Último dedo no angu

Para encerrar o assunto Obrigatoriedade do Diploma de Jornalismo, já encerrado no STF, coloco a opinião do jornalista e professor universitário das antigas, Duarte Guimarães:

“De fato, os argumentos, que deveriam ser razões, são terrivelmente primários. Basta ler o parecer do relator: depois dos prolegômenos, em tons de filigranas, de enchimento de linguiça, perfeitamente dispensáveis, pois ocupam mais da metade da peça, a decisão é um libelo do desconhecimento, por vezes rudimentar. Risível. Decepcionante. Confesso que esperava mais de quem se julga saber julgar – e assim está estatuído. A parte mais importante do parecer é quando trata da liberdade. Nesse aspecto, chega a confundir tomé com bebé. Por exemplo: quando acusa o jornalista com diploma de impedir a liberdade de expressão. Quanta injustiça! Os jornalistas, com ou sem diploma, em sua grandiosa maioria, são a expressão prática e a vigilância histórica da liberdade. Na verdade, quem tolhe a liberdade do cidadão e do próprio jornalista são as empresas, os donos das empresas, com suas regras, seus interesses, suas circunscrições, legais e ilegais. Mas uma outra coisa me chamou atenção. Quando nivela jornalista e cozinheiro, ou seja, funde (o que não seria problema) e confunde (o que é devastador) ofício com arte, no caso o jornalismo
com a arte culinária, põe uma salvaguarda para aqueles que são formados em direito. Sim. Porque depois de defender que os diplomas só devem ser exigidos daqueles que no seu trabalho põem em risco a vida dos outros, como os médicos e engenheiros, já coloca lá, como que dando um aviso: e também dos advogados e dos magistrados. Estaríamos assistindo no Brasil a inauguração do julgamento subliminar e antecipado em causa própria?”
(Duarte Guimarães)

E abaixo, o que escrevi há pouco no blog Substantivo Plural:

Da Redação à Cozinha

O tom do editorial do Jornal Nacional de ontem foi o mesmo da opinião de Alex. Essa coisa de que o jornalismo é recheado de gente despreparada. Ou que há uma galera sem diploma e especializada em alguns assuntos que superam os jornalistas formados. Isso é sabido e negar é hipocrisia. Qual profissional de comunicação, por exemplo, vai comentar campeonato de ginástica olímpica? Melhor procurar um ex-atleta.

Ontem conversava com Rodrigo Levino a respeito. Ele que escreve magistralmente bem suas matérias e assistiu apenas a duas aulas na faculdade. É um exemplo típico desta política saudável de abertura aos bons escritores às redações. Embora ache que essa galera que não pisou nas faculdades esteja mais apto a escrever matérias puxadas para o jornalismo literário ou cultural. Geralmente são pessoas que se destacam justo em função da maior prática literária. Não os vejo escrevendo matérias bacanas em caderos de economia, por exemplo, quando exige mais técnica. Mas isso é mais relativo.

A bronca maior, na minha opinião, é que esta canetada do ministro Gilmar Mendes – que deveria passar por um concurso público em vez de ser escolhido pelo presidente da República – enfraquece a profissão. E não é por ter “regularizado” a função dos sem-diploma. Mas por perdas de conquistas. Sem estas conquistas datam da época ditatorial, que sejam revistas, melhoradas, não extingas, porque são representativas, sim.

Teremos faculdades e alunos desestimulados. E isto fatalmente vai afetar AINDA MAIS a qualidade do ensino e, consequentemente, da produção de matérias, da informação passada à opinião pública. Perdas também trabalhistas. Teremos sindicato? Os concursos públicos passarão a não exigir mais o diploma. Coisas do tipo.

Tomara que o gesto deste deputado do PDT não passe de mais uma falácia parlamentar e consiga assegurar algumas dessas garantias da nossa profissão sem barrar essa abertura aos não-diplomados.

Do contrário, vejamos pelo lado positivo. Estaremos livres da cotribuição sindical, o Burro Elétrico ganhará caras novas e os jornalistas ficarão mais estimulados a ingressar no curso de gastronomia do Barreira Roxa.

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