Ugo Giorgetti/Entrevista

RB: O que foi o Cinema Novo? Gostaria que falasse, especialmente, de dois cineastas, Glauber Rocha e Joaquim Pedro de Andrade. O que há de comum entre os cineastas todos do movimento (entre outros Leon Hirszman, David Neves) e o que há de diferente? Joaquim Pedro, com “Garrincha, alegria do povo” (1962), influenciou, de algum modo, sua incursão pelo mundo do futebol? Ninguém tem coragem de apontar problemas nos filmes de Glauber; há algum problema neles?

UG: O Cinema Novo foi um movimento que decidiu que era hora de o Brasil aparecer nas telas. A preocupação do grupo era investigar este país. O que somos? Por que somos assim? O que nos impede de ser de outro jeito? Essas perguntas nunca tinham sido colocadas antes, pelo menos não com a mesma força e muito menos como consequência do pensamento organizado e da reflexão de um grupo de artistas. O pessoal do cinema novo teve a grandeza de se propor essas questões.

Glauber Rocha e Joaquim Pedro de Andrade são indiscutivelmente dois grandes cineastas. Glauber, numa chave mais épica, mais visionária, talvez mais ligado à metáfora visual e a seus próprios delírios. Joaquim, mais racional, talvez mais sutil, muito ligado à literatura (Drummond, Mário de Andrade, os poetas mineiros da Inconfidência, Dalton Trevisan, A Semana de 22 etc. etc). O que une todos os cineastas do cinema novo, a meu ver, é exatamente essa ligação com a literatura. Todos eram pessoas conectadas e conhecedoras da moderna literatura brasileira. Alguns até a praticavam.

Certa vez, manuseando um livro que continha artigos de jornal do grande poeta Mário Faustino, me deparei com uma crônica na qual ele apontava jovens e promissores poetas de, sei lá, acho que 1959. Entre eles Faustino elencava Cacá Diegues! E você sabe, melhor do que eu, da qualidade, inclusive como crítico, de Mário Faustino. Talvez a melhor adaptação cinematográfica de um livro brasileiro tenha sido São Bernardo, de Graciliano Ramos, adaptado e filmado por Leon Hirszman. Exemplar. Tive oportunidade de ver uma cópia restaurada faz alguns meses e, depois de tantos anos, a obra continua me impressionando profundamente. Fora isso, os unia, como disse antes, uma verdadeira obsessão pelo país, suas mazelas, suas contradições e a esperança de um dia vê-lo transformado.

Não creio que Garrincha, alegria do povo tenha me influenciado. Quanto a Glauber, acho que ele tem sido criticado sim, e muito. As novas gerações, principalmente os que acabam de chegar no cinema e pensam que sabem alguma coisa, olham Glauber com um certo desprezo que não ousam expressar em público.

Do diretor de cinema Ugo Giorgetti para Regis Bonvicino. A entrevista completa aqui

ao topo