Três cartas sobre polícia e FHC na USP

1)                 Prezados Colegas!

Novamente o arbítrio e a violência policial em nosso espaço de trabalho! As razões são de muitas naturezas e as práticas nada condizentes com as funções fundamentais para uma  democracia ampliada e contínua necessária aos desafios postos em nosso tempo. De um lado, acontecimento terrível, mas corriqueiro na cidade rompe com os princípios universais que regem a vida universitária nos diferentes países. Espaço de liberdade para invenção, experimentação e de práticas políticas que estimularão novas possibilidades de organização da vida social, pela crítica do viver no tempo presente.

Gestores universitários preferem o autoritarismo no lugar da autoridade, a força no lugar da argumentação, a repetição no lugar da criação e os estigmas e preconceitos no lugar do reconhecimento das singularidades. Assim, jovem rebelde é bandidinho, civilidade é truculência, diversidade é contaminação. Neste momento em que a eugenia é claramente um programa de Estado, onde o corpo, a libido e o prazer devem ser regido por intervenções do poder público, as respostas dos “rebeldes” acabam por seguir a mesma lógica, já que somente os confrontos se põem como possibilidades do medir forças em que as práticas da intolerância aparecem como racionalidade para um grupo e irracionalidade na representação do outro.

Cito o exemplo de recente acontecimento traumático na Noruega, um país com um construto de direitos civis muito bem consolidado. A ação de um cidadão que culminou na chacina de jovens que desfrutavam de um lazer bucólico foi respondida com a defesa de mais liberdades e aprofundamento da democracia, tanto pelos governantes (uma monarquia) quanto pelos cidadão. Aqui, na res-privada, a resposta é elevar os muros, as cercas, as grades, chamar a polícia e fingir que as drogas, versão contemporânea do capitalismo, são resíduos das bandidagens e não equivalente do amplo mercado internacional e de nenhuma remuneração ao fundo público.

Impedida de estar presente nas duas próximas semanas por viagem de trabalho em Angola e Moçambique, espero que as grades não sejam ainda mais resistentes no encaminhamento dos conflitos e que os estudantes possam refletir se ocupar e colocar barreiras não siguinifica exatamente o mesmo. Proponho que se faça um debate público no Campus, com a presença de Fernando Henrique Cardoso que tem argumentos muito interessantes sobre a liberação da maconha.

Que tal um ritual de baseado coletivo!!!

Zilda Iokoi

2) Prezada Zilda:

Somos Historiadores e nos formamos na mesma época (meados dos anos 70), fomos alunos de Fernando Novais e lemos Caio Prado Jr., dentre outros historiadores dignos. Temos a obrigação de garantir o acesso a determinadas experiências do passado (do presente também, com esperança na existência de algum futuro) para evitar que o reino da Ideologia tenha continuidade.

Em 2000, 500 anos do “achamento” do Brasil, houve uma grande comemoração em Porto Seguro, com a presença destacada de FHC e participação secundária do ex-uspiano Weffort (Ministro da Incultura?). Movimentos sociais (negros, índios e outros) se apresentaram no ato, em protesto contra o oba-oba reinante. Foram ferozmente reprimidos, incluindo espancamentos e gente que foi hospitalizada. FHC e Weffort encararam tudo olimpicamente. Nunca pediram desculpas nem indenizaram os espancados, hospitalizados, humilhados e ofendidos.

É esse FHC que vc está propondo ser convidado para vir à USP falar?

Considero esse convite um insulto à USP.

Espero que esse horror não nos envergonhe.

Cordialmente:

Marcos Silva
Professor Titular do Depto. de História da FFLCH/USP

3) caros colegas
queria expressar meu total apoio as considerações feitas pelo Marcos
em relação à proposta da Zilda
aproveito para acrescentar abaixo a carta que envio aos meus alunos
de pós-graduação que deveriam ter aulas nesta quinta feira
expressando minha mais profunda indignação
um abraço
ana fani carlos

a aula que não aconteceu: minha indignação e uma proposta de
continuidade, se a política da reitoria deixar!

Caros estudantes
Foi com grande indignação e imensa tristeza que vi na última quinta
feira a PM invadir o espaço da universidade e, ao fazê-lo, impor sua
violenta racionalidade à vida cotidiana do campus. As “forças da
ordem” instauraram o caos usurpando a liberdade necessária e
indispensável à realização de nosso trabalho, com o discurso da
manutenção da mesma “ordem” que ele subverteu.

