Truman Capote tem cartas lançadas no Brasil e poemas descobertos nos EUA

Por Raquel Cozer
COLUNISTA DA FOLHA

Poucos grandes escritores do século 20 tiveram a intimidade tão exposta quanto Truman Capote (1924-1984), mas num ponto o autor de “Bonequinha de Luxo” (1958) e “A Sangue Frio” (1966) era de singular discrição: não deixava ninguém ler seus textos até que estes atingissem seu rigoroso padrão de qualidade.

Passados 30 anos de sua morte, porém, textos que dificilmente pensaria em publicar continuam trazendo à tona facetas do escritor que atingiu raro status de celebridade fora do circuito literário.

Parte desses escritos chega agora às livrarias brasileiras em “Um Prazer Fugaz” (Leya), calhamaço com centenas de cartas que Capote enviou a amigos, editores e, por vezes, desafetos.

Nos EUA e na Alemanha, os leitores terão acesso, ainda neste ano, a cerca de 20 contos que o autor escreveu na adolescência e que continuavam inéditos em livro.

Se tanto num quanto noutro pacote de textos Capote não atingiu seus mais altos padrões —fosse por não se preocupar com isso nas cartas, fosse pela falta de experiência juvenil—, ambos permitem reconhecer o talento para além do preciosismo.

Organizada por Gerald Clarke, a coletânea “Um Prazer Fugaz” faz as vezes de uma autobiografia. Reúne de uma carta de 1936 ao pai (com o pedido de que passe a chamá-lo pelo sobrenome do padrasto, Capote) a um telegrama de 1982 a Jack Dunphy, companheiro da vida toda.

“Capote não escreveu as cartas para publicação, como outros escritores, como André Gide [1869-1951]. Elas têm o jeito dele de falar, sua presença de espírito, são cartas vívidas”, diz Clarke, autor da biografia “Capote” (Globo, 2006), que originou o filme.

Por elas, é possível acompanhar desde o aficionado por boatos (como na que descreve um jogo chamado “Guirlanda Internacional de Margaridas”, na qual liga famosos que tiveram casos entre si) ao autor que se transformou ao apurar os crimes descritos em “A Sangue Frio” (“Tenho sonhos pavorosos toda noite”).

INÉDITOS

Capote conheceu o sucesso cedo, aos 21, quando a publicação de um conto numa revista lhe rendeu convite da Random House para escrever o primeiro romance, “Other Voices, Other Rooms”.

O que poucos sabiam até meses atrás, quando o editor suíço Peter Haag e a jornalista Anuschka Roshani vasculharam seu espólio na Biblioteca Pública de Nova York, é que dez anos antes disso ele já escrevia contos e poemas cuja qualidade não faria feio a um bom escritor adulto.

Haag, editor da obra de Capote na Alemanha, chegou ao material quando buscava o final do romance “Preces Atendidas”, que o americano deixou inacabado ao morrer. Em vez dos textos derradeiros do escritor, localizou os seus primeiros.

“Publiquei toda a obra dele na Alemanha e nunca soube que tinha escrito poemas”, diz Haag sobre o material, produzido quando Capote tinha entre 11 e 17 anos. “Há uma dúzia deles, nos quais você já percebe um grande cuidado com a linguagem. Faz pensar por que ele nunca escreveu poemas depois.”

Num livro que sairá em dezembro na Alemanha pela Kein & Aber e nos EUA pela Random House, serão incluídos apenas os 20 contos produzidos no mesmo período.

Quatro das histórias, que abordam temas como a traição e a morte, foram publicadas em outubro na revista do jornal alemão “Die Zeit”.

Uma delas descreve uma briga envolvendo um triângulo amoroso entre negros, o que por si só é digno de nota. Nos anos 1940, em tempos de segregação, era pouco provável que um garoto solitário do Alabama tivesse visto qualquer coisa parecida com uma rixa de negros num pub para ser capaz de descrevê-la.

UM PRAZER FUGAZ
ORGANIZAÇÃO Gerald Clarke
TRADUÇÃO Luis Reyes Gil
EDITORA Leya
QUANTO R$ 69,90 (560 págs.)

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CARTA A 3 AMIGOS

10.ABR.1951

Acabei produzindo o jogo de salão mais escandaloso. É MUITO instrutivo; e você pode difamar as pessoas à vontade, tudo em nome de le sport. É o que chamamos de IDC, ou seja, International Daisy Chain [guirlanda internacional de margaridas]. Você cria uma corrente de nomes, cada um ligado ao outro pelo fato de ele ou ela já ter tido um caso com a pessoa previamente mencionada; a ideia é ir o mais longe e criar o maior absurdo possível. Por exemplo, essa corrente vai de Peggy Guggenheim a Rei Farouk. […] Talvez soe entediante no papel; mas posso garantir que, com alguns drinques e as pessoas certas para brincar, vocês vão ficar maravilhados.

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CARTA A EDITOR SOBRE ‘A HARPA DE ERVAS’ (1951)

27.JUN.1951

Eu já estava sob estresse por não ter notícias suas, o que já foi um indício sutil, mas sua carta chegou ontem e, é claro, só me fez sentir pior. Não consigo suportar que todos vocês achem meu livro um fracasso […]. E o fato de ser uma crítica meio vaga me faz sentir ainda mais desarmado. […] Fico pensando se seguimos com a ideia de lançar no outono.

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CARTA A AMIGO SOBRE ‘A SANGUE FRIO’ (1966)

17.OUT.1960

Fico imaginando se a “New Yorker” seria capaz de publicá-lo. […] Mas vou seguir adiante com o livro: pode parecer pretensioso, mas sinto uma grande obrigação de escrevê-lo, embora o material me deixe cada vez mais sem forças, na verdade, horrorizado —tenho sonhos pavorosos toda noite. Não sei agora como fui capaz de me sentir tão insensível e “objetivo”– como fiz no início.

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CARTA AO ADVOGADO DA ESCRITORA JACQUELINE SUSANN, QUE PRETENDIA PROCESSÁ-LO

16.MAI.1973

Não entendo por que o senhor acha que aquilo que eu disse sobre sua cliente era “difamatório.” Tudo o que eu disse foi que ela “parece um motorista de caminhão vestido de mulher.” Isso soa para mim como uma mera opinião estética —uma observação espontânea. […] Por outro lado, sugiro que o senhor examine as observações que a senhorita S. fez a meu respeito. Repetidas vezes ela deixou implícito que sou homossexual (grande novidade!) e também um preguiçoso que tem ciúmes da produtividade dela.

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