Trinta anos sem Glauber

Por Sérgio Rizzo
colunista do Yahoo! Cinema

Em 20 de agosto de 1981, o cineasta baiano Glauber Rocha retornou ao Brasil em estado crítico. Vinha de Portugal, onde morava provisoriamente desde fevereiro, com planos de se estabelecer com a família na pequena Sintra, nas proximidades de Lisboa. Ao desembarcar no Rio de Janeiro, foi internado em uma clínica do Botafogo. Na madrugada do dia 22, o quadro de complicações bronco-pulmonares provocou a sua morte.

Glauber havia completado 42 anos em 14 de março. Não foi o único diretor do Cinema Novo a morrer precocemente. Leon Hirszman (“São Bernardo”, “Eles Não Usam Black-Tie”) foi-se aos 49 anos, em 1987. Joaquim Pedro de Andrade (“Macunaíma”, “Os Inconfidentes”), aos 56, em 1988. Luis Sérgio Person (“São Paulo S.A.”, “O Caso dos Irmãos Naves”), que não integrava o movimento mas era próximo a alguns de seus princípios, faleceu em acidente de carro aos 39, em 1976.

Não há como estimar o prejuízo causado por essas perdas ao cinema nacional. A morte de Glauber, no entanto, foi a mais simbólica. Sua figura se confundia não apenas com o Cinema Novo, do qual era o porta-voz mais vigoroso, mas também com a própria ideia de cinema autoral no país. Atuou ainda na imprensa, no teatro, na literatura e na TV, tornando-se um personagem-chave do cenário cultural brasileiro dos anos 1960 e 1970.

Pode-se ter uma ideia da importância de Glauber conhecendo os seus filmes, marcos na abordagem criativa e questionadora de temas da cultura e da política brasileiras, com energia e originalidade até aquele momento inéditas na produção cinematográfica nacional (e desde então inigualáveis). Em DVD, foram lançadas versões restauradas — e com extras enriquecedores — de “Barravento” (1962), “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), “Terra em Transe” (1967), “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1969) e “A Idade da Terra” (1980).

A cópia de “Terra em Transe” inclui o curta-metragem documental “Maranhão 66″ (1966), que acompanha a posse de José Sarney como governador e contrasta seu discurso populista à miséria de boa parte da população do estado. Do material ainda inédito em DVD, fazem parte os filmes realizados no exterior — como “O Leão de Sete Cabeças” (1970) — e o polêmico curta-metragem “Di” (1976), rodado no funeral de Di Cavalcanti e interditado pela justiça a pedido da família do pintor.

Outra maneira de conhecer Glauber é ler o que deixou em forma de críticas, ensaios e ficção. A editora Cosac Naify republicou as coletâneas “Revisão Crítica do Cinema Brasileiro”, “Revolução do Cinema Novo” e “O Século do Cinema”. Há também edições antigas de “Roteiros do Terceyro Mundo” (assim mesmo, com “y”, de acordo com a grafia preferida do cineasta), do romance “Riverão Suassuna” e de “Cartas ao Mundo”, além de dezenas de trabalhos sobre a sua filmografia e sobre o Cinema Novo.

Uma das leituras mais agudas de sua obra foi realizada pelo professor Ismail Xavier, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, no livro “Alegorias do Subdesenvolvimento – Cinema Novo, Tropicalismo, Cinema Marginal” (Brasiliense), que dedica capítulos a análises detalhadas de “Terra em Transe” e de “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”. Xavier é também um dos coordenadores das reedições publicadas pela Cosac Naify.

“Como observou (o crítico) José Carlos Avellar, Glauber escrevia como quem filmava e filmava como quem escrevia”, afirma Xavier no prefácio de “Revolução do Cinema Novo”. A imagem traduz um dos postulados do Cinema Novo e dos movimentos jovens que espoucaram no cinema de diversos países nos anos 1960, a de não separar vida de obra. Pois um dos “filmes” mais potentes produzidos por Glauber está nessa coletânea: o texto “Eztetyka da Fome 65″, apresentado durante uma retrospectiva de cinema latino-americano em Gênova (Itália), em janeiro de 1965.

“Para o observador europeu, os processos de criação artística do mundo subdesenvolvido só o interessam na medida que satisfazem sua nostalgia do primitivismo; e este primitivismo se apresenta híbrido, disfarçado sob tardias heranças do mundo civilizado, mal compreendidas porque impostas pelo condicionamento colonialista”, escreve Glauber em seu diagnóstico inicial da dependência cultural na América Latina. E, mais adiante, avança na análise.

“A mendicância, tradição que se implantou com a redentora piedade colonialista, tem sido uma das causadoras de mistificação política e da ufanista mentira cultural: os relatórios oficiais da fome pedem dinheiro aos países colonialistas com o fito de construir escolas sem criar professores, de construir casas sem dar trabalho, de ensinar o ofício sem ensinar o analfabeto. A diplomacia pede, os economistas pedem, a política pede; o Cinema Novo, no campo internacional, nada pediu: impôs-se a violência de suas imagens e sons em 22 festivais internacionais.”

Depois, Glauber registra que “não é um filme mas um conjunto de filmes em evolução que dará, por fim, ao público, a consciência de sua própria existência”. “O Cinema Novo é um projeto que se realiza na política da fome, e sofre, por isto mesmo, todas as fraquezas consequentes de sua existência”, conclui.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Marcos Silva 17 de agosto de 2011 9:01

    … mas chega de saudade.

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