Um garotão bem intencionado, porém cretino

De Tetê Bezerra, por e-mail:

Por Plínio Marcos, para o Pasquim nº 203 (maio de 1973)

O garotão estudou Comunicação. Por essas e outras, ficou com a moringa cheia de Marcuse, McLuhan, Grotowski e outros owskis. Daí, já viu. Quando se formou, o garotão estava doido pra ir pras Europas da vida, conhecer a fonte do saber da humanidade. E não teve quás-quás-quás. Apanhou uma sonora grana com seu papai e se picou no vôo mais retumbante.

Lá na Europa, o garotão não marcou bobeira. Visitou o Louvre e outros antros onde estão infunadas as obras-primas dos grandes artistas. Claro que o garotão diante dos babados, vibrou. Porém (e sempre tem um porém), quando o garotão saiu na rua quis puxar papo com a gente de lá, se entortou. Os bidus da Europa estavam só como jacaré… E isso encabulou o garotão que, apesar de ser prafrentex, não pegava de grota. Aí, então, ele sentiu saudade da Pátria amada.

Podes crer, meu lorde, brasileiro fora do Brasil é patriota paca. E o garotão, abilolado, quis escutar um sambinha. Mas, não havia samba. Quis comer uma feijoada, mas não encontrou. Quis beber cachaça. Nos botecos em que o garotão perguntou pela pinga, nem sabiam o que era. Desesperado, o garotão não se agüentou. Embarcou rapidinho de volta pro Brasil.

Aqui chegando, o garotão queria tomar um banho de coisas brasileiras. Ligou o rádio pra escutar samba. Mas, que nada, meu lorde! Só dava iê-iê-iê, rock e tal e coisa. Desesperado, o garotão ligou a televisão. Só deu fita de Paladino do Oeste e agente secreto do FBI. Nem novela entrou no ar esse dia. Então o garotão quis ir ao cinema. Na ocasião em que o garotão chegou em São Paulo, 29 cinemas estavam fechados, porque se recusavam a passar, no Brasil, filme brasileiro. Picado de raiva, o garotão se mandou pra rua. Parou no boteco onde sua curriola fazia ponto. A bem da verdade, aí o garotão não perguntou pela cachaça. Foi direto de uísque, que afinal ele não era leão. E quando já estava de pé redondo, começou a chiadeira:

– Não tem música brasileira, nem televisão, nem cinema brasileiro no Brasil. Chaveco isso. Na Europa, tá certo. A gente não tem vez. Mas, aqui, não dá pra engolir uma presepada deste naipe.

Tanto falou o garotão, que um pinta que estava de antena ligada jogou uma bóia pro garotão não se afogar:

– Olha aí, meu lorde. Na Barra Funda tem uma escola de samba que, por incrível que pareça, só toca samba.

No embalo que estava, o garotão não vacilou. Foi conferir. Chegou lá, era batuque da pesada. O negroléu fazia e acontecia. As negritinhas diziam no pé e assanhavam a moçada. O garotão se embandeirou. Encheu mais o caco e ficou à vontade. Começou a pagar birita pra patota do pedaço, se enturmou e, sem a mínima cerimônia, se botou a berrar:

– É isso aí, bicho! É isso aí! Samba legal. Paz, amor e samba. É isso aí!

O dono da escola de samba, vendo aquele garotão alimentado a Toddy, com aquele entusiasmo, inventou uma mumunha tinhosa. Convidou o garotão para ser relações-públicas da escola. Na zoeira que estava, o garotão aceitou fácil. Jurou pela luz que o iluminava que esparramaria nos seus ambientes o sarro que era a roda de samba da escola. Prometeu e cumpriu. Dali pra frente, fez das tripas coração para divulgar a escola de samba.

O esforço do garotão foi logo reconhecido. Ele começou a ter influência na escola e a escarrar regra em cima dos crioulos. Garotão formado em faculdade, viajado, falador brilhante e os cambaus, arreava cascata cultural e nunca era testado. Como é que um negão de Mobral ia discordar de um doutor? Não tinha por onde, meu lorde. E nessa catimba, o garotão se impôs.

