Tupãnueras

Um estudo de Jean Lauand aborda questões da linguagem nativa dos Tupis, onde nega a bobagem de que filosofia é coisa de língua “culta”.

A principal língua dos nossos indígenas, ou sua língua geral, o Tupi, é riquíssima nesse aspecto de exprimir na palavra um sentido vasto; e em linguagem, o que é vasto sem ser longo pode produzir poesia ou filosofia.

Vejamos o caso da palavra Anhangá, que se traduz erroneamente como “diabo”. No sentido judaico-cristão, o diabo é a oposição a Deus. A negação do bem. Na crença indígena, o Anhangá é uma entidade da floresta, subalterna de Tupã e não seu antípoda. Está mais próxima do Exu, da Umbanda, que também não é a negação de Oxalá.

Ao chamar Bartolomeu Bueno da Silva, que pôs fogo na aguardente, sugerindo ser água, de Anhanguera, o índio não o chamou de “diabo velho”. Essa tradução é um equívoco gritante. A terminação “uera” precedida dos sons de G, Q ou P, indicam alguma coisa que já foi, não é mais, mas ainda guarda característica do que foi. Anhanguera quer dizer “que já foi o Anhangá, não é mais, mas ainda age como ele”.

Assim como “Ibira” (floresta) ao virar “Ibirapuera” quer dizer que já foi mata, não é mais, mas ainda guarda coisas da floresta. “Mani” (mandioca) ao ser “manipuera” não é mais mandioca, mas guarda o cheiro e o gosta dela. “Ita” (pedra), “Itaquera” já foi pedreira, não é mais, mas preserva coisas das pedras. “Taba” (reunião de casas), “tapueras”, que no português virou tapera, não é mais casa, mas resistem nela as marcas da casa. “Cutuc” é ferida e “cutucaguera” é cicatriz, que já foi ferida e não é mais, mas guarda sua lembrança. Vem daí o verbo cutucar, ferir com objeto de ponta. “Nheen” é a fala, “nheenguera” é o recado. Não é mais a fala, mas sua extensão.

São apenas alguns exemplos dessa capacidade filosófica e sintética da linguagem silvícola. Tão natural quanto sua vida, onde não se sabe o início ou o fim da sua comunicação com os seus e com a natureza.

Se um dia a fé em mim revisitar-me, Tupã será o Deus da minha escolha. Será o Deus das minhas dúvidas, da minha angústia, das minhas desculpas. O parceiro dos meus remorsos. O amigo a suportar minhas deficiências e o meu humor.

E a Ele farei minhas orações esquecidas, inventadas, relembradas, no sossego do colo da minha avó. E porei no pequeno altar feito de nuvem, ausente de imagem, pois Tupã não a tem, jasmins do quintal e lírios do monturo.

Os outros Deuses serão apenas Tupãnueras. Na igreja de Tupã as velas são os relâmpagos; os trovões são os sinos e as árvores os seus templos.

Tupã não tem procuradores nem mercenários no mercado das almas. Virão as que quiserem. Nenhuma será induzida à salvação, porque Tupã não vende milagres nem compra pecados. Té mais.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. François Silvestre 20 de janeiro de 2014 15:33

    Taí o texto do autor citado: E obrigado pelo interesse.

    Há um aspecto da filosofia tupi pouco comentado, mas de notável alcance antropológico. Naturalmente, a “filosofia” tupi deve ser procurada não em tratados, mas na língua – como certa vez disse João Guimarães Rosa, referindo-se a uma tribo do Mato Grosso: “Toda língua são rastros de velho mistério”. Língua, que é, afinal, instância privilegiada das descobertas filosóficas que acabam em eruditos tratados.

    O tupi tem recursos incríveis para o pensamento e cabe aqui lembrar Caetano Veloso, precisamente na canção Língua , ironizando aquele exagero de Heidegger: “Se você tem uma ideia incrível é melhor fazer uma canção; está provado que só é possível filosofar em alemão”. Na singeleza e transparência do tupi, encontram-se sugestivas peculiaridades filosóficas de fazer inveja às línguas europeias: é o caso da composição com o sufixo – guera .

    Guera, puera, quera
    Ao ajuntar, a um vocábulo x , a terminação -guera ( -quera ou -puera , de acordo com a eufonia), obtemos uma curiosa alteração semântica: x-guera é o que foi x , não é mais (ao menos, em sentido próprio e rigoroso), mas preserva algo daquele x que um dia foi. Assim,anhangá é diabo, espírito com poderes; já anhanguera é alguém que sem ser (mais) diabo, preserva algo do poder que um dia teve em plenitude. Mais do que a “diabo velho” é a esse remanescente poder diabólico que se refere a lendária proeza do bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, que pôs fogo na “água” (aguardente) para intimidar os índios. Ibirapuera é o que resta daquilo que um dia foi mata ( Ibirá ); Itaquera , o mesmo para pedreira (ita é pedra); e Piaçaguera é porto em ruínas, que quase já não se usa mais.

