Treze vezes Rubem Braga

Por Amir Labaki
VALOR ECONÔMICO

O ano de celebração do centenário de nascimento do cronista Rubem Braga (1913-1990) já corre solto desde 12 de janeiro, mas para variar o cinema chegou atrasado. Não faltam lançamentos e reedições nas livrarias. Até uma exposição em sua homenagem já ocupou entre junho e setembro o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, e só agora, dentro da competição de novos diretores brasileiros da 37ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, estreia “Rubem Braga: Olho as Nuvens Vagabundas”, o primeiro longa-metragem de André Weller.

É um carinhoso retrato de Braga pelos outros. Treze amigas e amigos discorrem, por cerca de cinco minutos cada um, sobre o convívio com o cronista de “Ai de Ti, Copacabana”. O cenário não poderia outro: a famosa cobertura em Ipanema, com seu terraço tomado por um misto de jardim e pomar, em que ele costumava reunir a patota noite adentro.

E que patota. Vinicius de Moraes e Sérgio Buarque de Holanda, Sérgio Porto, Millôr Fernandes e José Carlos Oliveira, os mineiros, claro, Fernando Sabino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos à frente, para ficarmos apenas nos que já se despediram.

José Castello reconstituiu como ninguém aquelas noitadas em “Na Cobertura com Rubem Braga”, que a editora José Olympio acabou de relançar (167 págs., R$ 40,00). Marco Antonio de Carvalho também dedica a elas páginas generosas em sua biografia também agora reeditada, “Rubem Braga – Um Cigano Fazendeiro do Ar” (Editora Globo, Biblioteca Azul, 648 págs., R$ 69,90), vencedora do Prêmio Jabuti do gênero em 2008.

Weller apostou na simplicidade, cara ao cronista, para estruturar seu primeiro longa documental, depois de já ter dedicado curtas premiados ao cantor Miltinho e ao compositor João Roberto Kelly. Braga aparece apenas em uma foto, sem nenhuma imagem em movimento. Na apresentação da sessão de estreia em São Paulo, no fim de semana passado, o cineasta explicou ter localizado ao menos uma longa entrevista filmada do escritor, para o projeto Encontro Marcado, mas preferiu evitar o desenho convencional da intercalação de entrevistas de amigos e falas do homenageado.

Presentes em outro formato na exposição do Museu da Língua Portuguesa, os depoimentos se sucedem, um personagem após o outro, separados apenas por planos rodados na mítica cobertura, com sua ainda deslumbrante visão do Rio. Uma sutil teia os vai unindo, uma memória rimando com outra, sem nenhum compromisso cronológico ou biográfico, cada entrevistado encerrando sua participação com a leitura de um trecho de crônica de Braga.

O jornalista e escritor Zuenir Ventura abre as lembranças frisando como “o provisório” e “o insignificante” eram o cimento com o qual Braga construía sua escrita. Ziraldo o complementa, destacando “a delicadeza”.

“Ritmo, mais que palavras” é o que distinguia seu estilo, destaca a escritora Ana Maria Machado, que herdou, juveníssima, o amigo do pai, o também escritor Aníbal Machado. Mais adiante, a colega Marina Colasanti analisa como a técnica do cronista se equilibra entre “se esconder e se mostrar”.

Sérgio Augusto só o conheceu pessoalmente nos tempos do “Pasquim”, para o qual Braga colaborou pontualmente com dicas preciosas. Só poderia ser o autor do delicioso e erudito “E Foram Todos para Paris – Um Guia de Viagem nas Pegadas de Hemingway, Fitzgerald & Cia” (Casa da Palavra, 2011, 90 págs., R$ 43,00) para recordar como Braga passou sua mais longa temporada na cidade num quarto de hotel que ocupava parte dos aposentos onde habitara Marcel Proust. São desse período francês no imediato pós-guerra que Augusto Massi acaba de resgatar e editar os textos inéditos em livro, reunidos agora em “Retratos Parisienses – 31 Crônicas 1949-1952” (José Olympio, 160 págs., R$ 35,00).

Danuza Leão lembra como o eterno sedutor teve mesmo dois grandes amores, casadas como ele: Bluma Wainer, mulher do jornalista Samuel Wainer, e Tônia Carrero, mulher do artista plástico Carlos Thiré. O caso com Bluma custou-lhe a amizade do colega de ofício. Após a morte precoce da musa, a reaproximação entre aqueles quase dois sósias demorou (três décadas), mas se consumou, sendo selada para sempre por um gesto imenso de amor: Samuel confiou à cobertura do amigo o busto da amada (in)comum.

Lindamente fotografada na juventude por Braga, a atriz Rosamaria Murtinho testemunha como ele, de dicção timidamente difícil, era “bom conversador com mulheres”. A paixão por Tônia, contudo, vinha sempre em primeiro lugar.

Detalhes deliciosos do cotidiano vão aflorando ao correr dos depoimentos. Maria Lucia Rangel lembra que ele “não gostava de música”, abrindo uma exceção para Rita Lee. Vários frisam que uísque era sua bebida e que, sofrendo de insônia, vez ou outra era inevitável uma cochilada pública. Até o fim da vida pesadelos o assaltavam, a partir de sua experiência como repórter acompanhando a FEB durante a Segunda Guerra (“Crônicas da Guerra na Itália”, escandalosamente esgotado).

Filmes sobre escritores, documentais ou ficcionais, provam-se tão mais fascinantes quanto mais transcendem a vida para de fato catalisar-nos o interesse pela obra. O grande teste é quando a tela nos convida à corrida para a estante. “Rubem Braga: Olho as Nuvens Vagabundas” passou com louvor.

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Amir Labaki é diretor-fundador do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários

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