Um choro abafado no escuro (1ª parte)

Quando chegar o momento

Esse meu sofrimento

Vou cobrar com juros, juro

Todo esse amor reprimido

Esse grito contido

Esse samba no escuro.

Chico Buarque

 

Esquartejar sim, comer tua merda não?

por que o fiz, por que peguei nessa lagartixa? será que mereço este suplício? não tinha nada contra eles, nunca matei nenhum, e para que?, me pergunto, para, agora que sou um velho, estar com a cara enfiada na bosta e neste vômito que não consegui segurar? sempre cumpri meu dever, nunca trai ninguém, de muitos tinha até pena, eram uns meninos, quando Marta fez dezoito anos e lhe dei os parabéns, mas enxerguei de repente uma daquelas garotas, não sei por que, alguma coisa em seu olhar, uma faísca, uma expectativa ansiosa, não sei, vi uma daquelas garotas e senti estilhaços em minha garganta, foi só por alguns segundos, mas não o esqueci, por que lembrei de Marta? isso me estraçalha, muito mais do que esta merda na cara, este cheiro nauseabundo, das pancadas, do que estar acorrentado neste porão, nesta escuridão, jogado sei lá onde, num buraco qualquer do inferno, será que mereci o inferno? não sinto remorso, diz ele, e deveria? não sei o que aconteceu com aquela moça, não sei o que aconteceu com nenhum deles, para que remexer com o passado? meu deus, pare com isso, me solte, me jogue num terreno baldio e deixe que me encontrem, nunca te odiei, Marta deve estar devastada com meu sumiço, e Lourdes… deus queira que não tenha tido um infarto, meu deus, faz que seja um pesadelo, será que eles sentiam o mesmo? será que também rezavam em silêncio?, talvez pensassem em suas famílias, na angústia que devia torturar seus pais, sempre fui forte, sou homem, mas a porra dessas lágrimas, puta que pariu, não desçam cacete! não quero chorar, quer saber? vá se foder! querem rolar? que rolem, só ele está me vendo, será que vai limpar essa porcaria na minha cara?

Emanoel observava, imóvel, o velho homem amarrado na cadeira. Tinha começado a chorar em silêncio como, décadas atrás, ele fizera tantas vezes. O deviam estar atravessando a mesma impotência, a mesma incredulidade, o mesmo medo. Quem sabe o mesmo senso de ridículo que tudo aquilo, então, lhe despertava. Se é que este tipo de gente sente alguma coisa, pensou. Muitas vezes, pendurado no pau-de-arara, enquanto cada pancada ressoava em suas vísceras, se perguntara o que estariam sentindo, no que estariam pensando eles. Não raro lhe parecera vislumbrar em seu olhar lampejos de gozo. Por isso o enfurecia e desnorteava a teimosia daquele velho em negar qualquer prazer, até mesmo qualquer ódio.

cumpria ordens, diz, não nos odiava, nem se envolvia em política, apagavam cigarros em nossa pele, enfiavam nossas cabeças em baldes de mijo, nos abrasavam com óleo ardente, eletrocutavam nossos genitais e apenas cumpriam ordens, e aquelas centelhas em seus olhares, aquela excitação mal disfarçada a cada gemido nosso de dor?, vocês se embriagavam de nossos gritos, se inebriavam de nosso sofrimento, tremiam de orgasmo toda vez que nossos corpos se contorciam em espasmos, atravessados pelos choques que aplicavam com meticuloso cuidado em nossos testículos, em nossas línguas, em nosso anus, nos mamilos e nas vaginas de nossas companheiras, era um desfrute insano, um prazer rastejante, uma euforia obscena, os gringos talvez tivessem lhes ensinado que era necessário ficar frios e impassíveis, que estavam cumprindo um dever, mas no fundo de suas almas vocês trepidavam, se regozijavam com nossas sevícias, eu sei, eu vi, eu senti, senti em cada soco, em cada paulada, em cada choque, em cada aperto da minha garganta seu deleite pornográfico…

Emanoel não esquecera um único golpe, um único tremor, uma única lágrima que derramara naqueles dois intermináveis anos no DOI-CODI, onde passara as primeiras semanas, e em Bangu, onde ficara até que o exilassem em um “pacote” de presos políticos negociado por uma embaixada estrangeira. Outros tentaram esquecer, procuraram um sentido, qualquer coisa a que agarrar-se para recomeçar a viver, para não mergulhar num abismo sem fundo de ansiedade, desespero e absurdo. Alguns construíram novas militâncias, se aferraram a novas causas ou retomaram, à distância, a luta contra o regime para que tudo o que tinham sofrido se encaixasse num desenho coerente. Outros, ainda, desabaram e se suicidaram.

Ele recomeçara a viver, recomeçara a militar, até recomeçara a amar, mesmo que seus amores desde então sempre fossem truncados. Tinham lhe tirado Anaí e nunca conseguira saber em que circunstâncias fora assassinada e o paradeiro de seus restos. Muitos anos mais tarde, amigos que tinham sido torturados com ela e que tinham sobrevivido lhe contaram que a prenderam alguns meses depois dele, de madrugada, na casa de uma amiga numa aldeia na serra onde achava que estaria segura. Soube que chegara à sede do batalhão onde funcionava o centro de tortura de camisola e que, na mesma noite, fora estuprada por pelo menos cinco homens. Depois de sabe-lo, Emanoel acordara todo dia durante anos em plena madrugada, um suor gélido escorrendo-lhe pelas costas, náusea, tremores e a sensação de um garrote invisível esmagando-lhe lentamente a garganta. Acreditava que iria morrer sufocado, tinha que escancarar a janela e só aos poucos conseguia voltar a respirar. Nunca explicara à esposa os motivos. Fora para psiquiatras, fizera terapias, mas nunca revelara para ninguém que durante anos, toda noite, tinha sonhado com Anaí, sua jamais esquecida paixão da juventude, a mãe do único filho que tivera em sua vida, e sonhava com ela amarrada em pé, uma corrente em cada pulso e cada tornozelo, nua, sua pele acobreada refletindo intermitentemente feixes de uma luz oca e seu corpo frágil, esguio tremendo enquanto sombras silenciosas de uma turba sem rosto se aproximavam dela e a lambiam inteira, uivando, e depois a invadiam selvagemente um por um, extasiando-se com seu gritos.

Continua…

Para ler a segunda parte do conto, clique aqui – Para ler a terceira parte, clique aqui.

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