    A composição com -guera é frequente no tupi e está continuamente a nos recordar que há uma conexão entre o presente e o passado, entre o futuro e o presente; que há leis
    naturais regendo o desenvolvimento das coisas e que as ações têm consequências: projetam-se, deixam um rastro, um guera.

    Cutucaguera (cicatriz), por exemplo, faz lembrar, imediatamente, que aquele sinal no corpo é o que ficou como resíduo de uma espetada ( cutuc é ferir com ponta); capuera , roça abandonada; tapuera (taba-puera), os escombros que lembram que aquilo um dia foi taba .

    Traço
    Nem sempre guera indica decomposição ou corrupção, como até aqui indicam os exemplos; pode-se deixar de ser o que foi, preservando algo, em outro estado, transformado: por exemplo ypuera é suco de fruta; manipuera , suco de mandioca.

    O português não distingue a carne integrada no vivente, da que se vende no açougue; nem a pele do animal vivo da que está na bolsa ou artefato. Porém, para a sensibilidade em face da natureza, que há no tupi, soó é a carne viva do animal, mas a que está na panela ou churrasqueira é soóquera; a pele, no corpo do animal vivo, é pi; uma vez extraída, porém, épipera . E peruca é abaguera (aba é cabelo vivo); enquanto de canga (osso), forma-se canguera, ossada, esqueleto de animal; e pepocoera é a pena ( pepó ) arrancada do pássaro.

    Interessante é observar que guera não se aplica só a realidades físicas (como aquelas com que, até aqui, temos exemplificado), mas também à realidade propriamente humana e até moral. Assim, mbaé tem o sentido amplo de coisa; já mbaépuera é somente intriga, fofoca, mexerico… Nheen é falar, a fala viva da voz – forma originária de toda comunicação -; a nota escrita, nheenguera , é o recado, o escrito.

    A articulação tupi x-guera , dizíamos, pode ser de grande alcance antropológico. A ética clássica ocidental apoia-se na constatação de que o ato humano não se esgota no momento em que a ação foi praticada; deixa marcas, projeta-se. Como diz Gabriel Perissé: “O passado é aquilo que não passou. É aquilo que ficou em forma de experiência, de conhecimento, de conselho, de consciência e de capacidade de análise”.

    Ficou, criando na alma, por exemplo, uma predisposição (um guera ) para o vício ou para a virtude. Precisamente este é um dos sentidos de guera: o hábito, a disposição para praticar novos atos no sentido dos anteriores. Assim, o viciado em aguardente ( kauim ) é kauguera ; o metido a falar é juruguera ( juru é boca); o risonho, propenso a rir é pukaguera etc. (F. Edelweiss. Estudos Tupis e Guaranis . Rio, Brasiliana, 1969: 258-259).

    O passado permanece no presente, e é, como escreveu o contista angolano José Eduardo Agualusa, “como o mar: nunca sossega”. O bullying que a criança sofre hoje pode deixar uma marca para o resto da vida; um trauma qualquer pode custar anos de terapia.

    Livrai-nos
    A propósito, lembro aquela oração que se reza na missa, logo após o Pai-Nosso: “Livrai-nos, Senhor, de todos os males…”, e que durante muitos séculos, e até 1970, prosseguia de modo muito sugestivo: “…de todos os males passados , presentes e futuros…”. A reforma litúrgica do Vaticano II houve por bem suprimir esse trecho (“passados, presentes e futuros”), alegando que o povo não entenderia a formulação “livrar dos males passados”, desprovida de sentido. E foi uma pena porque ela indica um profundo fato ontológico e psicológico. É certo que nem Deus pode mudar o passado, nem extinguir os males passados… mas Deus pode, sim, em Sua misericórdia, fazer com que aqueles males passados não continuem se projetando no presente e no futuro, como observa o filósofo Julián Marías a respeito dessa ideia latente na oração suprimida.

    O sufixo guera – como todos os recursos vivos da língua – não é apenas uma possibilidade deexpressar o pensamento; ele amplia a própria possibilidade de pensar e a sensibilidade perceptiva da realidade; no caso, a continuidade projetiva do passado.

    Jean Lauand é professor titular da Faculdade de Educação da USP

  2. Marcio Capriglione 20 de janeiro de 2014 10:26

    Você poderia dar a referência do texto de Jean Lauand? Grato

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo