Um escritor alemão

Por Carol Bensimon

O primeiro e único a me falar sobre Hans-Ulrich Treichel foi o professor Assis Brasil. O ano era 2003, se não me engano, e eu estava cursando a oficina dele, que poderíamos chamar de “a” oficina literária por causa de seu pioneirismo, duração (um ano inteiro) e qualidade. Além de tudo, o Assis indicava bons livros em uma época em que eu sabia exatamente que bandas eu deveria ouvir, mas não tinha ideia quanto aos escritores que deveria ler. Então apareceu Hans-Ulrich Treichel, o livro se chamava O perdido e contava a história de um menino alemão cujo irmão desaparecera durante a Segunda Guerra; na iminência da entrada dos russos no país, ele tinha sido confiado ainda bebê a uma desconhecida. Nunca mais o acharam. O romance acompanha as buscas frenéticas dos pais já nos tempos do pós-guerra. É engraçado e trágico, sobretudo porque contado pelo irmão preterido; seus pais direcionam toda atenção ao ausente.

Além disso, Arnold aparecia numa foto bem grande, enquanto as fotos em que eu aparecia eram na maioria pequenas, senão minúsculas. Fotos que meus pais tinham tirado com uma chamada kodak xereta, e essa xereta pelo visto só podia tirar fotos pequenas ou minúsculas. (…) Uma dessas fotos minúsculas, por exemplo, mostrava um tanque com várias crianças, e uma dessas crianças era eu. Mas de mim só se via a cabeça, pois eu, que na época ainda não sabia nadar, estava sentado na água, que por sua vez me chegava quase até o queixo. Além disso, minha cabeça foi parcialmente encoberta por uma criança de pé na água em frente a mim, de modo que a foto minúscula na qual eu aparecia só mostrava uma parte da minha cabeça, logo acima da superfície da água. E mais, na parte visível do meu corpo havia uma sombra, provavelmente lançada pela criança de pé em frente a mim, de modo que de mim só se via, na verdade, o olho direito. [trecho de O perdido, tradução de José Marcos Mariani de Macedo]

Eu reencontrei O perdido quatro anos depois, no meu mestrado em Escrita Criativa, que fiz sob a orientação do mesmo Assis Brasil. Meu exemplar está cheio de rabiscos sobre “personagem ausente”, que foi o tema do meu ensaio de fim de curso (as outras narrativas citadas eram O náufrago, de Thomas Bernhard, e Extremamente alto & incrivelmente perto, de Jonathan Safran Foer). Esse ensaio, na verdade, não passava de um complemento para o verdadeiro trabalho, a obra literária, a parte criativa, a aplicação de todas aquelas conjecturas sobre um personagem que está fora da narrativa mas na verdade é o centro dela, etcetera, etcetera, que veio a ser precisamente o meu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água.

Um dia, o Assis me disse que Hans-Ulrich Treichel tinha de fato um irmão perdido. E mais: ele contara essa história em uma visita a Porto Alegre. Eu sei que nós, escritores, não devemos estimular, tampouco revelar conexões entre a ficção e a vida real, mas eu não consegui evitar o compartilhamento da informação, tamanho foi (ainda é) o meu assombro diante disso. Anos depois, eu encontrei um outro livro de Treichel em um sebo em Paris. Tratava-se de uma história muito semelhante àquela de seu livro de maior sucesso, esse narrador tendo também um irmão mais velho que sumira na guerra muito antes de seu nascimento, o que me fez devolvê-lo de volta à prateleira sem remorsos, eu não queria ler a mesma história, o mesmo fantasma de Hans-Ulrich Treichel, duas vezes. Então eu o esqueci completamente.

A questão é que a Companhia das Letras tinha outro romance do escritor alemão em catálogo, publicado em 2003, e eu nunca ficara sabendo disso por culpa exclusivamente minha. Li O acorde de Tristão na semana passada. O estilo de Hans-Ulrich Treichel é delicioso e me levou às gargalhadas muitas vezes, embora o universo da música erudita, pessoalmente, não me seja nada instigante e pudesse me afugentar de uma narrativa caso eu não conhecesse o autor de outros carnavais. Mas O acorde de Tristão tem um problema, que é não mostrar exatamente a que veio. Um conflito capenga, digamos assim. Seria um desastre, não fosse a força da prosa do sujeito, que garante a continuidade da leitura porque ficamos viciados nas trapalhadas e no olhar aguçado do protagonista Georg. Vale. Não há drama de grandes proporções, como o de conviver com a ausência de um irmão que sequer se conheceu, mas há a luta diária com as celebridades de gênio difícil, as teses da área de Letras, as cidades em países distantes e, claro, as aulas de flauta doce.

Uma vez que tocar flauta doce implicava aumento do fluxo da saliva, não era difícil que degenerasse em prática algo nojenta, caso não se tomassem variadas medidas preventivas. A professora chamava tais medidas de “controle da saliva”, referindo-se sobretudo ao controle dos cantos da boca, por onde a saliva poderia escorrer primeiro. Por um lado, os cantos da boca deviam manter-se firmemente fechados; por outro, contudo, não se podia imobilizá-los, o que prejudicaria a formação da corrente de ar, decisiva para a sonoridade e a plenitude das notas. A advertência da professora para que os cantos da boca fossem mantidos fechados, por um lado, e móveis, por outro, resultava, tanto para Georg quanto para seus coleguinhas, numa rigidez dos cantos da boca, pelos quais, em algum momento, um já incontrolável fluxo de saliva encontraria seu escoadouro. Era o momento da entrada em cena do lenço, que tinha sempre de ser um lenço limpo, sem o qual ninguém podia ousar aparecer na aula. [trecho de O acorde de Tristão, tradução de Sergio Tellaroli]
NO BLOG DA COMPANHIA

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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