Três novos livros de poemas

Por Thiago Gonzaga

Eis que a poesia potiguar contemporânea pode comemorar três novas publicações significativas nesta reta final do ano de 2015, com os novos livros “Ruminar” (Sarau das Letras, 2015), “Corpo Vadio” (Editora Penalux, 2015) e “Relicário” (Sarau das Letras, 2015).

POEMAS DO VAQUEIRO E DO BOI

Todos sabemos que o vocábulo “ruminar” significa “entre os ruminantes, remastigar, remoer os alimentos, aqueles que retornam do estômago à boca” (Dicionário Aurélio, 2010). Mas, em sentido figurado também quer dizer, “cogitar profundamente; pensar, refletir muito” (Ob. cit.). David Leite joga com essa ambivalência, e faz com que o eu lírico se expresse pelos ângulos do boi e do vaqueiro. É o leitmotiv da sua obra. No entanto, o poeta invoca outros elementos do mundo rural. O carro de boi, por exemplo, presente na ilustração da capa do livro – é um dos mais primitivos meios de transporte, ainda em uso no interior do país, para a condução de cargas e pessoas. Quando em movimento, o autêntico carro de boi emite um som estridente, característico, que anuncia a sua passagem. Com elementos como este, formulou-se a proposta de David Leite: cantar o espaço, os animais – principalmente, o boi – as coisas e o homem do sertão. A poesia de “Ruminar”, que tem caráter rural como escrita cultural, de revelação da subjetividade, é exercitada, neste trabalho, dentro dos princípios de significação que o homem dá a sua existência. Mesmo morando em cidade grande, distante do sertão, o escritor,  assumiu através da linguagem poética uma forma de mediação entre sua experiência humana individual e a experiência do sertanejo. Sua palavra registra as transformações e adaptações de formas tradicionais de relacionamento com o território e com o meio social, revelando transições nas vidas dos indivíduos. O universo descrito por David Leite apresenta-se como um vasto campo de possibilidades de entendimento e de despertar de sensações. Mesmo que percorrendo caminhos tão peculiares, como é o da poesia popular, gerada a partir da oralidade e que na transcrição para o suporte gráfico procura manter as características originais da fala, é possível articular interseções entre um conhecimento destituído de formalidade e apegado a emoções artísticas.

A visão poética que ele tem do sertão lhe permite, por exemplo, retratar num contexto poético um nível da sensibilidade que caracteriza e marca seu “Ruminar”.  Atente-se particularmente para os trechos dos poemas a seguir:

A gemedeira do carro de boi
faz o homem,
de beira da estrada,
admirar nossa passagem

Em outro; dando voz ao boi:

Por que
nos marcam
a ferro e fogo ?

“Ruminar” é, para David, um ser vivo, ora humanizado ora zoomorfizado. Mas é no que tange à prefiguração linguística dominante no texto, a metonímia, que se verifica a força maior da poesia.
Estas afirmações apontam para qualidades que tornam “Ruminar”, antes de tudo, uma obra poética, embora contenha, um esboço atinado e intenso da realidade sertaneja, não apenas no lírico, mas nos aspectos histórico e sociológico.  Quanto à programação visual, não nos parece que seja feliz a capa com uma pintura passadista.

David Leite retrata, nos caracteres de sua obra, a impressão conjunta das paisagens, dos animais e das gentes do Sertão, numa poesia puramente brasileira. Dentro do padrão nordestino, uma poesia que é livre das rimas, da métrica, mas arraigada principalmente na filosofia sertaneja, nos costumes, tradições, e plena de um franciscano sentimento em relação aos nossos “irmãos menores”, os bichos.

A TRADIÇÃO REINVENTADA DE CORPO VADIO.

