Trilogia reunida e novo livro atestam qualidade de Roth

CRÍTICA ROMANCE

Trilogia reunida e novo livro atestam qualidade de Roth

“Zuckerman Acorrentado” e “Nêmesis” têm lançamento agora no Brasil

ADRIANO SCHWARTZ
ESPECIAL PARA A FOLHA

Quando resolveu transformar Nathan Zuckerman, o personagem que aparecera pela primeira vez em “My Life as a Man” (1974), no protagonista de “O Escritor Fantasma”, em 1979, Philip Roth provavelmente não podia imaginar que estava tomando a decisão mais importante de sua longa carreira.

Daquele momento até ir embora, em “Fantasma Sai de Cena”, em 2007, o escritor ficcional, às vezes um reflexo autobiográfico cruelmente distorcido, às vezes um feroz adversário de seu idealizador, ocupou centenas de páginas em nove obras (sem contar as “participações especiais”) e se transformou em uma das principais criações literárias das últimas décadas.

É a parte inicial dessa história, “Zuckerman Acorrentado”, que chega ao Brasil pela primeira vez em um único volume, com os romances que, unidos, ficaram conhecidos como a Trilogia Zuckerman (“O Escritor Fantasma”, “Zuckerman Libertado” e “Lição de Anatomia”).

Também integra o volume o “epílogo”, a novela “A Orgia de Praga”.

A saga começa com o personagem se lembrando do encontro, aos 23 anos, com o seu autor-modelo, Lonoff.

Ao mesmo tempo em que presencia a implosão da família que visitava, narra ao leitor os conflitos da própria família e nos dá uma amostra de sua produção ficcional, ao imaginar que Anne Frank não havia morrido durante a Segunda Guerra Mundial.

Em “Zuckerman Libertado”, já um escritor de meia-idade, autor do transgressor “Carnovsky”, é alçado ao papel de “celebridade” e provoca um artigo furioso de um crítico que antes o elogiara (algo muito similar, portanto, ao que aconteceu a Roth quando publicou “O Complexo de Portnoy”, em 1969).

E, por fim, em “Lição de Anatomia”, doente, cercado de mulheres, incapaz de produzir, Zuckerman quer jogar tudo para o alto e mudar completamente de vida.

Um resumo assim brutal não dá conta, obviamente, de um conjunto de textos que dissecam de um modo avassalador, quase histérico e muitas vezes engraçadíssimo, o lugar difícil da arte na sociedade contemporânea em meio a debates religiosos, longas epifanias sexuais e ao jogo de fascínio e asco do mundo da fama instantânea.

Um romance de natureza completamente diferente é “Nêmesis”, que também acaba de ser lançado no Brasil.

Trata-se da obra mais recente do escritor. Aqui, o tom é menor, contido, condizente com a fase atual de Roth, em que os temas da velhice, da morte e da impossibilidade de superar certos limites assumem o primeiro plano.

“Nêmesis” é sobre a dor, o medo e a impotência, materializados em uma epidemia de pólio que atinge uma comunidade judaica em New ark, no verão de 1944.

Relidas em conjunto, essas obras, escritas com mais de 20 anos de distância, comprovam que Roth está em um grupo muito especial de escritores, um clube pequeno e restrito. Aproveitemos.

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ADRIANO SCHWARTZ é professor de literatura da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

ZUCKERMAN ACORRENTADO

AUTOR Philip Roth

EDITORA Companhia das Letras

TRADUÇÃO Alexandre Hubner

QUANTO R$ 49 (552 págs.)

AVALIAÇÃO ótimo

NÊMESIS

AUTOR Philip Roth

EDITORA Companhia das Letras

TRADUÇÃO Jorio Dauster

QUANTO R$ 36 (200 págs.)

AVALIAÇÃO ótimo

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