Um carnaval por dentro

Por Pablo Capistrano
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Domingo de carnaval fui até Baía Formosa, uma das últimas praias do Rio Grande do Norte, já perto da fronteira com a Paraíba. Minha intenção era encontrar um lugar mais ou menos calmo para tomar um banho de mar com as a crianças.

A maré estava cheia, os bares lotados, e a praia acossada por aquela procissão de idiotas com seus carros ouvindo a toda altura um misto bizarro de funk com axé e música sertaneja que a rapaziada daqui por algum motivo misterioso chama de Forró. Já na hora da saída, quando nos preparávamos para pegar a estrada de volta à Natal, vi um senhor de idade avançada. Estava sozinho, completamente embriagado, com a cara pintada de branco e com uma sombrinha daquelas de frevo, dançando pelo meio da rua, como se estivesse em uma viagem de ácido ou como se viesse ainda chapado, de um antigo ritual religioso em homenagem as potências naturais.

Lembrei imediatamente de Jaadiel, um amigo que é professor de filosofia em Santa Cruz. Quando eu perguntei: “E ai velho? Vai curtir o carnaval em Natal?” – ele me respondeu: “Curtir não, vou descansar”. Emendando quis saber se ele não estava pensando em “cair na fuzaca” em alguma praia do litoral norte ou sul e ele me respondeu: “No carnaval o natalense vai para a beira da praia, fica olhando o mar, tomando cerveja e comendo peixe frito. Ele faz no carnaval, aquilo que faz todo fim de semana, não tem diferença”.

Pois é amigo velho, já fui a alguns carnavais nessa vida: Salvador, Recife e muitos pelas praias do litoral potiguar. Sempre que o carnaval se aproxima minha vontade é de buscar um paraíso entre as dunas e o mar, perto de algum coqueiral para me chapar com qualquer coisa enquanto ouço ao longe, levado pelo vento, os ruídos de alguma troça fantasmagórica com seus metais espectrais e sua percussão primitiva a me lembrar que em algum lugar das eras arcaicas ocorre uma grande festa.

Não adianta. O modo como o potiguar encara o carnaval é absolutamente diferente do modo como o pernambucano e o baiano encaram. Mesmo onde há alguma concentração de pessoas (Touros, Macau, Caicó, Pirangi, Redinha), mesmo nesses locais, o carnaval não é, no nosso estado, um fenômeno de massas.

Quem já foi na Avenida 7 perto do Campo Grande em Salvador, ou mesmo nas ladeiras de Olinda ou no Recife Antigo, quem assistiu um desfile de escola de samba na Marquês de Sapucaí, ou mesmo correu atrás dos blocos de rua do Rio, sabe que um carnaval é um fenômeno de dissolução do ego, uma experiência selvagem de ruptura com o nosso princípio de individuação. Nosso Eu desaparece na turba alucinada, no deleite da exuberância estética, junto ao álcool, a música tribal e o cheiro de sexo e suor que corre pelos corpos das multidões. Onde há carnaval há um delírio dionisíaco que atravessa o imaginário, expandindo os desejos, ampliando as possibilidades do corpo até a exaustão, transformando a linguagem e construindo uma conexão poderosa, como se uma imensa suruba telepática pusesse uns dentro dos outros (em todos os sentidos).

O potiguar, por mais que tente, não nasceu para esse tipo de coisa. Sua viagem é interna, seu devaneio é privado, sua loucura é particular. Nas casas de praia, nas barracas do litoral ou nos balneários na beira dos açudes, o potiguar enlouquece solitariamente, contemplativamente. As fuzacas e as fuleragens típicas do carnaval são experimentadas em família, ou em pequenas troças que só de muito longe lembram as incontestáveis multidões das metrópoles dominadas pela influência do rei louco.

Somos, especialmente em Natal, uma nação de sertanejos que moram diante do mar. Um povo que se esconde. Que passa o ano todo disfarçado. Em uma terra de marranos, tararius e quilombolas acostumados a camuflagem e ao esconderijo das identidades, os abismos sempre são profundos e estreitos. Até o nosso Carnatal (o momento Bahia do natalense) por mais que tente, não consegue se aproximar da força catártica do original (quem foi a Salvador sabe o que eu digo). Por isso eu adoro passar o carnaval no Rio Grande do Norte.

Nós, os apolíneos, curtimos mesmo é essa inviolável solidão. Esse poderoso êxtase de reter nossa loucura. Esse devaneio de dissolver-se sem explodir. Aqui o carnaval acontece por dentro, na psicodélica e violenta troça de nossa imaginação.

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