Um dia de Fera

Por Rudson Pinheiro Soares

Era um domingo de tarde, 04/09/2011, 14h, quando deixei Natal rumo a Goianinha – 60 km – para ver Alecrim x Guarani, pela Série D do Brasileirão. Em função de compromisso familiar, perdi o ônibus da torcida, indo sozinho, de carro. Já na BR 101, percebi um duplo desabastecimento: o uno com o marcador de gasolina na reserva e eu com apenas R$ 34,00. Por sorte, cheguei a um posto que passava cartão de crédito, algo não muito fácil naquele trecho da rodovia. Já no Nazarenão, contei 78 testemunhas, dois visivelmente abcdistas, assim como eu. Radinho no ouvido, sintonizei o abandono das emissoras potiguares para com o Verdão. O repórter em campo era de Juazeiro/CE, cidade do adversário.

Antes do inicio do jogo, a Fera – Fiéis Esmeraldinos Radicais Apaixonados – distribuiu bolas de encher verdes (no Açu, a gente nunca chamou aquilo de bexiga) e vendeu bilhetes de uma rifa, a R$ 10,00, cujo prêmio era um aparelho de TV. “É para ajudar o Alecrim!”, dizia o vendedor/torcedor, em um argumento sensibilizador e sincero, análogo – no dizer e no sentimento – ao usado nas antigas campanhas do PT. Verde, mas de constrangimento, eu disse não, pois, em função da compra do ingresso, portava apenas R$ 14,00 e pensava em comer algo já que, quando não faço isso em determinadas horas, me acompanho de uma enxaqueca – herança materna e companheira eterna. Mas acabei comprando, pois o verde do Alecrim – cor da esperança – venceu o medo (da fome). Bem, mesmo correndo o risco de perder o carinho de meus amigos da Articulação de Esquerda – tendência interna do PT – devo dizer que, no futebol, não dá para afirmar que a esperança é vermelha, conforme se intitulam as chapas/teses daquela organização de esquerda – No PT ainda há esquerda.

Ocorrido o sorteio, percebeu-se que o ganhador não se encontrava no estádio. Logo lhe telefonaram para dar a boa-nova, parabenizá-lo e… Perguntarem-lhe se não desejava devolver o prêmio para realização de outra rifa: “É para ajudar o Alecrim!”. Que situação difícil eu teria ficado, caso tivesse sido o sorteado. Depois, soube que a TV, que foi devolvida, já era rodada nas rifas esmeraldinas.

Final do primeiro tempo e prenuncio de minha enxaqueca. Jogo muito ruim, 0 x 0, sem graça. A bola não chegava às metas. Na arquibancada, pessoas apaixonadas por futebol, por um clube e que, se pudessem, entrariam em campo, na busca de gols. A zoadeira do único tarol presente – que se eu estivesse bem, adoraria – aliada a baixa qualidade do jogo ajudavam em minha já acelerada piora.

Lembrei-me de algumas moedas no carro, parado bem diante do portão. Somando-as aos R$ 4,00, seria suficiente para meu lanche, pensei. “Se você sair não pode voltar”, disse o porteiro, operando uma borboleta (roleta) que sequer contabilizara a entrada de alguém, pois estava quebrada. “Mas meu carro é este aí a menos de 10m da gente”, falei. “Aqui em Goianinha agora o futebol é profissional, não pode”, disse-me. Lembrei que no Açu, quando eu era menino, entrava e saia nos jogos. Os porteiros – que conheciam meu pai, freqüentador assíduo das arquibancadas – sempre diziam, um para o outro. “Pode confiar, ele volta”, numa presunção, acertada, de ser eu portador de outra herança: a palavra. Mas o porteiro de Goianinha, felizmente ainda não tão profissional, sensibilizou-se com minha enxaqueca. “Vá lá”, disse-me, depois de eu sugerir que ele mesmo fosse.

De volta ao Nazarenão – não dá nem para dizer que saí – percebi a ausência de ambulantes vendendo algo de sustância. Apenas um garoto com picolés que só aumentariam – como aumentaram – minha dor de cabeça.

Aos 32 do 2º tempo, Wiliam Carioca marcou para o Verdão. E tome comemoração – dos jogadores e da torcida – diminuindo o sofrimento de cada presente, embora, os minutos finais – que sempre demoram, quando se quer que termine – tenham deixado a Fera de coração na mão. Rezar seria perigoso, pois Padre Cícero, se invocado, apesar de torcedor do Icasa, poderia, em um surto bairrista, operar a favor do Leão do Mercado, como é conhecido o rubro-negro do Cariri Cearense. Era melhor não correr o risco. Ao final, 1 x 0, Alecrim.

Terminado o jogo, a enxaqueca me matando, parei em um posto, onde pus a cabeça por uns 5 minutos embaixo de uma torneira de bebedouro, água geladíssima. Foi um sofrimento dirigir naquelas condições, já de noite. O dinheiro, na loja de conveniência, não deu para nada. Já em Natal – refeição feita, remédio tomado e sono tirado – melhorei um pouco e até ainda saí naquela noite, embora eu tenha ficado, por alguns dias, acompanhado de minha herança, ainda que leve.

Fui a Goianinha porque queria ver uma partida de futebol. Só isso. Acabei, porém, vendo um incalculável bem imaterial – visível apenas aos que não vêem apenas com os olhos e sem o qual o futebol não existiria: amor por um clube e pelo próprio esporte bretão. Sou muito mais alvinegro depois de um dia com a Fera. Valeu a pena, embora para quem eu contasse, na segunda-feira, o que fiz no dia anterior, sempre me perguntasse: “O que diabo tu foi ver em Goianinha?”.

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