“Tribulações de um homem chamado Silêncio” entrega o que o leitor espera de um bom romance

Eu me diverti muito com esse novo livro de Nelson Patriota, “Tribulações de um homem chamado Silêncio”, editado pela Sarau das Letras. Um romance que tem como pano de fundo uma redação de jornal impresso, em Natal, aí por volta da década de 1980, e acompanha a trajetória de um misterioso jornalista paulista que começa a trabalhar no diário Voz Pública, de quem se sabia apenas que havia trabalhado na prestigiosa Gazeta Mercantil.

Começamos e acabamos o livro sem saber quase nada sobre o passado desse introspectivo jornalista, mas muito sobre o dia-a-dia de uma redação, sobretudo das redações de antigamente, quando todos trabalhavam presencialmente, não tinha esse negócio de enviar textos e colunas de casa e outros locais por e-mail.

O meu prazer foi maior porque Nelson ficcionaliza alguns episódios passados em redações de jornais da cidade que eu tive conhecimento à época, inclusive é possível identificar alguns colegas, que aparecem com outros nomes, claro. Um desses episódios foi a briga entre dois jornalistas. Um deles jogou uma máquina datilográfica contra o colega. Felizmente, a máquina não atingiu ninguém.

Por ter trabalhado nos principais jornais de Natal (Diário, Tribuna e A República, além de ter editado O Galo, da Fundação José Augusto) Nelson conhece bem e traça um perfil do profissional jornalista, sobretudo os diagramadores, esses seres mais idiossincráticos entre os idiossincráticos dentro de um jornal. “Às vezes sou tentado a achar que o jornalismo não é mais um sacerdócio, como quer nosso editor-chefe Fraga, do que uma profissão de excêntricos”, diz o narrador a certa altura.

Mas a parte impagável do livro é mesmo o lançamento em Natal de “O Livro Branco”, da escritora vanguardista Dulce Norma. Eu a conheci e cheguei a tomar umas cervejas com ela. Na época eu trabalhava no jornal Dois Pontos. Era uma figuraça. Recordo que uma vez saiu com a gente e lá pras tantas tirou de dentro da calça um revólver para susto geral na mesa do bar.

O tal “Livro Branco” tinha o objetivo de revolucionar a literatura, transformando todos em escritores. Era um livro, fora o título na capa, sem uma só linha escrita. Caberia a cada leitor escrevê-lo. Por linhas tortas e graças às facilidades de impressão o projeto de Norma profeticamente se concretizou em Natal 35 anos depois. Difícil mesmo hoje em dia é achar um leitor!

“Trata-se de uma obra, portanto, dialética: você adquire um produto que foi por assim dizer escrito por terceiros e, com o passar do tempo, começa a se tornar livro. Resumindo, é um convite ao leitor para trocar de papel comigo…”, explica uma resoluta escritora a um estupefato editor de cultura que a entrevista.

Jornalista, biógrafo, poeta, crítico literário, contista, tradutor, ensaísta, leitor dos mais requintados e antenados que conheço e agora, com este “Tribulações…”, romancista.

Em 2009, quando escrevi a orelha do seu primeiro livro de contos “Colóquio com um Leitor Kafkiano” já pressentia e anunciava que o próximo passo de Nelson seria o romance. Aí está. Uma obra que revela um autor com pleno domínio da técnica romanesca e que, diferente de Dulce Norma, entrega o que todo leitor espera de um romance: uma boa história narrada com estilo e graça.

 

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. manasses 26 de outubro de 2016 17:52

    você tem o resumo de cada capitulo do livro ?

  2. Aldo Lopes de Araújo 7 de janeiro de 2016 22:21

    Texto bom é o tempero mais importante de uma obra literária. O romance de Nelson Patriota é para ser lido de um fôlego só. Maturidade literária e uma boa dose de conhecimento da cena cultural, notadamente do ambiente jornalístico dos anos 80 em Natal, foram os ingredientes principais que Nelson lançou mão para construir a trama do seu primeiro romance. Sem entrar no mérito da construção dos personagens e da trama propriamente dita, a meu ver, o mais admirável em Patriota é o domínio pleno da arte de narrar, privilégio dos grandes mestres.

  3. Tácito Costa 5 de janeiro de 2016 17:59

    De Nelson Patriota, por e-mail: “Amigo Tácito
    deixe-me antecipar meu muito obrigado pela leitura que vc fez do meu romance despretensioso (em parte), haja vista que não esclarece muita coisa sobre o escorregado Armando. isso, de certo modo desmente o chavão de que em Natal não existe crítica. no seu texto, você aponta as linhas gerais do romance, seu hábitat que resume as principais redações de jornais da época, enumera alhguns episódios que ali se desenrolaram. enfim, fez crítica com propriedade, e ainda deixou o leitor curioso pelos bastidores do livro, seus personagens cifrados etc., “Tribulações” ganha, com sua leitura, um passe importante para outros leitores que, tenho certeza, serão tentados a lê-lo.
    abraços,
    Nelson”

  4. Anchieta Rolim 5 de janeiro de 2016 11:49

    E vamos à leitura…

  5. Andreia Braz 4 de janeiro de 2016 23:45

    Querido Tácito,
    Acho que seu texto resume de forma perfeita o romance de Nelson. Quando estava trabalhando na revisão do livro, eu falei pra Nelson, algumas vezes, sobre esse caráter divertido da obra, que vc aborda logo de início, que tratava-se de uma leitura muito leve, divertida, sem, no entanto, deixar de ser profunda e de nos trazer grandes reflexões sobre o mundo do jornalismo, mas também, e principalmente, sobre a condição humana e os mais diversos comportamentos sociais. Coincidentemente, o capítulo do famigerado “Livro Branco” também foi um dos que mais me chamou atenção e um dos temas mais discutidos durante a revisão da obra. Parabéns pelo excelente artigo sobre o romance de Nelson, que certamente deve figurar entre os grandes romances da literatura do RN, não só por ter sido escrito por um mestre na arte da narrativa, como também pelo inusitado do tema, já que há poucas obras que abordam dessa forma o mundo do jornalismo. Sucesso e vida longa ao nosso amigo e ao seu blog, que tem sido fundamental nessa difusão sadia da nossa literatura.

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