela coisa de como as pessoas te veem. E sendo por mal ou por bem, eu chamo muita atenção na rua. Eu sou tímida, então o fato de eu ser trans às vezes me incomoda muito por eu não saber como as pessoas estão me recebendo na rua. Porque são muitos olhares feios.”

Alex Oliveira é fotógrafo, tinha 21 anos ao ser fotografado: “Foi um processo longo de aceitação – de auto aceitação. Foi confuso, doloroso, realmente um pesadelo. Mas nada se compara a leveza de saber quem eu sou. Minha maior vitória, além disso, foi ter o apoio de grande parte dos amigos e da minha mãe, e com isso poder dar início a terapia hormonal, que era um sonho. Maior desejo é usar o privilégio que tenho como fotógrafo para dar visibilidade a essa comunidade que tanto sofre. Lutar para que a ignorância não reine mais, um dia. Se depender de mim, não vai.”

Melanie Matos da Silva é estudante de Letras Espanhol. Tinha 29 anos no dia do ensaio no Parque das Dunas: “Ser trans é uma luta e um desafio diário: há seus dias bons e ruins, mas isso é uma jornada. Por mais árdua que ela seja, nada pode me tirar a felicidade de me olhar no espelho e finalmente me ver ali. Claro, ainda há momentos de disforia, mas esses são poucos em relação a delícia que é ser reconhecida como eu mesma, como a Mel. Nesses 15 meses de tratamento hormonal, eu consegui andar passos gigantes, que antes eu pensei ser apenas um sonho. Mas a cada nova vitória, cada novo desafio, cada novo reconhecimento me dá mais é mais vontade de seguir em frente. E eu ainda tenho um longo caminho; ainda quero minha cirurgia de conformação de gênero, e meus documentos com meu nome social. Mas eu sei que perseverando eu chego lá. Essa é a minha jornada. E eu vou trilhar esse caminho sempre com um sorriso no rosto.”

Arthur Lorenzo estuda Relações Internacionais e tinha 21 anos quando tirou este retrato: “Ser trans aqui, ser homem trans, receber gratuitamente ódio e ao mesmo tempo, sendo pouco, um certo acolhimento, faz a gente ter um tico de esperança mesmo sabendo que ainda têm muita coisa pela frente. O que eu alcancei foi compreensão de uma das pessoas que mais me deixava nervoso, que é minha mãe! Inacreditável como ela sabe de muita coisa do “nosso mundo”, e ainda sim querer aprender mais. Nessa jornada o máximo que eu quero poder fazer e alcançar, mesmo sendo difícil, é que todos os homens trans consigam se expressar, ser quem são sem aqueles estereótipos bastante problemáticos não só pra eles mas pra todos.
Infelizmente, se você não seguir um padrão que existe, você é escrachado por todos.”

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Andréa Regis 10 de Maio de 2019 13:01

    Adorei as fotos, as histórias. Parabéns.

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