Twitter: não são apenas 140 caracteres

Por Adriana Santiago/Iracema Sales
EDITORA/ REPÓRTER – Diário do Nordeste

O curador do Prêmio Jabuti de Literatura, José Luiz Goldfarb, é um entusiasta das redes sociais. Destaca-se no Twitter onde responde pelo avatar @jlgoldfarb e tem mais de oito mil seguidores. Hoje está em Fortaleza para falar da sua experiência.

Como as tecnologias podem contribuir para a construção da nova geografia dos afetos?

As novas tecnologias permitem o despertar de relacionamentos em que passamos a conhecer pessoas de qualquer parte do planeta. As Redes ou Mídias Sociais colocam-nos frente a uma nova situação, na qual vamos multiplicando nossos relacionamentos tanto local quanto globalmente. No caso do twitter, que propicia um relacionamento com muitas pessoas ao mesmo tempo, simultaneamente, à medida em estes relacionamentos vão se estreitando nasce o afeto e o carinho entre os internautas. Passamos a compartilhar com nossos seguidores os momentos de nosso cotidiano: nossa vida torna-se pública, compartilhada… Isto é inédito… O telefone foi no passado a mídia mais próxima mas, claro, era restrito a conversas um a um!

Até que ponto as relações construídas no mundo on-line ou ciberespaço podem ser transpostas para o mundo real? São dois mundos independentes?

Absolutamente não! Somos um único ser no ciberespaço ou no mundo físico. Prefiro chamar ambos os mundos de reais! O @jlgoldfarb do twitter é o mesmo José Luiz Goldfarb que sai a rua para caminhar… Claro que o ciberespaço permite que o José Luiz, através do avatar @jlgoldfarb, encontre e possa interagir com muitas pessoas, criando uma grande rede. Mas não tenho dúvida que sou eu mesmo, “lá e cá”, com minhas qualidades e defeitos. Agora, como viajo muito pelo Brasil para cuidar dos programas de incentivo à leitura em cinco Estados e também vou muito ao Exterior por conta da programa de Pós em História da Ciência da PUC SP, é muito comum aproveitar as viagens para marcar encontros físicos com os amigos seguidores do twitter. Claro, o encontro olho no olho é sempre uma alegria e um susto (rs).

É possível perceber se as pessoas já estão adaptadas com essas duas realidades ou dois mundos (real e virtual) no sentido de trabalhar as emoções?

Há uma tendência a se soltar mais no virtual e às vezes é um choque para alguns o encontro físico. Há também quem prefira manter uma certa distância entre os mundos… Mas acredito que à medida que a rede de cada pessoa for crescendo será normal à passagem entres os planos. Mas vocês têm razão… Haverá um período de adaptação para se acostumar a viver o físico e o “virtual”, e transitar pelos dois planos. Eu às vezes estou em uma roda de amigos conversando, e ao mesmo tempo, através do Ipod, estou também twittando na twittosfera, como gosto de chamar o mundo do twitter (o nome não é uma invenção minha, mas gostei e adotei. Acordo sempre dizendo: “bom dia twittosfera querida”). Os amigos do mundo físico ficam muitas vezes com ciúmes da twittosfera, mas acabam por perceber que eu transito sem problemas e que as vivências interagem e se somam.

Neste aspecto, as redes sociais aproximam as pessoas emocionalmente ou nada fica após apertar o botão “delete”?

Isto é interessante! Muita gente me pergunta sobre o que fica de tudo isto. Respondo que é exatamente igual quanto ao que fica nos contatos tradicionais no mundo físico. Tenho minha barba branca que marca… Volto a uma pequena cidade do interior do Tocantins e reconheço ou sou reconhecido por um vendedor em um boteco perto do hotel. Atualizamos a vida em uma rápida conversa. Provavelmente com outros comerciantes não rola esta cola e não nos reconhecemos nem conversamos. Também é assim na twittosfera: podemos ter uma relação mais marcante e estabelecer a continuidade do relacionamento ou não; como sempre foi. Claro que a intensidade de relacionamentos no twitter, em termos quantitativos, abre boas perspectivas principalmente para os tímidos, o que não é o meu caso, mas de muitos twitteiros com quem me relaciono. Às vezes, ao convidar um amigo do twitter de São Paulo para um ETC (Encontro de Twitteiros Culturais) há uma resistência, pois há o receio que o encontro ao vivo possa prejudicar relacionamento pelo twitter. Preciso insistir e quebrar as barreiras!

O senhor acha que as relações afetivas virtuais refletem o discurso amoroso contemporâneo marcado pelo medo que as pessoas têm de se apaixonar de verdade?

