Ulysses: entender, gostar

Caros amigos:

Li esse livro de Joyce logo que saiu em português, segunda metade dos anos 60. Não entendi muita coisa mas ficou a vontade de reler, tentar entender, o que fiz ao longo da vida – ainda tem coisas que não entendi, como noutros livros de outros autores, tenho a vida inteira para entendê-los.

É impossível comparar o Ulysses de Joyce com a Odisséia homérica. O último é uma espécie de cânon dos cânones (junto com a Ilíada e a Bíblia) para o mundo ocidental. Na Grécia antiga, aprender a ler era aprender a Ilíada e a Odisséia – as tragédias e boa parte da poesia derivavam deles. No ocidente posterior, com a inclusão da Bíblia, isso mudou pouco até o Romantismo e a subsequente modernidade anti-canônica. Alguns temas homéricos percorrem tradições orais de meio mundo até hoje.

Joyce é outra coisa: um Ulysses anti-cânon. A banalidade de um dia é a cara do mundo moderno, sem solenidade. E seu Ulysses homem comum é o contrário do astuto herói faz-tudo.

Quando o livro de Joyce saiu no Brasil, surgiram comentários sobre dificuldades e deficiências de tradução. De lá para cá, muita água rolou – mais de quarenta anos de leitura dessa tradução, estudos joyceanos, bloomsdays…

Fico preocupado quando alguns leitores declaram que nada entenderam e deduzem que detestaram o livro – esse ou qualquer outro. Quer dizer que o não-entendido é detestável? Um professor meu (artes visuais) dizia que os detratores da arte moderna, que declaram nada entender e detestar o que não entendem, agem como pessoas que não sabem alemão, lêem um livro de Nietzsche nessa língua, nada entendem e concluem: esse cara é um picareta, péssimo escritor.

O entendimento é fruto de organização de leitura. Entendemos Machado de Assis porque fomos ensinados a entender Machado de Assis – complicadamente ótimo, por sinal.

Joyce lançou desafios para a escrita e a leitura do século XX. Não foi o único a fazê-lo. Merece nossa atenção. Como Proust e Faulkner, difíceis por outros caminhos. Ou como Tennessee Williams e Nelson Rodrigues, apenas aparentemente fáceis.

Abraços:

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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