Três notas culturais para me despedir de novembro

1. Uma das coisas que ainda aprecio nas redes sociais – ultimamente tão agressivas e rancorosas – é o relembramento das imagens históricas de uma Natal de outros tempos. Há pessoas que postam pequenos tesouros por lá e fico fascinado, com o olhar fixo e o pensamento voejante diante das fotos em p & b e outras em cores muitas vezes deliciosamente desbotadas. Há ainda os que colocam o antes e o depois, em comparações que saltam aos olhos, quase sempre realçando as grandes transformações ocorridas no tempo. Confesso que me dá uma saudade agradável, uma melancolia romântica que permeia épocas que vivi e outras mais remotas. Por outro lado, isso me traz a sensação e a certeza de que destruímos muito do patrimônio histórico, artístico, cultural, ambiental e mesmo humano de nossa cidade ao longo dos anos. Repete-se na minha mente: até que ponto foi a iconoclastia do natalense e de algumas de suas autoridades governamentais durante esses séculos de existência?!

2. Num desses ensolarados dias de novembro estive na casa de uma dileta amiga estudiosa de nossas letras. Lá, durante um pequeno banquete em companhia de amigos pesquisadores, fiquei a folhear uma coleção de exemplares bem preservados da já vetusta publicação literária “O GALO”, da Fundação José Augusto. Deparei-me com alguns números que eu não conhecia. De tão envolvido com aqueles documentos, desliguei-me por quase uma hora do grupo e cheguei a recompor mentalmente uma história recente da nossa literatura, principalmente das décadas imediatamente anteriores ao fim d’O GALO. Pude comprovar a essencialidade e profundidade daquela saudosa revista que nos vinha em formato de jornal. Entrevistas, ensaios, artigos, poemas, contos, resenhas, iconografia, críticas literárias e artísticas etc. Como a descontinuidade administrativa (muitas vezes sem explicações plausíveis) de projetos que são vitoriosos e producentes pode fazer mal à cultura de nossa terra?!

3. Toda vez que levo um amigo escritor de outro estado para dar uma volta de carro pela nossa capital busco mostrar o centro histórico de Natal, dando destaque e exibindo aquele conjunto arquitetônico que fica entre a Ribeira e a Cidade Alta. Mostro os principais logradouros (Deus salve e recupere as praças e canteiros de Natal!), ruas, edificações, e faço algum esforço para repassar parte de nossa história e de nossa realidade cultural. Sempre me perguntam sobre a existência de algum plano consistente e urgente de recomposição, mesmo que mínimo, daqueles diversos prédios semi-destruídos que vamos vendo ao longo do caminho. Apenas lhes respondo, como o fiz recentemente: “– Infelizmente, amigo, não sei! Parece que há!”. Será que algum dos nossos dignos leitores sabe algo mais concreto (não sei se a palavra cabe bem) sobre isso?!
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Texto também publicado no jornal Tribuna do Norte.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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