Ufanismo e estética

Por Silviano Santiago
O Estado de S.Paulo

Matéria obrigatória nos tratados sobre o modo como o Novo Mundo indígena se tornou cópia da Europa, as análises sobre a nossa ocidentalização não fazem jus às reflexões radicais sobre a operação histórica equivalente, ocorrida no Japão a partir do século 18. O fluxo da europeização japonesa ganhou volume durante a restauração Meiji (1868-1912), arrastou dois imperadores e uma Constituição inspirada no direito alemão (1889). Passou pelo colapso do Xogunato Tokugawa e a adoção do xintoísmo como religião do Estado, por guerras regionais e a militarização imperial. E desaguou no oceano belicoso que, ao final dos anos 1930, levou a nação a se aliar às tropas do Eixo.

As irrupções de rebeldia e de revolta nacionalista ocorridas nas Américas não têm a intensidade, a ousadia e a reivindicação de universalidade propostas pela dolorida e sofisticada reação dos japoneses à sobreposição das conquistas técnicas ocidentais à sua vida cotidiana, entendendo-se por esta uma visão popular e estética de mundo. A cultura do povo reage pelo jingoísmo e o nacionalismo ilustrado, pela estética. Os dois pares se casam de maneira notável e constrangedora no ensaio Em Louvor da Sombra (Companhia das Letras, 2007), obra-prima do romancista Junichiro Tanizaki (FOTO).

Publicado em 1933, Em Louvor da Sombra rechaça as conquistas científicas impostas ao Oriente, a fim de retrabalhar a tradição japonesa, então em desvio fatal e (ainda que não se pudesse prever na data) à beira de catástrofe mundial. A reação ufanista se ampara na frágil e agressiva “imaginação do artista”, visto que a realidade já era presa da modernização ocidental. O absurdo encanto do ensaio de Junichiro – e talvez sua atualidade num planeta convulso e de novo atravessado por nacionalismos – resulta de “devaneios” de fundo abstrato, cujo forte é a restauração do passado nipônico pelo elogio de pormenores obsessivos e sedutores. A conjunção “se” dá o chute inicial e formula hipóteses inconformadas e vadias sobre o Japão gorado. Os inventos técnicos de uso prático – se tivessem trilhado um rumo original no Japão – teriam exercido ampla influência sobre o cotidiano e sobre a estrutura política, religiosa, artística e industrial. Por exemplo: “imaginar quão diferente seria o aspecto atual da sociedade japonesa se uma cultura científica única, diversa da ocidental, houvesse prosperado no Oriente”.

Recolho uma divagação pitoresca: “Se a caneta-tinteiro tivesse sido inventada na Antiguidade por japoneses ou chineses, não traria uma pena metálica adaptada à sua ponta, mas um tufo semelhante ao de pincel, feito de pelos”. A tinta não teria a cor azulada. Seria um tipo de sumi (tinta mais barata que o nanquim), a escorrer aos poucos do corpo da caneta para o pincel. O papel teria de ser semelhante ao japonês (washi) e “as discussões sobre a romanização da escrita japonesa não teriam campo para se expandir e, por outro lado, teriam fortalecido a preferência popular pela escrita de nomes ocidentais com ideogramas”. Ezra Pound e os irmãos Campos aplaudiriam.

Se poético o devaneio, é imperial o caminho industrial franqueado: “Em lento e cuidadoso progresso, um dia talvez viéssemos a descobrir substitutos para os trens, os aviões e os rádios atuais, inventos não mais tomados de empréstimo de outras civilizações, e sim conveniências modernas adequadas realmente ao nosso modo de vida”. Inventados por japoneses, filmes e reveladores químicos apreenderiam melhor o ambiente de sombras em que vive o japonês, sua cor de pele e aparência física. O rádio e o fonógrafo ressaltariam o timbre de voz do oriental e a sonoridade dos seus instrumentos musicais. Reproduzidas em bolachas, elipses e pausas perdem a graça.

No Ocidente, prata, ferro ou cobre são usados na fabricação de aparelhos de jantar e talheres, que são polidos até brilhar. Devaneia o artista: “Nós, os japoneses, sentimos desassossego diante de objetos cintilantes (…). As coisas que apreciamos como belas e requintadas têm em sua composição parcelas de sujeira e de desasseio”. A verdadeira beleza dos objetos de uso doméstico não está no branco imaculado da porcelana, está na laca, que só se revela plenamente na penumbra. “A sombra”, Junichiro arremata, “é elemento indispensável à beleza dos utensílios laqueados”.

Reaparecem o cá e o lá de Gonçalves Dias. A beleza das igrejas góticas reside em suas torres altaneiras. No Japão, sobressaem o telhado de telha ou de colmo e o extenso beiral. Ao construir uma residência, o japonês abre primeiro um guarda-sol – o telhado – para projetar um pedaço de sombra na terra. Na ausência de tijolo, vidraça ou concreto, o beiral alongado protege o morador das arremetidas de chuva. Nesse espaço sombrio, levantam-se a casa popular, o palácio ou o templo. Lá dentro, na penumbra, é que os antepassados descobriram “a beleza na sombra e, com o tempo, aprenderam a usar a sombra para favorecer o belo” e “dela tirar efeitos estéticos”. Dentro de casa, os arranjos florais – continua o ensaísta – visam antes a acrescentar profundidade à sombra do que a exercer função decorativa.

O elogio da sombra no processo de restauração dos valores orientais se confunde com o projeto literário de Junichiro Tanizaki, que pretende “invalidar” as desvantagens técnicas e culturais decorrentes do processo de ocidentalização do Japão. Confessa ele no parágrafo final do ensaio: “Quanto a mim, gostaria de fazer reviver, pelo menos no campo literário, esse universo de sombra que estamos prestes a dissipar”. Continua: “Gostaria de projetar um beiral amplo para o santuário da Literatura. Pintar as paredes de cores sombrias, enfurnar nas trevas tudo o que se destaca em demasia e eliminar os enfeites desnecessários”. E convoca: “E agora: vamos apagar as luzes elétricas para ver como fica”.

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