Três livros que mantêm a nossa tradição poética

Por Thiago Gonzaga
Escritor e pesquisador da Literatura do RN

O poeta é homem, universal: tudo o que agitou o coração de um homem,
tudo o que a natureza humana,
e todas as circunstancias pôde experimentar e produzir,
 tudo o que reside e fermenta num ser mortal, –
é esse o seu domínio que se estende a toda a natureza.
 Arthur Schopenhauer

 

A poesia potiguar na virada do milênio manteve a sua tradição, contribuindo intensamente com o nosso sistema literário; basta citar, como exemplo, um livro interessante, “Lance de Dardos” de Iracema Macedo, publicado no ano 2000. Essa mesma tradição continua ganhando força com publicações de outros escritores, como, por exemplo, as obras contemporâneas, “O Alvissareiro” (2002), de Adriano de Sousa, e “Apaixonada Poesia Louca” (2002), de Carlos Gurgel. Evidente que outros valores também continuaram a publicar poesia,  entre os quais, Diva Cunha, Marize Castro e Paulo de Tarso Correia de Melo, e não só  na capital, mas também no interior, haja vista a pujança literária de Currais Novos e Mossoró.

Mas, como modelo de afirmação poética no início do século XXI, vamos enfocar três livros da nossa poesia, assaz importantes: “Chuva Ácida” de Carmen Vasconcelos, (2000), “A Trama da Aranha” de Anchella Monte, (2001), e “O Colecionador de Horas”, de Lívio Oliveira, (2002).

Aqui abro um espaço para reconhecer que Anchella Monte, poeta de longa carreira e ativista da literatura, embora trabalhe com poesia desde os anos 70, só estreou em livro solo, no século XXI.  Carmen Vasconcelos e Lívio Oliveira, são os da chamada nova geração, e que trazem consigo o encargo de manter a nossa tradição poética, já servindo de modelo para a novíssima geração.

Vejamos exemplos  poéticos de cada um:

Carmen Vasconcelos

CORUJAS

Belo é não ter pátria.
Morar em entrecascas, por aí…
Porém, se te recordo, terra remota,
É ao meu coração que retorno.

E não me é dado dilapidar distâncias.

Anchella Monte

O POEMA

O verso é livre arbítrio
Escolha
Palpite.

Feliz ou infeliz
O verso já existe
Quase exato
Antes do trato.

O verso é promessa
Do poema:
Acerto ou
Equívoco.

O leitor é arbitro
Do poeta que se enreda
No poema.

Lívio Oliveira

DE CRIANÇA

Pulei
e, após o muro,
vi que meus companheiros…

eu já não os podia alcançar.

O filósofo Arthur Schopenhauer, fazendo reflexões sobre poesia e filosofia em sua obra “Sobre a filosofia e seu método”, explana que “o poeta oferece à imaginação imagens da vida, caracteres humanos e situações, põe tudo isso em movimento e deixa cada um levar seu pensamento tão longe quanto sua força espiritual lhe permite…”  Essa mesma imaginação estará marcada em seus versos, de alguma forma, além, claro, do contexto onde ele vive.
É evidente que toda produção humana, inclusive a artística, está inserida em algum período histórico da sociedade. E com a poesia isso não poderia ser diferente. Nela, ficção e realidade se misturam e se confundem. A gênese do texto poético depende da criatividade do autor, que buscará no imenso acervo, aglomerado por suas experiências e vivências, o material que, por meio da palavra, será convertido em versos.

Ao mergulharmos nas obras de Anchella Monte, Carmen Vasconcelos e Lívio Oliveira, observamos que os temas são diversos, extraídos, sobretudo, de vivências e experiências dos poetas e vão desde a metapoesia, as memórias, a erudição, além de outros modelos de construção poética, que se não atingem a  perfeição,  sem dúvida, revestem-se de importância para a nossa história literária. São livros , que, em seu conjunto de poemas, sofrem pouquíssimas oscilações, apenas, um ou dois destes deixam a desejar;  grande parte corresponde à expectativa.

É de se ver que o processo da criação literária pertence  ao campo da atividade imaginativa, que se assemelharia ao sonho, à busca de um ideal.  Através do sonho, isto é, do mundo onírico, como já disse Antonio Candido, o poeta nos introduz numa das grandes manifestações de sua inquietude, e assim como temos a necessidade de sonhar durante a noite para termos equilíbrio psíquico, temos a necessidade da literatura, nesse caso especifico, da poesia.

A obra poética dos  autores citados, neste sentido,  também é importante. Na poesia lírica, manifestam-se todos os sentimentos, à revelia do tempo em que são representados; não existe, exatamente um tempo para limitar as emoções sentidas pelo poeta, ou seja, independente do tempo em que as obras poéticas são observadas, terão a mesma emoção e poderão ser vividas as mesmas circunstâncias de  quando produzidas.  Segundo Walter Benjamim, o escritor narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história. Ou seja, o poeta, assim como o historiador, recolhe das ruinas da sociedade a matéria bruta do seu trabalho, e é  por isso que obras como estas, a que nos referimos, são importantes.  E não apenas para a literatura potiguar, mas sobretudo para o próprio sistema literário brasileiro.

Portanto “Chuva Ácida” de Carmen Vasconcelos, “A Trama da Aranha” de Anchella Monte, e “O Colecionador de Horas”, de Lívio Oliveira, já podem ser considerados clássicos recentes da nossa literatura.

Escritor, pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros. Editor da revista da Academia Norte-riograndense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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