Quando chegou a hora de escolher o enredo pra desfilar, o garotão já era pau de mando na escola de samba. E já com uma idéia de jerico a lhe brotar na cuca, deu a pala:

– Nós vamos atacar de Heróis da Independência. É isso que dá pé. Heróis da Independência vai dar primeiro lugar na avenida.

Os crioulos se fecharam em copas e traçaram o esquema. Apresentaram pro garotão um esquema de Heróis da Independência que fez o garotão subir pelas paredes de costas. O enredo dos crioulos só tinha três heróis: D. Pedro I, D. Pedro II e princesa Isabel. Foi bronca! O garotão esculachou a negrada. Xingou de burros, de analfas e o cacete a quatro. Depois, botou pra frente, em belo discurso, seu plano:

– Olha aí, gente. Pra elevar o nível cultural do povo, temos que aproximar os intelectuais da escola de samba. A escola é um ótimo veículo de comunicação e, por meio dela, podemos popularizar cultura. Vamos convidar um professor de História da faculdade para fazer o enredo.

Ninguém protestou. Então, o garotão foi na faculdade e convidou um professor de História, seu amigo. O convidado aceitou rapidinho. Professor de História está sempre disponível mesmo. Então, não teve escama. E o professor fez um enredo caprichado. Só de Herói da Independência deu 70 páginas datilografadas em espaço duplo. Todo feliz com o enredo, o garotão não se acanhou em aparecer com mais uma novidade:

– Olha, gente, se o professor da faculdade de História fez o enredo pro nosso desfile, estamos com tudo. Então vamos convidar um grande maestro do municipal pra fazer nosso samba.

E diante do silêncio da ala dos compositores, que sentiram vergonha de estrilar, o garotão selou:

– Isso é que é levar cultura pro povo.

Chamou um maestro que andava meio apagado e não teve erro. O mestre topou a parada. E aí, o garotão pegou toda a corda e abriu tudo pro pessoal da escola:

– Se o professor de História fez o enredo, se o maestro do Municipal topou fazer nosso samba, a letra do samba-enredo só pode ser feita por um grande poeta. Vamos convidar um poeta da Academia Paulista de Letras.

O poeta convidado até chorou de emoção. Comovido, declarou pra quem quis ouvir:

– A poesia não morreu. O povo me conhece. E colaborarei com a escola de samba, certo de que cumpro assim meu destino de poeta que não se trancou na torre de marfim.

E cheio de inspiração, o poeta da academia mandou ver no poema Heróis da Independência, pra servir de letra do samba da escola. Lembrou mais de 200 heróis e ainda deu tempo pra falar da Revolução de 1932. Que poeta paulista é assim, meu lorde.

A escola ficou bem servida, meu lorde. Enredo de professor de história, música de maestro do Municipal, com letra de poeta da Academia. E não parou por aí. Com tanto artista importante junto na parada, não demorou pros colunistas sociais noticiarem. E foi um auê-auê. Sabe como é que é. Malandro faz a moda, otário entra inteiro. Os grã-finos se embandeiraram e baixaram nos ensaios. Como gastavam muito, passaram a ter razão e foram se espalhando. Só o criouléu batuqueiro é que não se sentia mais em casa. Aos poucos, saindo de fininho, a negrada foi se afastando. Mas, ninguém notou essa ausência. O pagode continuou legal. Não tinha importância se quem ficou dançasse samba pulando pro ar e quando abria o bico atravessasse o ritmo. O que pesava na balança era muita gente. E isso havia.

A crioulada, triste por perder a escola, foi fazer samba na rua. Não prestou. Um cidadão incomodado telefonou pra polícia e a cana baixou dura. Quando viu que tinha muito crioulo reunido, não pediu nem documento: lotou o camburão e arrastou a curriola toda. Mas, não tem importância. A negrada não faz falta. A escola vai sair toda bonita. Cheia de destaque e de figuras marcantes na sociedade. O único que corre perigo é o garotão.

Ele está meio papo de aranha. Quer fazer cultura para o povo e já nem sabe o que é cultura e nem o que é povo.

{texto surrupiado do ótimo Vermute com Amendoim}
Publicado por Bruno Ribeiro

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