Um erotismo sutil, em forma de arte, esta é a principal característica da obra  “Corpo Vadio” (Editora Penalux, 2015) da poeta seridoense Jeanne Araújo (FOTO). A relação que Jeanne estabelece com os modelos poéticos da tradição poderia chamar-se de uma tradição reinventada. Pois a característica mais evidente da  sua poesia é o viés erótico, que chegou até a nossa literatura, de maneira mais evidente no final dos anos 70 com Socorro Trindad, Diva Cunha e Marize Castro, mas que ganha novo folego e formato com os novos exercícios que se tem feito com a palavra nesse viés no Estado.

O caráter marcadamente metafórico adquirido pelos poemas de Jeanne Araújo representa uma expansão no alcance da poesia. Muito se tem versado sobre tal temática, nos últimos anos, no Rio Grande do Norte, mas, não com a sutileza que a poeta seridoense expressa com efeito, a produção poética de Jeanne  Araújo sugere situações eróticas em forma artística, muito bem construídas.

A poeta trata o tema com rara expressividade, alargando as fronteiras do erotismo feminino, com o seu lírico utilizando-se de metáforas e sugestões  verbais. Revelando anseios e desejos, num evidente enriquecimento poético-erótico, digno de coloca-la em destaque na poesia do Estado. Observamos que a poeta seridoense lançou mão da combinação de elementos que transcendem a simples materialidade linguística e remetem a significações outras, ao mesmo tempo em que cria uma poesia que aponta para uma linguagem erotizada, como vemos no poema  a seguir:

Fruto

Em suma
teu sumo doce
fez fruto
na minha árvore genealógica.

Por meio de metáforas, os elementos constitutivos do poema passam por um processo simbólico de significação que une corpo e linguagem, explorando e sugerindo, assim, o erótico na palavra.  Escritas, como estas, são capazes de criar novas perspectivas, numa poesia de caráter, também, de militância. Não há como descartá-las na construção do discurso literário feminino e potiguar.

O UNIVERSO LÍRICO DE RELICÁRIO.

Outra surpresa agradável, nesse final de ano, é o lançamento de “Relicário” (Sarau das Letras, 2015) da escritora Kalliane Amorim, Embora o título pareça clichê, a poeta trabalha com as palavras de maneira consciente, demonstrando domínio da apropriada arte de escrever poesia. Interpretar alguns dos poemas de Kalliane é trazer para a consciência a paradoxal dificuldade de explicar as coisas simples. O caminho possível é, sempre, atentar para a produção de uma linguagem que nasce a partir de sua necessidade, a necessidade de expressar o essencial.
Kalliane Amorim é uma poeta, de versos despojados, acessível, quase sempre direta. Sua proposta é relatar, sobretudo, os fatos cotidianos, memórias medos, desejos, além da própria arte do fazer poético, a metapoesia. Tais elementos transfiguram-se de tal modo em sua experiência poética que parecem brotar do mesmo chão e serem feitos do mesmo material. Esse procedimento que é próprio da linguagem poética, acaba prendendo o leitor e fazendo com que  este enverede pelos versos, bem trabalhados, da poeta.  A consciência de linguagem de Kalliane Amorim demonstra claramente o exercício constante da leitura e o desejo de se expressar trabalhando formalmente  as palavras. Vejamos um poema:

Arbítrio

Quantas ruas
ouvirão o som dos meus passos?

Quantos telhados
acordarão sobre os meus olhos ?

Quantas palavras
dormirão à minha espera?

Vivo morrendo
de não ser
sendo.

Essa característica vem exatamente do artesanato poético que poeta oestana elabora para comunicar ao mundo uma consciência aguda do sentido da vida e dos limites humanos. Existe aí toda uma arrumação vocabular e exploração dos significados, tudo de maneira clara, objetiva, para expressar uma evidente paixão, não apenas uma paixão pela vida, mas, sobretudo pelas palavras, pelo fazer poético. É esse processo que faz de “Relicário” uma obra genuinamente literária.

Escritor, pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros. Editor da revista da Academia Norte-riograndense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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