Um grande amor

Por Ednar Andrade

Como crianças, assim como parceiros nesta dança, estavam lá. Mãos dadas, pés na areia, calças arregaçadas, pés molhados.

Amigos, lembram de um tempo vindo das valsas, do amor… Dos sonhos, daquele distante paraíso da mocidade. Ele com o olhar distante, me contava sobre um tempo em que aquele amor ainda era menino.

A vida os arrastou por outros caminhos; não foi desamor, talvez, quem sabe, o destino.

Ainda muito moço, partiu, foi em busca da sorte, do pão; converteu em glória a saudade. Assim José deixava-se levar sem olhar para trás. Do passado só carregava no coração aquela imagem de mulher: sua musa. Homem bonito, forte. Sempre viveu para o seu dia mais lindo. Viveu com sabedoria a sua mocidade, com todas as responsabilidades; um bom nordestino, fiel às suas raízes; homem simples que teve que ir à guerra… Nunca tirou do peito este escudo: a saudade da sua amada. Viveu para este encanto que seria o dia em que a boca daquele homem diria, por certo, palavras guardadas. Mãos cansadas… Carregava muito carinho nos seus cabelos brancos. Mas, vermelho era o coração de um amor todo bordado. Assim viveu José; corpo de homem, cabeça de menino, por ser isento de maldades e coração bom… Olhar puro, sincero. Olhava parado, como que falasse neste olhar. Olhava para mim sorrindo, demonstrava por mim um carinho lindo e falava do amor por “Raqué”. Falava-me como era lindo o amor por aquela mulher, buscava em mim, José, o refúgio que só um náufrago buscaria em alto-mar; alguém ou algo que o mantivesse vivo, por haver ele, José, compartilhado comigo seu grande segredo, em suas poucas viagens, visitando a terra natal; berço que nunca esqueceu, veio um dia de tão longe, tão longe… Só queria abraçar, colar o rosto e beijar a boca da sua princesa, dona de toda pureza, que nunca lhe foi mulher. Vê-los como os vi… Foi tão lindo! Foi como assistir a um filme romântico; eles apaixonados, felizes, encantados. Sem calendário, longe do tempo. Ali, tudo que contava era aquela euforia………………………………………..

– O amor é um sentimento estranhamente conhecido, ele não se perde do objeto amado; ele até te confunde. Ele pode te deixar bobo.

– Pode o homem viver no mundo sem tal sentindo abençoado? Como viver? Como senti-lo e não reconhecê-lo?

Para mim bastava-me olhar para aquele olhar calado para ver e entender que ali estavam mais uma vez felizes, sem tempo ou idade; conversando, para, quem sabe, o grande prêmio: uma noite, apenas. E caminhavam lado a lado, com silêncios falados pela boca da emoção contida. Tanto amor, tanto carinho negados.

Ele: um senhor, assim como descrevo: feliz, risonho, buscando no contar das horas um correr contra o tempo…

Eu confesso, olhava para o outro lado como que para poupá-los da exposição. Não queria constrangê-los… Notava-se, na palidez da pele o traço, as marcas do nada generoso tempo. Mãos envelhecidas, cansadas, um tremer na voz dos enamorados. Fico imaginando quantas noites ficaram acordados, rezando, pedindo a Deus este encontro tão desejado.

Agora, gestos vagos, uma vontade de voltar para o tempo perdido. Estavam os dois ali, nem mais amantes, em comunhão, cúmplices, amigos… A noite já ia longe; a carne já não respondia com tanto vigor a tanta emoção. Eu os observava com muita discrição. Fingia olhar para o outro lado, mas não podia deixar de saborear um momento tão lindo; um amor tão raro. Cúmplice, ali, daqueles dois. Era natural notá-los cansados. Eles juntos somavam mais de cem anos; somavam, multiplicavam e não se dividiam. Cada um em sua estrada, uma história fazia. Bem, poderia ser um conto ou um filme com direito a avançar ao ponto de partida ou voltar. Mas, com uma sabedoria que só o passar dos anos dá, eles tinham um único e feliz momento, sem ali se importar se haveria um outro encontro. Como meninos no dia da Festa do Amor Divino…

Raqué – nome abreviado por José – era mulher forte, de corpo franzino, estatura baixa, pele muito terna, tinha um olhar contido, falava pouco, talvez com medo de deixar partir a alma.

Vinha do mar um perfume especial, feito de sal e algas que, misturados aos nossos perfumes, produziam uma espécie de incenso no ar.

Eu usava um floral forte que, soprado pelo vento, era como um prêmio naquele momento. Na mesa, batatas assadas em forno grelhado… Tudo era perfume. Voltavam então do passeio, Raqué e José; voltavam de mãos dadas, mais pareciam meninos. A felicidade estampada na boca, no olhar, nos gestos, parecia rejuvenescê-los, quase que santificados pelo divino instante deste reencontro sublime. Senti que estavam cansados, pois caminhavam mansamente; olhavam-se; davam risadas. Enfim, voltaram à mesa. Sentaram-se ali, do meu lado. Pergunta alguma fiz-lhes, mas ele me agradeceu. Disse-me assim José:

“Olha fia, deixa eu te dizer uma coisa: se eu morrer hoje, vais ao sepultamento de um homem feliz, pois tudo que eu queria na minha vida era voltar a ver Raqué, a beijar esta mulher: o amor da minha vida. Agora posso morrer”.

Ficamos ali, sentados, falamos de coisas banais, falamos de coisas amenas, pois qualquer coisa, além do que eles falaram não teriam de fato valor. Até porque, a única voz que o vento poderia ouvir era a voz daquele amor. A noite estava tão linda; era noite de lua, lua cheia. Nós estávamos sentados tão perto da praia que parecia que as ondas queriam molhar nossos pés. A espuma branca em que eles pisaram era como que um tapete bordado que a natureza fez para recepcioná-los. Ficamos então satisfeitos… Todos, eles e nós que fazíamos companhia a este sacramento, pois na verdade éramos cinco: Raqué e José, eu e mais dois amigos. Existia entre nós uma cumplicidade e nada, assim como a história de José, nada, nem o tempo, nem a tristeza me fará duvidar do amor. Saímos dali, os cinco, cada um para o seu destino. No caminho de volta, todos em silêncio como que reverenciando aquele momento ímpar. Eles estavam já bem cansados, haviam caminhado muitos anos de vid a e luta árdua, mas nunca mataram no peito a certeza de que um dia, com tamanha e real alegria, o amor que julgavam haver perdido.

Esta é a história real de Raqué e José. O tempo passou… José voltou ao seu reduto, forçado reduto, pois ali só morava o corpo; a alma e o sentimento ele depositou no coração de Raqué. Ás vezes José me escrevia, passou a viver das lembranças doces que eternizou desta noite, pois não houve uma segunda noite. José foi ficando mais velho, mais cansado… Veio-lhe a impossibilidade pelas doenças… Raqué também guardou consigo esta tão grande felicidade: uma noite com José. Tempos atrás, não tão distante, José partiu para sempre, deixando no meu coração uma saudade que finda e um exemplo vivo que alimenta em mim a certeza dos que amam. Sei, leitor que você pergunta: e Raqué? Te prometo que no próximo capítulo falo de Raqué.

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP