Um Bloomsday para não se perder de vista

Para espanto geral da tribo, Natal e Dublin têm um encontro marcado nesse 16 próximo, quando se comemorará (é quase ocioso repetir) mais um Bloomsday, o famigerado Dia de Bloom em sua peregrinação sacroprofana pelas ruas, bares, bordéis, mas também igrejas, praças e colégios de uma Dublin que o irlandês James Joyce estratificou em seu romance “Ulisses”.

Como das vezes anteriores, as comemorações ficarão por conta do professor e poeta Chico Ivan (foto), esse incansável intérprete do mestre irlandês, e que autografará seu novo livro, que vem a ser uma tradução do “Anfion”, poema dramático do francês Paul Valéry.

A propósito, Chico Ivan contará, nessa nova edição do Bloomsday, com os préstimos da professora Ana Graça Canan que, entre outras participações, fará uma leitura dramática do “Ulisses”. Assim a quatro mãos, o Bloomsday ressurge renovado e livre da poeira de mais de duas décadas de comemorações mais ou menos “modestas”, e decidido a empreender voos mais audaciosos do que os praticados até a edição 2010.

Dessa vez, por exemplo, um scholar irlandês se somará a uma equipe de professores doutores da UFRN, no auditório da Biblioteca Zila Mamede, no Campus Universitário da UFRN em Natal, num evento adequadamente intitulado de “James Joyce e a cultura irlandesa”. Mesas-redondas, debates, mostras de filmes, recitais, leituras dramáticas, apresentações musicais em torno de temas joycianos vão movimentar, como um dínamo bem azeitado, a modorra provinciana desses dias invernosos, às vezes intercalados por dias estivais, em geral de curta duração. A ideia inspiradora dessa movimentada agenda cultural é mostrar a genealogia das fontes do “Ulisses” e de outros trabalhos joycianos, bem como a diversa e complexa variedade de uma literatura que comporta autores como William Butler Yeats e Samuel Beckett, por exemplo.

A abertura do evento, que aconteceu nesta segunda-feira, coube, a justo título, ao poeta Chico Ivan, que abordou, às 9h, na Zila Mamede, o tema: “A obra de James Joyce”. O caráter vago do tema sugere que o conferencista não se limitaria apenas a discutir o “Ulisses”, não importa quão complexa seja essa obra; sua intenção era a de se insinuar pelas veredas da poesia e dos contos de Joyce, senão pela sua biografia, fartamente documentada por Richard Ellmann e outros. Considerando as tantas vezes em que esse exegeta potiguar interpretou o livro protagonizado por Leopoldo Bloom, é compreensível que tentasse ampliar suas leituras com a incorporação de outros textos.

Só ao cair da noite dessa quinta-feira, marco original dos Bloomsdays, se dará por encerrada, ao toque de música de clarim e fanfarras, mais essa edição desse evento que deitou raízes profundas em solo potiguar graças ao um lampejo despretensioso de Chico Ivan, há duas ou três décadas, talvez por demais incomodado com a monotonia da paisagem natalense em seus junhos invariavelmente pluviosos. Não resta dúvida, olhando em retrospecto, que esse lampejo vem encontrando acolhida crescente entre um sem-número de leitores norte-rio-grandenses que buscam, através dessa iniciativa aliciadora, fazer atalhos e cortar caminhos que levem a uma entrada segura aos meandros e labirintos desse difícil e polêmico “Ulisses”, livro que, indiferente ao tempo, se mantém firme em seu papel de desafiar com mil enigmas quem quer que ouse se aventurar em suas páginas. Por conseguir manter tão bem escondidas suas chaves, esse livro continua a fazer jus ao título de “Odisseia” dos nossos tempos.

O resultado é esse: não há mais como escapar ao apelo do Homem de Dublin quando se aproxima o 16 de junho, ao menos enquanto Chico Ivan estiver por perto, porque será inevitável que outro Bloomsday esteja senão em formação, certamente em ideia. E quem pode resistir a uma ideia que teima em não passar?

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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