Um herói americano

Por Contardo Calligaris
Folha de São Paulo

Adeus a um amigo que enlouqueceu pela exigência impossível de viver livre, sem amarras

E M 1967 , Diane Bond e eu nos casamos. Ficamos casados até meados dos anos 70, e não sei por que a gente se separou.

Dos irmãos de Diane, eu conheci Gerald quando ele viajou pela Europa, no fim de seu serviço militar na Alemanha. E conheci Debbie e James no Colorado, em 68 ou 69. Ficamos na casa de James, em Boulder, perto de Denver, e, desde então, James Bond, para mim, foi meu cunhado, e não um agente secreto.

De Boulder, fomos acampar, pescar e caçar pelo Parque Nacional da Rocky Mountain. Não pescamos nada que pudéssemos colocar na panela e não achamos nenhum peru selvagem. Mas o marido de Debbie, que acabava de voltar do Vietnã, matava esquilos por nada e com um ódio que a gente não entendia.

Também de Boulder, fomos a Cascade, perto de Colorado Springs, só para ver de fora a casa em que James, Diane e Gerald tinham passado a infância (Debbie, mais jovem, deve ter chegado quando a família já estava para se mudar). Era uma casa de madeira, encostada na montanha.

A família era de classe média. No Colorado, naqueles anos, isso significava comida farta, carro, e, sobretudo, um cavalo para as crianças que tivessem idade para subir na sela.

No começo da primavera, os cavalos eram soltos para que corressem e pastassem, livres e selvagens, pelos bosques e gramados do Parque Nacional de Pike’s Peak. Depois de um certo tempo (semanas talvez), as crianças saiam à procura dos cavalos, sacudindo baldes de grãos, para que, de longe, os cavalos ouvissem.

Em geral, a procura levava dias, e as crianças acampavam nos bosques. Quando, enfim, os cavalos eram encontrados, eles já estavam acostumados a errar livres pela montanha, e era difícil montá-los: você baixava a cabeça agarrando o pescoço de seu cavalo, fechava os olhos e deixava o animal galopar até ele não poder mais. Aí você conseguia levá-lo de volta para casa.

Na semana passada, James morreu. Nos anos 70, incapaz de ficar parado, ele se afastara da mulher e dos filhos ainda pequenos e se tornara carpinteiro, marceneiro, poeta e escritor andarilho.

Enlouquecido pelo anseio de uma liberdade absoluta e pela cocaína, James passou 30 anos de internação em internação, psiquiátrica ou penal. No fim de cada uma dessas estadias manicomiais, ele estava mais calmo, medicado e desintoxicado.

Mas não durava muito. Ele recaía -na droga, é claro, mas, talvez mais grave, na instância impossível de viver sem amarra alguma.

Um dia, ele escreveu para Diane: “Tenho uma vocação obstinada: estou sempre preocupado em fazer o que eu quero, o que inclui a liberdade completa de estar com o pé na estrada, diante de Jack Kerouac e de Lao Tzu”.

Como muitos de nossa geração, James acreditava que a divindade estivesse em cada canto da criação; nisso, ele era taoísta.

Diane, Debbie e Gerald jogaram as cinzas de James no vento de Pike’s Peak.

Diane reuniu os manuscritos deixados por James. Havia poemas, o começo de um romance intitulado “VagaBond”, e milhares de páginas em que aparecia uma verdade paradoxal: a liberdade pode ser uma exigência terrivelmente impiedosa.

Nessas páginas, estava repetida uma mesma ordem, “Quero que James Bond seja o maior cavalo de coca no mundo inteiro”, assinada por qualquer figura de autoridade, do xerife Billings (da polícia de Pueblo, responsável por uma das prisões de James) ao prefeito de Houston, Texas, e a Barack Obama. “Cavalo de coca”, estranha expressão, não é? Talvez, na coca e na estrada, James procurasse a liberdade absurda daquelas galopadas da infância, levando os cavalos de volta para a casa de Cascade.

Diane não sabia o que fazer com os escritos de James; recorreu a dois amigos índios siú, que inventaram um ritual para queimar os manuscritos. James teria apreciado; quem sabe, dispersando-se na fumaça, as palavras fossem, enfim, soltas, desatadas, como a vida que ele desejava.

É um momento difícil para os Estados Unidos, e não paro de ler americanistas (improvisados ou não) se debruçando sobre a nação dividida entre, sei lá, progressistas urbanos da Costa Leste, conservadores evangélicos do centro e do sul etc. Um conselho: se quiser entender o que são os EUA comece com a loucura libertária de James, que é o grande fundo trágico da alma americana.

Goodbye, James. Se o grande espírito permitir, a gente ainda se encontrará um dia, e subiremos galopando pelas encostas de Pike’s Peak.

ao topo