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A troca de corpos

O sexo designado após o nascimento nem sempre coincide com o sentimento í­ntimo do registrado. Recente telenovela da Rede Globo causa polêmica e protestos. “A Força do Querer”, escrita por Glória Perez, aborda o tema da transexualidade. A personagem Ivana/Ivan (em russo seria João/Joana), na abordagem, sofre com o problema da identidade de gênero. Sente-se de um sexo, mesmo sendo de outro. A personagem é feita pela atriz Carol Duarte, que foi educada pela mãe para tornar-se mulher da alta sociedade. Contudo, ela se revela como homem, nascido em corpo de mulher.

Depois da transição de Ivana para Ivan, ele passa mal, procura o médico e recebe a notícia de que está “grávido”. Engravidara quando ainda era Ivana. A autora da novela teria se inspirado em caso ocorrido nos Estados Unidos.

Entre nós, a história do “corpo errado” é do tempo do Império. Em conto surreal, Machado de Assis cria, poeticamente, uma versão para o nascimento da via láctea. Ela teria sido formada por vaga-lumes, nascidos de “pensamentos sublimes das academias”, que subiram ao céu e transformaram-se nas estrelas da galáxia.  O conto “As Academias de Sião”, publicado em 1884, integra, hoje, “Histórias Sem Data”. Trata da dupla dimensão da pessoa, a relação corpo/alma, a quebra da unidade substancial. Corpo e alma podem contrastar? O “Bruxo” escreve a história do lindo rei Kalaphangk e da sua meiga amante Kinnara, apesar de o rei ter 300 concubinas – mesmo número das mulheres-princesas do rei Salomão – tinha os olhos doces e atitudes afeminadas. Já a amante possuí­a qualidades masculinas. Por suposição, Sião tinha quatro academias literárias que buscavam solução para o problema: Por que há homens femininos e mulheres masculinas? Uma Academia estabelece que toda alma tem sexo.

Por sua vez, as outras trás academias discordam: toda alma é neutra. Kinnara convence o amado a baixar decreto, estabelecendo o acerto da primeira, ou seja, há almas masculinas e femininas. Depois, convence o rei a trocar sua alma com a dela porque estariam no corpo errado. Sua Majestade concorda e fixa o prazo de seis meses. Eles obtém a fórmula mágica de um velho monge e, ao amanhecer, as almas são trocadas. A nova masculinidade do rei, o seu poder, é reconhecido por todo o reino. Kinnara revela-se mais feminina. O rei está plenamente satisfeito com seu novo estado. Para não cessar a magia, planeja matar a amante. Mas ela está grávida e ele não poderia matar o herdeiro. A dúvida: ele/ela não sabe se é pai ou mãe.

Em verdade, mais que biológica, a diferença de identidade está no cérebro e este sofre o impacto pela maneira que a pessoa é criada. A herança biológica interfere na pessoa como o comportamento que se torna hábito. Como explicar que há meninos que gostam de cor-de-rosa e meninas que preferem o azul? Os neurocientistas ainda precisam pesquisar muito para estabelecer as verdadeiras causas. Os países continuam com tratamentos diferentes para o tema. Os legisladores terão que enfrentar os desafios da intolerância e do preconceito. A França, libertária, foi o paí­s precursor no reconhecimento da transexualidade, corpo errado, alma trocada. O Canadá, a nação humanista, já estabeleceu que o registrando poderá escolher a sua identificação sexual e a primeira carteira de identidade sem registro de gênero.

Haverá apenas uma mera coincidência entre a telenovela e o conto? Algum elo que compartilhe os textos, reescrita? Jorge Lui­s Borges imaginou que cada obra literária seria um comentário de um Livro maior, a Biblioteca-universo. O certo é que, no Brasil, Machado sempre ilumina.

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Diógenes da Cunha Lima

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