Não é difícil reduzir sua ação ao combate do tráfico de drogas sob o
argumento de que o tratamento ao usuário de droga pego em flagrante
deve ser o mesmo para todos os cidadãos sejam eles estudantes ou não,
estejam eles no campus universitário ou fora dele.

A questão esta longe de se resumir a esta ação /atitude. A situação em
que nos encontramos é muito mais complexa. Trata-se do modo como o uso
da força é justificado pelas autoridades. Assim a presença impositiva
de uma fileira de motos, um despropositado número de PMs no
estacionamento do prédio da História/Geografia, para autuar três
estudantes (antecedidos por blits constrangedoras e cada vez mais
freqüentes aos estudantes da USP) com seus gadgets, somados á bombas
de “efeito moral” instauram o caos e impediram que a atividade fim da
universidade se realizasse. Além do que acabaram gerando mais
violência e, com ela, um impasse, cujo desfecho certamente recaíra –
como de hábito,pela punição aos mais fracos.

Consequentemente, trata-se de buscar a real origem de todo este caos
que invade a vida cotidiana do campus subtraindo-lhe o sentido, e não
poderia ser outra senão a lógica que orienta as atitudes da atual
gestão universitária. Tal atitude vem revelando um desconhecimento do
papel e sentido histórico desta instituição pública, preocupada que
esta em atender as exigências do mercado – no discurso tratado como
aproximação entre universidade-sociedade (seja lá o que isto quer
dizer!)

Os crimes de todos os tipos e assassinatos não podem e devem ser
aceitos passivamente, nem no campus, nem fora dele, mas suas origens
parecem não estar suficientemente claros, o que parece certo, todavia
que com violência e negação de direitos civis estaremos cada vez mais
distante da busca de possíveis e desejadas soluções.

Certamente, trata-se de formar nossos estudantes na busca da
compreensão do fato de que o consumo inocente de um baseado, reproduz
o circuito do narcotráfico fundado numa violência ainda maior do que a
da PM, e cuja existência impede o mais simples convívio social nas
áreas de sua atuação direta, bem como, no plano da sociedade a
realização de um projeto que busque a realização do direto à cidade, á
realização da cidadania plena e a subversão da situação de
desigualdade que funda a sociedade brasileira. Certamente os
estudantes envolvidos nesta batalha devem ser totalmente favoráveis á
superação desta condição de desigualdade que inclusive impede que a
maioria daqueles que se encontram na mesma faixa etária tenham acesso
á mesma universidade pela qual estamos todos engajados em sua defesa.
Abrir os portões da USP para a PM, vem revelando – em curto espaço de
tempo – esta foi uma saída é, no mínimo, irresponsável.

A gestão da USP ao abrir mão de suas atribuições vem de forma
consistente destituindo a universidade de seus conteúdos e sentido.
Para citar um caso dos mais graves, lembramos, aqui, os programas de
pós-graduação deixados – pesquisadores e estudantes, com suas
pesquisas – à mercê das instituições de fomento que vem impondo, no
lugar do debate acadêmico, a competição entre programas e
pesquisadores em busca de linhas em seus currículos lattes.
Competição esta, agora exacerbada pela nova lógica da carreira
docente que faz com que o vizinho de sua porta ao se torne o inimigo
a ser combatido por pontos pela progressão na carreira. Na busca por
estes objetivos, os prazos se tronam cada vez mais apertados
esvaziando o ato de conhecer como ato de habitar o tempo lento da
reflexão, agora, invadida pela quantificação.

Com isso é nosso trabalho que é completamente destituído de sentido, e
o conhecimento produzido redunda em mera banalidade ou meras
constatações. Agora, na mesma lógica que terceiriza a pós-graduação, a
Universidade terceiriza mais uma das atividades que permite a
realização de seus objetivos – a segurança do/no campus.

A cada passo as sucessivas gestões parecem perder pouco a pouco sua
legitimidade para levar a universidade para o futuro prolongando uma
história de conquistas tanto no plano do conhecimento da realidade
brasileira – agora comprometido pelo tempo veloz com que precisamos
produzir textos,artigos, orientações, patentes, etc- quanto no
cenário político brasileiro em sua luta contra a ditadura.
Que projeto vislumbrar? Que futuro podemos construir? Sem dúvida o
coletivo desta grande universidade precisa apontar novas
possibilidades e caminhos mirando o futuro, mas aprendendo com nossa
história…

PS – Essas três cartas foram divulgadas no dia 29 de outubro, no Forum Docente da FFLCH/USP.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

2 + quatro =

ao topo