Um beato atento à prosa dos rios…

O poeta mato-grossense Manoel de Barros está comemorando seus 93 anos de vida, dos quais 73 dedicados à poesia, com um duplo triunfo: a publicação de sua obra completa e mais um novo volume de poemas, intitulado Menino do Mato, ambos chancelados pela editora paulista LeYa. O primeiro, um alentado volume de 496 páginas, reúne vinte livros do autor, dos quais quatro infantis; o segundo, que também está enfeixado na obra completa, compreende um total de 96 páginas, e é datado deste ano, revelando que o poeta continua em atividade, não obstante a idade avançada.

A crítica não costuma se preocupar com a poesia de Manoel de Barros. As razões mais diversas explicam esse procedimento. Talvez porque falte nessa poesia um diálogo regular com a tradição, o que torna difícil compará-la com outros poetas próximos, mesmo que, quer na abertura de um livro, quer no corpo de um poema, versos ou epígrafes de Fernando Pessoa, Guimarães Rosa, Borges ou até mesmo Proust sejam citadas.

Talvez, ainda, porque essa ausência de diálogo com outras dicções poéticas tenha limitado sua obra a um circuito muito restrito, do qual o poeta faz questão de não sair sob nenhum pretexto.

Fosse em tempos passados, um fenômeno literário como o de Manoel de Barros teria grandes dificuldades para se firmar no meio literário. Em dias pós-modernos como os nossos, porém, as coisas seguem um curso diferente. O fenômeno Paulo Coelho está aí, desafiando a crítica brasileira há décadas, enquanto colhe triunfos no exterior…

Não é certamente o caso de comparar Manoel de Barros com o bruxo de O Alquimista e outras fantasmagorias. Manoel de Barros é um poeta a justo título visceral, no sentido de que bebe sua poesia na nascente da poesia mais cristalina que se possa conceber, se considerarmos que a ela se mantém fiel há mais setenta anos.

Poeta intuitivo? A verdade é que a fonte de onde Manoel de Barros recolhe seus poemas continua um motivo de perplexidade e encantamento para muitos leitores, cansados, certamente, do hermetismo de certos poetas que seguem uma trajetória exatamente oposta à dele, ou seja, são marcadamente cerebrais, álgidos, “difíceis”.

Não se pode negligenciar o papel que a temática ambientalista exerce na visibilidade que essa poesia vem ganhando desde uns tempos para cá. A abundância e o vigor de árvores, plantas, bichos, insetos, aves, seres marinhos, anfíbios, formam um burburinho de sons, uma sucessão de cores, uma dinâmica de movimentos que parecem não ter fim, em flagrante contraste com a escassa natureza presente nas cidades.

Por usar e abusar dessa fórmula em suas infinitas variantes foi que a crítica e a imprensa passaram a tratar Manoel de Barros de “poeta pantaneiro”, na suposição de que a fonte de sua poesia reside unicamente no Pantanal mato-grossense. Na recente entrevista que concedeu à revista Cult (n. 146), o poeta reagiu a esse aposto, desautorizando dois conceitos criados em torno de sua obra: “Sabemos nós que poesia mexe com palavras e não com paisagens. Por isso não sou poeta pantaneiro, nem ecológico. Meu trabalho é verbal. Eu tenho o desejo, portanto, de mudar a feição da natureza pelo encantamento verbal”.

Quem negaria ao poeta a transformação que ele operou na natureza que povoa sua obra, através do encantamento verbal de que é capaz de lançar mão, como um prestidigitador de recursos ilimitados?

Perguntado pela mesma revista como gostaria de ser lembrado, o poeta voltou a invocar a ideia de mudança: “Gostaria de ser lembrado como um ser abençoado pela inocência. E que tentou mudar a feição da poesia”.

Em Menino do Mato, o nonagenário Manoel de Barros mostra que não perdeu a destreza com a matéria-prima de que são feitos os poemas. A certa altura, o leitor depara com uma análise do fazer poético que não se enquadra nos esquemas didáticos tradicionais: “Escrever o que não acontece é tarefa da poesia”.

Uma autodefinição sucinta? Ei-la: “Sou beato de ouvir a prosa dos rios”.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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