Três romances

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

Fazia tempo que eu não conseguia ler algum livro sem que isso estivesse atado a trabalhos e compromissos imediatos. Não podia parar tudo para ouvir música, por exemplo, nem passar dias lendo romances sem que isso fosse servir para alguma finalidade a mais. As férias me deram, entre outras coisas, esse presente de praia: ficção brasileira recente. Pude mergulhar em “Barba ensopada de sangue”, de Daniel Galera, que eu tentava prosseguir mas não engatava, desde o começo do ano passado, por falta de tempo; em “O sonâmbulo amador”, de José Luiz Passos (FOTO), que ganhou o Grande Prêmio Portugal Telecom; e em “Fim”, de Fernanda Torres, que saiu no final do ano e se transformou rapidamente num best-seller. A boa notícia é que, independentemente de premiações e vendagens, gostei — muito — desses três livros, um sulino, o outro profundamente pernambucano, e o outro carioca até a raiz de todos os cabelos.

Nunca troquei uma palavra com Daniel Galera, embora participemos desta mesma página do GLOBO. Na Feira de Frankfurt eu o vi num café da manhã cheio de escritores, à distância, e acenei com animação, numa mistura de pretendida cumplicidade entre colunistas com a naturalidade de quem já tinha navegado o suficiente no seu romance, até ali, para me sentir íntimo. Ele reagiu instintivamente ao aceno, como quem tivesse captado algo da minha intenção, mas já com a estranheza que parecia radiografar a artificialidade do meu gesto precipitadamente espontâneo. Só conto essa ninharia, aqui, para dizer que, na hora, eu me senti dentro de uma cena parecida com aquelas escritas por ele, em que gestos, intenções e frases às vezes os mais ínfimos são captados pelo prisma de um raio X que os decompõe com extraordinária sutileza. Só escritores de verdade produzem esse efeito misto de reconhecimento com estranhamento, que leva para dentro do seu mundo.

O título leva a crer, e joga certamente com esse equívoco, que o livro se compraz com a violência. Mas a cena final, em que o protagonista torce a barba como se fosse um pano de chão, ou um fino cachecol ensopado, é a culminação ao mesmo tempo contundente e hilariante de uma saga solitária, longamente curtida e comovente em busca do conteúdo das fantasias sobre a própria origem. Com José Luiz Passos eu convivi, por acaso, durante os quatro meses de uma estadia em Berkeley, onde ele era professor permanente e eu visitante. Partilhamos atividades didáticas, cotidianas, festivas, e jogamos quatro partidas de tênis (eu nunca joguei nenhuma antes ou depois) das quais ele me concedeu gentilmente o privilégio de ganhar um set. Mas não o privilégio de saber que nele se armava esse fabulador introvertido e desconcertante que eu leio agora, e que ele não deixou transparecer em momento algum, como se andasse com um revolver escondido. Também nessa reserva eu vejo o sinal atravessado de uma escrita singular.

Porque “O sonâmbulo amador” trata do solilóquio escrito e muitas vezes onírico de um funcionário de uma empresa de tecelagem que se debate com conflitos trabalhistas, conjugais, fantasias e recordações eróticas, lembranças obsessivas, pungentes e traumáticas, que confluem para uma loucura na qual nunca deixa de haver método escrupuloso e o sentimento de dignidade ofendida. A sustentação desse tom equívoco é um dos feitos do livro, que tem passagens de alta densidade, embora sempre despojadas. A relação do protagonista com a escrita pode lembrar algo de “São Bernardo”, e os labirintos subjetivos onde coabitam sexo e crime, “Angústia”. Mas a combinação de reserva com maluquice, em tom nordestino, se combina também, a seu modo, com aquelas latências estranhas que se encontram no filme “O som ao redor”: ecos do massacre sertanejo, violência histórica reprimida, feridas sociais abertas e mal disfarçadas.

Fernanda Torres conhecemos todos das telonas e das telinhas. Ela mesma diz que se descobriu escritora com surpresa, a convite de outros. Eu, que tive a oportunidade de musicar “Terra estrangeira”, filme do qual ela é protagonista, me senti íntimo por tabela da inteligência aguda e esperta que ela irradiava a cada fotograma que eu vi centenas de vezes, por ofício. Não duvidaria de que fosse capaz de escrever o que leio em “Fim”, embora me surpreenda a qualidade da observação e da imaginação, da crueza e do humor, a agilidade da construção e da escrita. Um rodízio de mortes de personagens na altura dos seus setenta e oitenta anos, narrada detalhadamente cada uma em seu momento e ponto de vista próprios, dispara uma recapitulação em regra da trama de vidas enlaçadas entre elas e em torno delas, de ilusões pessoais e de época, das propensões masculinas e femininas, finamente captadas no que têm de típico e de único. O lance teria tudo para desandar, mas não desanda. Muito ao contrário.

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