Um Bicho De Trinta e Seis Cordas

Ele em voltas com seu instrumento
belo, de outro tempo e lugar,
Enlaçado àquela maranha de cordas
Como a uma centopeia sonora
Arranchada na  sombra  dos arcos
Do Parque Güell, de Antonio Gaudí.

 

Toca pra ninguém, ou pra outra coisa:
A arquitetura solene, a natureza
A claridade derramada, o frio
O vento desembestado
Os animais miúdos, o bicho homem
Que como eu, ali, fareja beleza

 

E sonoridades daquela coisa antiga
Do testamento velho, dos sarracenos
A abrir portas do califado ibérico
Os salões da renascença, do romantismo
Da vida moderna acelerada, desmiolada
Até chegar aos meus ouvidos surpresos
Numa manhã que se parecia igual a tantas.

 

Acanha-me, (mesmo nos intervalos),
Abordar o músico em sua paz e arrebatamento
Como se a um monge em ritual de enlevo.
– Perdoe-me (vencida enfim a hesitação)
É um Alaúde, não? Pergunto-lhe entre dentes
E ele assente, suavemente, com a cabeça.

 

Imagino que a conversa estaria terminada
Quando, com ares de homem de outra época,
Começa a falar sobre o instrumento e o tempo
Suas cordas, sua evolução, o auge, o ostracismo,
E a luta para se sustentar de algo tão remoto.

 

Momento que o interrompo para perguntar
– Há quanto tempo dedilha o  alaúde  dos árabes?
E ele, com o bojo cingido ao peito:
– Cinquenta anos!  Não aprendi a fazer outra coisa.
Nas palavras, o envaidecimento.
No tom, a sina.

Médico, poeta, contista e compositor. [ Ver todos os artigos ]

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