O Turista Aprendiz no jogo da cultura

O Turista Aprendiz é o título dos relatos de viagens de Mário de Andrade ao Norte e Nordeste do Brasil, no final dos anos 1920.

Em companhia de uma baronesa do café de São Paulo, Mário coleciona e relata as mais diversas formas culturais dessas regiões, sejam músicas, cantigas de roda, brinquedos e brincadeiras infantis, até a macumba e manifestações rituais e religiosas.

No espaço de um mês, esse artista coletou um acervo imensurável de relíquias da cultura popular, servindo-se de simples máquina fotográfica e caderno de anotações.

É importante salientar esse caso particular de Mário para adentrarmos ao sentido aqui tomado do conceito ou dos conceitos de turismo, e como esse conceito, que é também uma postura, pode influir significativamente na cultura popular.

Dessa viagem, Mário de Andrade conseguiu produzir a “rapsódia brasileira”, a que chamou Macunaíma, que nada mais é do que uma colagem de casos, lendas e ritos tomados aqui e ali nessas regiões do Brasil e misturados no cadinho da linguagem literária moderna.

De Mário para Cascudo

Naturalmente não vamos nos adensar na compreensão dessa obra de ramificações grandiosas, mas o que vale salientar é a relação que, consciente ou inconscientemente, Mário de Andrade estabelece entre o turismo (“cultural”) e a memória para perpetuação e recriação da cultura.

Vale a pena nos determos em suas palavras:

Não sei si já te contei ou não mas em Dezembro estive na fazenda dum tio e… e escrevi um romance. Romance ou coisa que o valha, nem sei como se pode chamar aquilo. Em todo caso chama-se Macunaíma. É um herói taulipangue bastante cômico. Fiz com ele um livro que me parece não está ruim e sairá em janeiro ou adiante, do ano que vem. Minha intenção foi esta: aproveitar no máximo possível lendas tradições costumes frases feitas etc. brasileiros. E tudo debaixo dum caracter sempre lendário porém como lenda de índio e de negro. O livro quasi que não tem nenhum caso inventado por mim, tudo são lendas que relato. Só uma descrição de macumba carioca, uma carta escrita por Macunaíma e uns dois ou três passos do livro são de invenção minha, o resto tudo são lendas relatadas tais como são ou adaptadas ao momento do livro com pequenos desvios de intenção.(…) Um dos meus cuidados foi tirar a geografia do livro. Misturei completamente o Brasil inteirinho como tem sido minha preocupação desde que intentei me abrasileirar e trabalhar o material brasileiro. Tenho muito medo de ficar regionalista e me exotisar pro resto do Brasil. Assim lendas do norte botei no sul, misturo palavras gaúchas com modismos nordestinos ponho plantas do sul no norte e animais do norte no sul etc etc. Enfim é um livro bem tendenciosamente brasileiro.”

Carta a Luís da Câmara Cascudo, no dia 01 de março de 1927


O turismo predatório ainda é uma dominante, mesmo com o avanço das exigências e da consciência ecológica.

Consciência ecológica

Esse é o sentido latente do que se espera do turismo e do turista, ao menos daquele que diz fazer um turismo cultural.

O que em si já é um reducionismo, pois não se faz turismo sem estabelecer contato com o outro, de modo que, em certo sentido, todo turismo é cultural. Todavia há formas e formas de se relacionar com o outro.

Em muitas das vezes o turismo se faz predatória e devastadoramente, porque marginaliza a cultura local, (especialmente a popular, estigmatizada de inferior e iletrada), fruindo e usufruindo pura e simplesmente do que se oferece de conforto, beleza natural e lazer.

O turismo predatório ainda é uma dominante, mesmo com o avanço das exigências e da consciência ecológica.

Por isso, para que falemos do turismo no contexto da cultura em seu aspecto lúdico, é preciso nos deter um pouco sobre esse fluxo de consciência ecológica.

É voga na mídia, em formas de expressão política e num discurso crescente, a ideia ecológica como o contato natural e social sem a agressão direta ao ambiente.

