“Um brinde à própria sorte”, de José de Castro

(Para Paulo Celso de Mello Oliveira, poeta e artista plástico de São Paulo e para todos os que lidam com a arte visual e a da palavra)

Que poeta é esse a cantar com mestria e a satirizar a própria morte?
A tecer finas loas ao desencanto que persegue cristãos de toda a sorte?
E a vida segue em sua cantilena, feito vento a soprar e a cantar salmos
Sobre o campo, sobre a urbe, sobre a urze que cobre os sete palmos.
E a gente aprende a afinar a voz. E a garganta aproveita e entoa um hino
A todos os que comungam esse mesmo rito de apostar contra o destino.
E seguimos de cabeça erguida, com o corpo a fraquejar tonto, exangue.
Pois sabemos, os amigos, as canções e a poesia renovam nosso sangue.
Sempre há alguém a nos doar uma palavra de consolo, um verbo amigo
Que nos faz olhar para longe, muito além do nosso próprio umbigo.
Essa dor não é só minha nem só tua. É de toda humanidade desde Adão,
Desde Sócrates, Aristóteles, Parmênides, Hermes Trismegisto e Platão.
Cada um de nós sabe o travo, o sabor e o dissabor do amargo da cicuta
Que a vida nos empurra goela abaixo e nos faz beber à força bruta.
Mas o sábio a degusta feito cálice de bebida fina servida no Graal,
Pois já sabe, desde antes do Paraíso, como se fecha o pano ao final.


Jornalista, escritor e poeta. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo