Último maldito

Por Gisele Teixeira
Blog do Noblat

O escritor argentino Rodolfo Enrique Fogwill, morto no último sábado, aos 69 anos, foi para a literatura argentina o que Maradona é para o futebol e Charly Garcia para o rock.

A comparação foi feita pela escritora Silvina Friera no jornal Página 12, e assino embaixo.

Fogwill foi um maldito indomável, provocador, irreverente, controverso, mas também dotado de um talento arrasador, divertido, e dono de uma vida que rende uma novela. Como seus dois compatriotas.

Para muitos leitores, sua morte deixou uma sensação de desamparo literário, e também a certeza de que com Fogwill desaparece um dos maiores provocadores e polemistas que a Argentina já teve.

Além disso, era famoso por sua “cara de louco” e respostas imprevisíveis, o que metia medo em muitos jornalistas. Eu inclusive.

“A provocação era para ele uma variedade do pensamento, uma esgrima intelectual que forçava a inteligência a superar-se e a pensar, o que em certas ocasiões, não podia nem devia ser pensado”, publicou o jornal La Nación.

Sua obra mais conhecida – e creio que a única traduzida no Brasil – se chama “Los Pichiciegos”. Conta a historia de um grupo de soldados, os Pichis (tatus, em português), que estão nas Malvinas e subsistem escondendo-se em uma grande trincheira subterrânea, no meio do campo de batalha.

Uma obra prima.

Detalhe: o livro foi escrito antes do final da guerra, prevendo a derrota dos argentinos, e diz a lenda que nasceu em um “tirão”. Foi gestado em dois dias e meio, com Fogwill consumindo 12 gramas de cocaína no período (o escritor foi dependente da droga por 17 anos).

Não importa. Já é um clássico, assim como muitos outros textos que vieram depois, a exemplo de “Muchacha Punk” e “Vivir Afuera”.

Os mais de 20 livros que deixou no caminho lhe garantiram um lugar no pódio dos escritores argentinos mais importantes depois da morte de Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, ao lado de Cesar Aira e Ricardo Piglia. E o privilégio de assinar apenas Fogwill, assim, às secas, “como Sócrates, Platón e Aristóteles”.

Mas antes de ser apenas Fogwill, Rodolfo Enrique aprontou um bocado. Nasceu em 1941 em Bernal, subúrbio de Buenos Aires, filho único e gênio da família. Aos quatro anos já sabia ler.

Em entrevistas, dizia que teve um revolver Smith & Wesson aos dez anos, um barco aos 15 e sua primeira namorada aos 17. Foi nessa época que ingressou na faculdade de Medicina. Deste curso pulou para Filosofia e Letras e em seguida para a Sociologia, de onde saiu, aos 23 anos, com um diploma em baixo do braço.

Desse momento até o final dos anos 70 se dedicou a fazer dinheiro em publicidade. Fez muito dinheiro. Depois perdeu tudo. Chegou a ter a maior agencia da America Latina e criou slogans que ficaram famosos na Argentina.

Nos anos 80, aos 39 anos, mudou totalmente de vida. Ganhou um concurso de contos e decidiu ser escritor. Fundou também uma editora própria, chamada Tierra Baldía, que publicou poetas importantes e fundamentais como Osvaldo Lamborghini e Néstor Perlongher, que seriam centrais para a literatura argentina.

Dizem que era muito generoso. E ácido na mesma proporção. Segundo lembrou o jornal Clarin, Fogwill comprou briga com as Madres da Praça de Maio, com os escritores Ricardo Piglia e Alan Pauls, com os defensores do aborto, da legalização das drogas e do matrimonio igualitário (dizia que o matrimonio era a instituição mais merda que se produziu na sociedade contemporânea) e até com a crítica Beatriz Sarlo, uma das mais respeitadas da Argentina.

Como escritor que sabia muito de publicidade, Fogwill fez de si um personagem.

Costumava dizer que seu slogan preferido era o que havia criado para os cigarros Jockey: “Suaves pero con sabor, el equilibrio justo”. Ironicamente, morreu de enfisema.

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