Um americano que escreve em português

NA TRIBUNA DO NORTE

Conheci Charles M. Phelan, no site Substantivo Plural, do amigo Tácito Costa. A princípio pensei que fosse um fake – sabe, aqueles perfis que as pessoas criam na internet para esconder a identidade? Depois fiquei sabendo que ele existia mesmo, de carne e osso e que era um contista talentoso. Tempos depois, o conheci pessoalmente numa dessas ocasiões sociais literárias que fazem a delícia dos intelectuais natalenses e ele se mostrou uma pessoa totalmente diferente da fauna local. Então eu pedi a ele que enviasse alguns dados sobre sua pessoa e que respondesse a algumas perguntas feitas por mim e Tácito Costa.

O resultado está aí nesta bela entrevista: “Nascido no bairro do Bronx, Nova York, EUA. 44 anos. Resido hoje em Natal. Moro no Brasil há 14 anos. Sou filho de pai americano e mãe brasileira. Advogado e professor de língua inglesa. Não tendo um livro publicado e dispondo de muitos contos publicados separadamente, resolvi terminar um romance que há muito espera conclusão. Atualmente numa transição profissional para concentrar na literatura. Sou escritor do conto literário. Minhas influências são Hemmingway, William Faulkner, Poe, Roald Dahl, O. Henry, Stephen King, Saki, Dean Koontz e outros tantos escritores do conto e romance. Impulsionado por um desejo intenso, comecei a escrever literatura ainda jovem na faculdade em Nova Iorque. O encanto de poder criar uma cena numa folha em branco e sem vida e fazê-la realidade, provocando reações, foi e ainda é demais nesse aprendizado infindo, e provocou em mim o encanto do qual nunca consegui fugir. Desisti da academia, retornando anos depois para cursar direito, onde sou advogado. Publiquei contos no Brasil e fora do Brasil. Tenho feito algum trabalho de Ghost-Writer também. Tenho três pequenas publicações, embora não na área de ficção, na revista Newsweek. Fui agraciado no ano de 2011 com uma premiação no Concurso Internacional de Contos e Poesia Machado de Assis- Confraria Internacional Brasil-Portugal. Recentemente (edição de novembro de 2011) tive uma de minhas crônicas publicada nacionalmente na Revista Alfa da Editora Abril, com outra por vir”.

– O que te dá mais trabalho na hora escrever seus contos: a história em si ou a forma como você a contará?

A estória em si é objeto da criatividade. É uma quase matemática, ou está contido ou não está contido naquele que escreve. A forma como será feita a narrativa é o grande labor. Sofrimento puro. Muitos detalhes, sobretudo atenção com os efeitos que o escritor pretende causar no seu leitor.

– Como é o seu processo criativo? Você começa a escrever já tendo na cabeça o conto estruturado ou ele vai tomando forma a partir de quando você o inicia?

Meu processo criativo inicia com uma ideia vaga, seguido por vários questionamentos sobre a razão de ser da estória, e sobre o protagonista. Tento ter a trama na cabeça. Daí passo fazer uma espécie de mapeamento preliminar sobre os caminhos que quero seguir, o tom que quero imprimir e o gênero mais adequado.

– Na sua opinião, o que pode ser feito para aumentar o número de leitores e também tornar os escritores mais conhecidos?

O leitor é seduzido por uma estória interessante. Há um contrato implícito entre escritor e leitor. O primeiro deve se compromete a levar o leitor para um mundo diferente; uma viagem de imagens, sentimentos, revelações, etc. O segundo promete dedicar-lhe o tempo na leitura, desde que seus interesses sejam alimentados. Desde que sua gana por entretenimento ou saber seja devidamente preenchida. Na literatura, como na vida, não há tempo para tédio. Outra questão importante é o preço do livro e, consequentemente, as livrarias tornam-se lugares elitizados. Para o bem dos leitores ainda existem os sebos. Popularizar o escritor é a maneira mais eficaz de lançá-lo ao mundo. Mais semanas literárias como a de Paraty no Rio de Janeiro seriam um sonho.

– Você não faz parte de grupos ou entidades literárias do estado. A que se deve essa opção?

Não vejo grande proveito em fazer parte de grupos de literatura. Ademais, tenho pouca tolerância para narizes empinados e troca de afagos e elogios gratuitos. Há quem suplique por elogios, inclusive cobrando por eles. Já presenciei isso (risos). Nada perpetua mais a mediocridade que o falso elogio. E nada prejudica tanto o avanço do talento que a inveja. Os egos (de alguns) por aqui são enormes e em nada me impressionam.

– Como avalia a produção literária do Estado e o que falta para essa produção ter uma maior repercussão.

Parece-me que a produção é intensa. Muita gente escreve. Por desconhecer o trabalho desses escritores não poderia opinar. Já tentei ler alguns; não fui feliz. Aqui no RN só é considerado escritor quem já tem um livro publicado (risos). E assim todos publicam. E como já falei em outra entrevista, quando se produz o próprio livro essa obra chega ao mercado local sem o crivo de ninguém senão o do próprio autor. Sem dúvida a produção do próprio livro é algo válido, mas carece de um olhar neutro e crítico. Se você fala de repercussão nacional dos escritores do RN, creio que somente encarando o crivo das grandes editoras e distribuindo a obra nacionalmente para testar. O problema é que aqui nunca se sonha a literatura como uma ambição profissional. Pelo contrário, uma completa descrença de que se pode viver da literatura impera. Trata-se da destruição antes da construção. Portanto, não acreditando no que se faz a qualidade do que se escreve sofre.

Em alguns dos seus contos nota-se uma certa influência de Edgar Poe. Você não acha que a literatura, de um modo geral, ainda está muita presa a que era produzida no século XIX? Não falta uma literatura antenada com o século XXI?

– Edgar Allan Poe foi um gênio. Muito me impressionou a primeira vez que li seus contos. Ainda muito jovem em Nova Iorque me aventurei nos dramas psicológicos que produziu, por isso a paixão pelo gênero. Acho que grandes escritores do século XIX pavimentaram o caminho para os escritores contemporâneos. Temos exemplos como o Stephen King, Dean Koontz e Faulkner e Hemingway (algumas décadas passadas). Acho que temos bons contadores de estórias hoje. A prosa do século XXI é na verdade uma reprise do que já fora há muito tempo criado. Temos por exemplo a febre Harry Potter tratando de um mundo mágico e de fantasia. Temos as séries dos vampiros modernos, cuja origem remete ao próprio Drácula de Bram Stoker.

– Você acha que Natal tem poetas em excesso?

(Risos). Há muita gente que se diz poeta. É assunto polêmico.

– E os poucos prosistas são de qualidade? cite alguns em caso afirmativo.

Demétrio Diniz, um poeta em sua essência, recentemente aventurou-se na prosa e publicou um livro de contos. Gostei. Tem qualidade.

– O que é melhor, ser escritor aqui ou nos EUA?

O bom mesmo é ser escritor. O escritor quer ser lido, e ponto final. A leitura é um hobby muito popular nos EUA e, portanto, um mercado gigantesco para propagar um escritor de talento.

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Edjane Linhares 2 de Maio de 2012 22:46

    Esta dupla promete. Escolheram a dedo o entrevistado. Há anos Charles nos presenteia com os seus contos, cartas e traduções. Espero ansiosa por este romance. Faz algum tempo que não leio um. Parabéns a todos pela entrevista. Abraços.

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