O tudo e o todo na filosofia hoje

Por Carla Rodrigues
BLOG DO IMS

Livros são cartas escritas aos amigos, argumenta o filósofo alemão Peter Sloterdijk, e certos livros são cartas que animam a troca de correspondência entre amigos. A inspiração para esse meu pequeno artigo de filosofia epistolar é um amigo – Claudio Oliveira, filósofo, tradutor e professor da UFF – e seu livro Do tudo e do todo – ou De uma nota de rodapé do Parágrafo 48 de Ser e tempo (uma discussão com Heidegger e os Gregos). Sem pretender antecipar toda a beleza da argumentação de sua tese – defendida em 2000 na UFRJ e recém-publicada pela editora Circuito com apoio da Faperj –, minha intenção é ao mesmo tempo menor e maior. Menor porque não estaria à altura de seu trabalho qualquer restituição breve da sua pesquisa sobre a diferença entre o tudo e o todo. Maior não por qualquer aspiração pessoal, mas por que foi a sua combinação entre delicadeza e rigor que me levou a pensar sobre ser filósofa hoje, questão para além do tema do livro, embora esteja ali contida.

Paradoxalmente, o estudo da filosofia está tanto relegado ao lugar secundário no qual se encontram todas as chamadas Humanidades, quanto elevado ao posto privilegiado de primeiro saber que ela mesma, a filosofia, se designou desde os gregos. Pensar o tudo e o todo que dão título ao livro de Oliveira seria tarefa indicativa desta dignidade inaugural. No entanto, é quando ele toma – com rigor acadêmico invejável – a diferença entre o tudo e o todo a partir de uma nota de rodapé, ou do que seria uma pequena insignificância dentro do grande Ser e Tempo, a obra seminal de Heidegger, leva a pensar que fazer filosofia hoje é ocupar um lugar – os rodapés dos textos, as margens das páginas, as brechas de livros canônicos – e ter um método – encontrar aquilo que ainda não foi lido, nem notado ou anotado e não morre no escrito e na escrita.

Nessa estranha conjunção, talvez o filósofo de hoje possa se reencontrar com algum sentido que não seja mais nem o do tudo, nem o do todo, e assim se reconciliar com as ambições mais simples e por isso mesmo, mais ousadas: pensar e fazer pensar, brincar e fazer brincar, “para nada, por nada, mas mesmo assim”. Mesmo assim, mesmo com a falta de verbas para a pesquisa nas universidades públicas, mesmo com a insignificância das humanidades num mundo pós-humano; mesmo assim, mesmo com as exigências de indicadores de produtividade na contramão do pensamento; mesmo assim, para nada e por nada, pensar, com rigor e delicadeza, com seriedade e alegria, a nossa prova dos nove.

Em um certo momento de O que é o dispositivo, o filósofo italiano Giorgio Agamben (foto) – de quem Claudio Oliveira é comentador e tradutor – diz que dali em diante se tornará impossível distinguir seu pensamento do seu comentário sobre o pensamento de Michel Foucault. Performatiza a morte do autor, sobre a qual Foucault escreveu, e se entrelaça ao filósofo francês como eu gostaria de me entrelaçar ao livro de Claudio Oliveira. A beleza das possibilidades desse laço é a do fazer filosófico, vincular-se aos autores tanto e a tal ponto de abandonar a qualquer tentativa de diferença entre autoria e comentário, um reconhecendo ser impossível pensar sem o outro.

Ser filósofa hoje seria atestar o impossível dessa separação. Pensar com e a partir de Claudio Oliveira e de todos os autores que ele mobiliza – Heidegger, Aristóteles, Platão, Agamben, Derrida, Levinas, Hegel – é me inscrever como herdeira de pensadores que pensaram o impensável, e só por que não completam o sentido do tudo e do todo, podem levar o pensamento ao ponto com o qual ele encerra seu livro: a ligação entre a linguagem e a morte. Se, como diz Heidegger, morrer é o modo próprio como a vida se realiza, viver na linguagem, com ela, a partir dela, trabalhar em torno da linguagem, esgarçando suas (im)possibilidades, buscando o querer dizer cujo tudo e o todo nunca são ditos, é viver “a experiência do limite imposto à linguagem pelo fato de o homem não ser (todo) falante”.

Ser filósofa hoje é reconhecer a impossibilidade de falar do tudo e do todo, é fazer desse reconhecimento o motor de um pensamento cuja tarefa passa a ser sair da impotência para o impossível, para usar a expressão lacaniana tão pertinente ao momento filosófico-político e tão adequada ao trabalho de Claudio Oliveira. A potência do impossível talvez seja a única que resta ao filósofo hoje, mais do que nunca confrontado com a estreita ligação entre a linguagem e a morte. O desafio passa a ser nem se deixar intimidar pela linguagem nem se paralisar pela morte inevitável. Se do tudo e do todo só podemos falar, é também por podermos falar que “agimos como os iniciados nesse mistério” de sermos falantes e mortais. É como seres falantes e mortais que podemos nos enlaçar em experiências éticas, poéticas e políticas, experiências do comum que, de Hegel a Agamben, se perdem e se refazem a cada vez.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo