Transporte urbano: as coisas estão no mundo

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Imprensa escrita e tv têm noticiado os protestos em diferentes cidades brasileiras contra ao aumentos nas tarifas de ônibus. Muito rapidamente, os que protestam são considerados vândalos. Governantes de diferentes partidos (PSDB e PT, por exemplo) condenam os protestos em nome da Lei. Minha querida amiga Anne Guimarães, em correspondência eletrônica pessoal, rejeitou a ação dos que impediram a circulação dos ônibus em Natal.

Fiz questão de registrar a opinião de Anne, pessoa por quem tenho a máxima afeição, para começar a falar sobre esse assunto a partir de três pontos:

1) Não participei dos atos em São Paulo.

2) Considero que o problema contra o qual ocorrem protestos é real.

3) A experiência política brasileira pós-ditadura tem sido marcada pelo esvaziamento do espaço público.

A última passeata de que participei foi em 2006, contra a invasão do território libanês por tropas israelenses. Sou favorável à existência do Estado de Israel e muito contrário a sua política de convivência com palestinos e vizinhos. Vi fotos de crianças libanesas mortas pelos bombardeios israelenses daquele momento e fiquei horrorizado. Quatro anos depois, participei de um Simpósio no Líbano, as marcas de tiros em prédios de Beirute (cidade muito bonita) eram assustadoramente visíveis, tanques de guerra ainda andavam pelas ruas como medida preventiva contra possível ataque israelense, as rodovias do país sofriam controle militar em função de possíveis agressões israelenses.

Fico surpreso com a incompetência das autoridades brasileiras diante de passeatas e outras manifestações coletivas. Facilmente, lançam balas de borracha e também gases que provocam reações dolorosas em todos que sofrem seus efeitos. Agora mesmo, nessas manifestações contra os preços de transporte público, autoridades aparecem na tv considerando injustificáveis atos contra problemas absolutamente palpáveis.

Os salários pagos no Brasil são vergonhosamente baixos. As despesas com transporte são muito altas. As políticas públicas de transporte são ineficazes.

Não defendo queima de pneus nem quebra de vitrines. Mas considero bem pior as imensas dificuldades na sobrevivência cotidiana da população. Lembro bem, no fim da ditadura, dos comentários que a grande imprensa paulistana fez contra o movimento dos desempregados, que promoveu acampamento no Ibirapuera, ao lado da Assembléia Legislativa. Diziam que os acampados prejudicavam o patrimônio público porque estragavam o gramado do parque. Parece uma citação involuntária de Chico Buarque: Morreu na contramão atrapalhando o tráfego.

O período pós-ditadura, no Brasil, prima pela desvalorização de movimentos sociais. Algumas de suas bandeiras foram mais ou menos expropriadas por diferentes governos mas o principal – a capacidade de organização e planejamento de atos racionalmente dirigidos – se esvaziou gravemente, com o auxílio luxuoso de governantes ligados a diferentes partidos. Nesse sentido, descontrole dos movimentos sociais é também um feito dos governos que dirigem o país desde 1985.

Prefiro paz e conforto para todos. No mundo real onde vivemos, paz e conforto são luxos para quem pode pagar.

Espero que esses problemas sejam superados, os movimentos sociais se rearticulem mais e os governos ajam pelo bem público.

 

 

 

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Marcos Silva 13 de junho de 2013 8:46

    O Prefeito Haddad, de Paris (junto com o cadaveroso Alckmin), informa que cumpriu a promessa de campanha eleitoral – aumento das passagens abaixo da inflação.
    Acorda, Haddad! A campanha passou. Depois da eleição, outras correntezas.
    O poder de estado cega, embriaga, dá sono – ainda mais, sous le ciel de Paris. Daí, a necessidade de uma sociedade civil acordada.

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