Um craque do samba


Sérgio Vilar
Compositor potiguar radicado no Rio de Janeiro resgata clássicos do samba hoje no TCP

Didi Avelino tem nome de craque carioca e sobrenome de poeta potiguar. É natalense da gema. Mas nasceu mesmo nas raízes do samba brasileiro. Foi no bairro da Lapa onde o compositor achou morada artística. E sem qualquer oportunismo. Didi desembarcou no berço da boemia carioca quando o lugar era marginalizado pela alta sociedade. Participou do processo de revitalização, bebeu dos sambas mais genuínos de Nelson Sargento e se tornou compositor reconhecido no meio.

O compositor potiguar está em Natal de férias. Sem intenção, foi convocado por amigos dos tempos dos festivais universitários para um show hoje no Teatro de Cultura Popular Chico Daniel (TCP), anexo à Fundação José Augusto. O concerto Notícias de Verão resgata pérolas do cancioneiro brasileiro como Anjo da Velha Guarda (Moacyr Luz e Aldir Blanc), A Canção que Chegou (Cartola e Nuno Veloso) e Recado ao Poeta (Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro), além de clássicos do samba-raíz. Ainda a participação do amigo, cantor e compositor Manassés Campos e a jovem cantora Clara Menezes.

A Lapa é uma espécie de Beco da Lama carioca que deu certo. Reúne intelectuais, boêmios, artistas e o povo carioca das mais diversas tribos. Subúrbio nos anos 50 e até meados da década de 80, o bairro hoje é centro cultural atrativo aos turistas e classes mais abastadas do Rio de Janeiro e pólo revelador de grandes sambistas como Diogo Nogueira. E no caderno dessa evolução, Didi Avelino escreveu algumas palavras. Suas composições foram gravadas por grandes nomes do samba carioca, sem ter conseguido a consagração de outros grandes da MPB.

Após décadas de composições, Didi Avelino enveredou como intérprete e em junho de 2009 montou o grupo Retrô. Mesmo de curta trajetória, conseguiu a classificação entre os 60 beneficiados pela Agenda Funarte 2009, desbancando mais de 2.600 candidatos. O grupo realizada trabalho minucioso de pesquisa dos cancioneiros brasileiros os mais esquecidos. Gente como Elizeth Cardoso, Baden Powell e outros mais antigos. “São compositores sequer lembrados, já no ostracismo. Se não houve um trabalho de resgate desses artistas eles desaparecem para a música brasileira”, afirma Didi.

E nesse barco embarcam as valsas, boleros, sambas-canções… “A Lapa sempre tocou, predominantemente, o chorinho e o samba de raiz. Mas a música brasileira vai além. Embora seja meu estilo musical preferido, há canções tão lindas quanto. Tem muito mais flores neste jardim. E é isso que tentamos mostrar com o Retrô. Encaramos essa classificação na Agenda Funarte 2009 como um atestado de aprovação nesse trabalho de resgate do cancioneiro brasileiro”, afirmou Didi, hoje com 57 primaveras e 32 anos de samba no bairro da Lapa.

Didi afirma ao voltar ao Rio de Janeiro terça-feira, inicia o trabalho para excursionar com o Retrô pelos circuitos paulista, carioca e mineiro. E adiantou estar em pauta um projeto autoral de um dos grandes compositores brasileiros, destacado na época dos festivais de música dos anos 70. “É mais um esquecido. Um nome importante, compositor na linha sambista”. E brincou: “É uma pena sair de Natal. Não deveria ter passado tanto tempo sem vir aqui. Volto com esse show do Retrô”. No show de hoje, Didi Avelino estará acompanhado dos músicos Sérgio Farias (violão), Ricardo Menezes (violão 7 cordas), Wallisson Santos (cavaquinho) e Sami Tarik (percussão).

Para Manassés Campos, Didi tem nome de craque não por acaso: “Assim como o do futebol, constrói elegantes jogadas no exercício das canções. E quem o conhece sabe de seu bom gosto no trato com a música. Convém o ressalte da excelência, do apuro na escolha do repertório e da originalidade na modulação de sua privilegiada voz. Sofisticado, com certeza, mas, sobretudo, sempre conciliando o trinômio bom gosto/emoção/técnica, com a evocação mais genuína do acervo musical popular brasileiro”.

Manassés comentou ainda o tom do show de hoje: “Destacar o cancioneiro do Brasil, o samba e a possibilidade artística da cara do Brasil, sambar e fazer samba sem, no entanto, torná-lo privilégio de ninguém. Essa é a tônica do espetáculo de hoje. Ressaltar a sua importância na cena atual e essa apresentação em território potiguar, é imprescindível uma vez que o mesmo vem preencher a lacuna existente de se cantar originalmente o samba com a devida elegância”.

Concerto Popular com Didi Avelino
Onde: Teatro de Cultura Popular (anexo à FJA, Rua Jundiaí, Tirol)
Data e hora: Hoje, às 19h30
Quanto: R$ 5
Contato: 3232-5307

* Matéria publicada hoje no Diário de Natal

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