Sou suspeito: casado apaixonadamente há 32 anos, com a mesma mulher. Assim eu vivo no mundo contemporâneo das separações de um modo meio fora de moda – romântico – e batalho para despertar nas pessoas a importância da paixão. Mas, sim, vocês têm razão: os planos refletem o clima e as tendências de nossa época, mas aí é que pode ser interessante um ´help´ do virtual em termos de aproximar mais as pessoas e, quem sabe, despertar paixões loucas como a minha, capazes de durar a vida inteira.

Existe o lado positivo de as pessoas viverem suas fantasias no ciberespaço, principalmente as tímidas e de pessoas que vivem sozinhas, a exemplo dos idosos. Até que ponto as redes sociais servem para suprir a solidão típica das grandes cidades?

Nossa, aqui vocês acertaram em cheio. Para a idade avançada, quando muitas vezes o estado físico já apresenta algumas dificuldades, a internet está sendo uma grande revolução. Há muitos relatos de idosos que passam horas na net, que recuperaram a memória, que se sentem muito mais participativos e vivos! Sim, o ciberespaço pode ser um excelente caminho também para tímidos e para pessoas com deficiências físicas.

Existe o outro lado da moeda? O mundo on-line pode distanciar fisicamente as pessoas?

Não creio que seja necessariamente assim. Daí até a ideia dos ETCs, que buscam estimular as pessoas que criam uma identidade forte no twitter a promover encontros físicos. Mas é evidente que uma boa amizade cultivada com alguém do outro lado do mundo não levará facilmente a um encontro físico. Ficaria muito caro (rs)! Teremos a repetição da linda história “nunca te vi, sempre te amei”. Mas assim será a vida terrestre no futuro (que já está chegando): muito mais relacionamentos, alguns nos dois planos, alguns apenas no físico e outros somente no plano ciber que, na minha opinião, pode ser igualmente forte e duradouro! Outra discussão diz respeito ao espaço público e privado. Hoje, a casa e o quarto, antes considerados ambientes privados, são públicos.

Hoje, as redes sociais como o Twitter, são consideradas a tribuna da nova esfera pública?

Sim como já disse, a intensidade quantitativa é incrível e, somada à velocidade eletrônica da comunicação digital, faz toda a diferença e cria uma tribuna nunca antes conhecida que gera fenômenos como o #CALAABOCAGALVAO. Vejam: cada usuário do twitter, no instante em que está twittando, gera um polo de difusão e de encontro de dezenas, centenas e até milhares de pessoas. Quando estes polos começam a agir em conjunto, a força que atingem ao longo do tempo é impressionante!

O senhor acha possível construir pensamentos e sociabilidade em 140 caracteres?

Quem usa e abusa da twittagem logo descobre que não são apenas 140 caracteres que usamos, já que estamos no ciberespaço e aqui temos o hiperlink. Ou seja: no tweets incluímos links para textos mais longos, fotos, vídeos e músicas. Assim, um pequeno tweet é ilimitado! Eu posto muito muitos links de blogs interessantes. E os autores dos blogs confirmam o aumento de visitação. Posto dezenas de fotos ao longo do dia e em apenas poucos minutos já observo mais de 30, 40, 50 e, em alguns casos, 100 visitas à foto.

O senhor é curador há 20 anos do prêmio Jabuti de Literatura e se destaca pelo incentivo à leitura. Redes sociais com outras grafias, ícones e contrações vão de encontro à boa leitura?

Sim, claro que sim. O twitter é também um espaço excelente para divulgar a boa literatura. Eu twitto trechos de obras e dou links para quem quiser ler a obra inteira, com ótimos resultados. E para o que não está disponível na net, recomendo o livro físico. Sou um profissional do incentivo à leitura há 25 anos. Em um ano de twittagem consegui atingir pessoalmente mais pessoas do que em toda minha vida. O twitter, com todos os recursos que a net dispõe, é a melhor ferramenta que já conheci para promover o hábito da leitura por prazer!!

Fique por dentro

Quem é Goldfarb

José Luiz Goldfarb está hoje em Fortaleza para falar sobre as “Redes Socais – uma nova geografia da arte e dos afetos”, às 16horas, durante o Encontro de Twitteiros Culturais de Fortaleza (ECT), que acontece na Editora e Centro Cultural Armazém da Cultura, à rua Jorge da Rocha, 154, Aldeota. Goldfarb possui graduação em Física pela Universidade de São Paulo, mestrado em Filosofia e História da Ciência – McGill University, Canadá e doutorado em História da Ciência pela Universidade de São Paulo (1992). É curador há 19 anos do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro; professor e diretor do Programa de Estudos de Pós-Graduação em História da Ciência da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

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