Estabeleceu-se essa ideia na cultura escolar e pertence, portanto, com o perdão da contradição à ideia aqui orientada, mais à cultura letrada que a cultura popular.

No entanto, esse conceito esvazia-se no simples ato da preservação ambiental, do evitar a poluição e dos riscos de contaminação do planeta e extermínio das espécies vivas.

Evita-se assim o lançar resíduos do consumo no meio-ambiente sob pena de tomar-se o sujeito (turista ou não) por inculto e alienado das urgências sociais e políticas.

Nesse sentido nada há de equívoco em consumir, fruir e usufruir do lugar do outro, sem qualquer relação mais próxima, contanto que não se polua o meio-ambiente e coisas do gênero.

Na virada de 1929, Mário de Andrade percorreu a Amazônia e o Nordeste

Em busca da simbiose natural

Entretanto se nos detivermos no sentido etmo da palavra “ecologia” podemos rever e ampliar a iconografia do turismo que se auto-denomina ecológico.

Sua raiz vem do grego e significa “a casa” (eco). Aqui reside o princípio do turismo.

É mister que se conheça a lógica interna da casa do outro, seu lugar, hábitos e princípios para que façamos o turismo ecológico. Não se faz turismo ecológico sem fazê-lo cultural.

Por outro lado, sem de fato nos aproximarmos o suficiente do outro, se nos restringirmos a cumprimentá-los, exigir-lhes bons modos e bom tratamento, e comprarmos suas produções “folclóricas”, não criaremos a simbiose natural que une o homem ao outro, uma cultura a outra, e que está no íntimo da natureza nômade da humanidade.

Para estabelecermos esse contato com o lugar e a casa do outro é fundamental que nos despojemos de nossa postura centralizadora e colonizadora e possamos interagir semioticamente com a cultura do outro, de modo a criar vínculos criativos que falem a nossa memória e nos levem a compreensão, expansão, perpetuação e transformação dessa cultura em outra, miscigenada e enriquecida pela nossa cultura.

Dessa forma é que não se pode prescindir do elemento lúdico para a efetiva prática do turismo cultural, posto que o lúdico, elemento intrínseco da cultura, exige ritual de participação e interação com a casa do outro.

Apenas quando o homem se lança em jogo dentro do espaço alheio, representando seu papel de estrangeiro e assumindo as regras e a lógica daquele lugar, é que se fará de fato o conúbio cultural.

Nesse sentido participam concomitantemente tanto a função lúdica quanto a diagógica, supondo de um lado o jogo de sedução e representação e de outro a entrega ao prazer sem preconceitos e sem tabus.

Quadro “Naturaleza muerta em un interior latino americano”, de Amelia Pelaez

O Turista Aprendiz recria o fenômeno cultural

Nessa perspectiva, quando o homem entra em jogo com o outro, a cultura se perpetua na memória, porque é levada a outra “casa”, a outro espaço, e por isso mesmo se renova, porque entra em contato com a linguagem e a forma do outro, recriando-se e imiscuindo-se antropofagicamente em uma nova forma. 

Enfim, pode-se dizer que o turismo, sendo da característica nômade da humanidade, só terá lógica e sentido se se fizer para a memória das culturas.

É preciso que seja um fluxo orgânico de pessoas interagindo incessantemente para criação e recriação do fenômeno cultural.

Esse turismo legítimo, a que chamamos aqui ecológico, poderia também ser denominado de turismo orgânico em contrapartida ao turismo predatório e consumista que se alardeia na mídia sem que se convide o homem a entrar no jogo e fazer a dança dos corpos no espaço alheio, o ritual do casamento e da fertilidade para a perpetuação do que ao homem é mais caro: a cultura popular em toda sua riqueza de poesia e beleza.

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Comments

There is 1 comment for this article
  1. José de Castro 29 de Março de 2019 23:12

    Li e gostei… Leva-nos a muitas reflexões, amigo poeta Edilberto Cleutom… Bom te ler aqui… Abraço…

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