Um Diamante do Seridó

Por Lívio Oliveira

Quando eu viajava – na infância, nos idos dos anos 70 – para o querido e mítico Seridó, terra dos meus ancestrais, ficava bem impressionado e de maneira especial com a “carranca” do touro Diamante que se fazia ver na parede principal da casa branquinha que pertencia ao meu avô materno, situada na fazenda Poço da Pedra, município de Cruzeta, lá onde nasceu a minha querida mãe.

O touro Diamante, que compunha o rebanho do meu avô, havia passado a existência toda naquela fazenda misteriosa perdida num lugar ermo e idílico, puxando uma grande carreta cheia d’água sobre rodas de madeira – uma carga insuportável e maçante, até mesmo para um bom touro. Na época, era a alegria dos meninos, que montavam na carruagem, aumentando em mais alguns quilos o peso da carga levada pelo animal. Diamante – devo lembrar – era um Zebu e, por isso, tinha aquela estranha castanha pendente nas costas, uma espécie de bossa que caracteriza a raça.

No entanto, impressionava-me mesmo era a relíquia do touro na forma como a conheci. O touro, na verdade, do qual se contavam histórias e estórias, já estava morto havia tempos. Sua cabeça – sua caveira triangular e grandes chifres em arco – estava dependurada na parede frontal da casa-grande, onde me parece que se mantém até hoje. Pelo que me consta, há mais de 70 anos. Eu a olhava como quem olha para a história de sua toda ancestralidade, das origens mais distantes. Por isso, um sentimento entre melancolia e perplexidade assombrada se apoderava da alma do ser infante.

O touro Diamante foi e é um dos meus fantasmas mais presentes, fazendo-me ainda refletir sobre os anos curtidos em sol e chuva, vivência e a sobrevivência neste mundo de aventuras e desventuras, de prazer e de dor, leveza e crueldade. Meus devaneios me conduzem, repetidamente, às paisagens de infância, provocando-me as sensações mais embrionárias, mais remotas, que me fazem retomar lembranças que às vezes acreditava estarem perdidas nos escaninhos últimos do inconsciente.

Outras fortes lembranças me vêm, vez ou outra, decorrentes das minhas viagens de infância ao sertão esturricado, às terras imemoriais seridoenses. Uma delas me faz recordar a vez em que eu e um primo meu, a pé, fomos de uma fazenda da nossa família, o Cauaçu, até outra, o já citado Poço da Pedra, por estradinhas pedregosas e espinhosas, sob um sol castigador. Recordo-me que uma das maiores alegrias que tivemos foi quando uma senhora, moradora daquelas terras, nos convidou a comer uma melancia. Sentamos, então, com prazer, nos tamboretes postos no “quintal” da casa de taipa. Pusemo-nos a saborear aquela fruta fresca, curando-nos a sede e a fome, tudo a um só tempo. Deliciava-nos o cheiro e o sumo da melancia fresquinha e doce. Para mim, virou uma espécie de Madeleine proustiana.

Empurrando, com o pé na parede, aqueles tempos infantis no sertão, o balanço da rede no alpendre, no torno rangente, sentia que o destino me daria muitas responsabilidades e encargos nos tempos vindouros da idade adulta e que o passado me mostraria que as melhores sensações e as grandes fantasias já haviam se realizado.

Ainda tento crer que a assertiva acima é falsa e que à minha frente, no futuro, tendo deixado para trás aquele menino sonhador e fantasioso, é que estarão as novas e mais caras realizações. Bom que ainda existam ilusões. E o touro Diamante ainda continue lá, semeando sonhos no coração incauto. Esperança brilhando. Utopias vencendo. O sonho resistindo contra a opressão e o ódio que ainda há no mundo.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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