Twitter, o maior clube de leitura do mundo

Por Sérgio Rodrigues
No IG

Este artigo (em inglês – aqui) de Viv Groskop no site do jornal “Daily Telegraph” defende bravamente uma tese com a qual, para minha surpresa, estou cada vez mais de acordo: o Twitter é o “paraíso dos viciados em livros”. O texto invoca em seu apoio uma frase de Margaret Atwood, aliás, @MargaretAtwood, ela própria tuiteira: “Fui tragada pela Twittersfera como Alice pela toca do coelho” – 67 toques no original, 60 na tradução.

A conclusão de Groskop tem tudo para surpreender os que, como eu mesmo até poucos meses atrás, ainda consideram o Twitter um modismo tolo e superficial, talhado para quem tem tempo demais e obrigações de menos, onde proliferam mensagens de importância capital como: “Bom dia, tô comendo granola com mel!” ou “O motorista do ônibus que eu peguei pra vir pro trabalho é os cornos do Léo Moura”. Não é que os recados irrelevantes não estejam lá. Provavelmente são maioria. O que os detratores do Twitter não percebem é que a coisa tem a cara do dono.

Tudo depende, claro, de quem você segue. O artigo do “Telegraph” lembra que a rede está cheia de escritores de verdade – @paulocoelho é um dos citados – tuitando e sendo seguidos por leitores ávidos, que por sua vez são seguidos por outros leitores, numa rede vertiginosamente ampla e intrincada pela qual circulam desde informações valiosas até fofocas e amenidades ligadas ao mundo literário, passando por dicas e impressões de leitura. Nunca houve um clube de leitura desse tamanho.

Aos escritores que tuítam, eu acrescentaria as publicações especializadas, os críticos profissionais, os leigos interessantes. Está quase todo mundo lá – até o @arthurdapieve, último bastião da resistência, capitulou esta semana. Seguindo-se as pessoas certas, o Twitter pode ser mesmo o paraíso das discussões sobre literatura. Ou, imagino, sobre qualquer coisa que exista ou não exista na face do planeta.

(Por falar no que não existe, o artigo também lista alguns escritores vivos ou mortos que se fazem presentes por meio de fãs ou zoadores: há 17 Hemingways, 14 Chandlers, pelo menos três Martin Amis…)

Vejo um único risco nisso tudo: o mesquinho tempo físico dos humanos. O buraco em que Margaret Atwood caiu é muito mais fundo que o de Alice. Se não tomar cuidado, o “viciado em livros” de que fala Groskop pode acabar vítima de um paradoxo carrolliano: logo, como numa troca de heroína por metadona, não lerá mais nada na vida além de tweets.

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