Um livro para cada ocasião

No Le Monde Diplomatique

Por Alberto Manguel

Durante o tempo que passou no cárcere, Oscar Wilde pediu para ler “A ilha do tesouro”, de Stevenson. Já Alexandre, o Grande, levou com ele em suas batalhas um exemplar de “A Ilíada”, de Homero. Por que em certos momentos de nossa vida escolhemos a companhia de um livro mais que a de outro?

Em 2008, duas semanas antes do Natal, soube que teria de ser operado com urgência; na verdade, a urgência era tanta, que não tive tempo de arrumar minha bagagem. Me vi estirado numa sala de hospital, totalmente nu, com mal-estar e inquieto, e um único livro: o que estava lendo naquela manhã, o maravilhoso romance de Cees Nooteboom, Dans les montagnes des Pays-Bas, que terminei horas depois. Passar 14 dias em convalescença sem ter nada para ler me parecia uma tortura insuportável, e quando meu companheiro se propôs a buscar uns livros em minha biblioteca particular e levá-los ao hospital, aproveitei a oportunidade com gratidão. Mas que livros eu queria?

O autor de Eclesiastes e o cantor Pete Seeger nos ensinaram que há ocasião para tudo. Eu acrescentaria, no mesmo sentido, que há um livro para todas as ocasiões. Mas os leitores aprenderam que nem todo livro convém a qualquer ocasião. Tenhamos piedade de quem se vê com um livro ruim num lugar horrível, como o pobre Roald Amundsen, descobridor do Polo Sul, cuja sacola contendo suas obras desapareceu no gelo, de modo que, noite após noite glacial, ele foi obrigado a devorar a única que sobrou: o indigesto “Retrato de sua majestade sagrada em sua solidão e sofrimento”, de John Gauden. Os leitores sabem quais livros ler após fazer amor ou para enfrentar a espera num aeroporto; livros para a mesa do café da manhã e livros para o banheiro; livros para as noites de insônia em casa e para os dias sem sono no hospital. Ninguém, nem mesmo o melhor de todos os leitores, pode realmente explicar por que alguns livros convêm a certas ocasiões e outros não. De maneira indescritível, do mesmo modo que os seres humanos, as ocasiões e os livros, misteriosamente, estão de acordo uns com os outros ou entram em conflito.

Por que em certos momentos de nossa vida escolhemos a companhia de um livro mais que a de outro? Durante o tempo que passou no cárcere, Oscar Wilde pediu para ler A ilha do tesouro, de Stevenson, e um guia de conversação francês-italiano. Alexandre, o Grande, levou com ele em suas batalhas um exemplar de A Ilíada, de Homero. O assassino de John Lennon decidiu munir-se de O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger, para o momento do crime. Na prisão, será que Bernard Madoff vai querer ler, em A pequena Dorrit, de Dickens, como o escroque Sr. Merdle, não suportando a vergonha de ser desmascarado, corta a própria garganta com uma navalha que pegou emprestada? E o papa Bento XVI vai se enclausurar com um exemplar de Bubu de Montparnasse, de Charles-Louis Philippe, para analisar o fenômeno da falta de preservativos que provocou uma epidemia de sífilis em Paris no século XIX? G. K. Chesterton, um poeta com senso prático, imaginava que se estivesse encalhado numa ilha deserta, adoraria ter com ele um manual básico sobre construção naval; nas mesmas circunstâncias, o francês Jules Renard, menos pragmático, preferia Cândido, de Voltaire, e Os bandoleiros, de Schiller.

E quanto a mim, que livros eu escolheria para me fazer companhia no hospital? Sem dúvida, acredito na utilidade inegável de uma biblioteca virtual, mas não utilizo os e-books, essas encarnações modernas das placas assírias, nem os iPods, e tampouco os nostálgicos game-boys. Sou habituado à substância palpável do papel e da tinta. Fiz então, de cabeça, uma lista dos livros que estão empilhados em minha casa, perto de minha cama. Descartei os romances recentes (demasiadamente arriscados, pois ainda não deram provas de que são bons), as biografias (que apresentam gente demais nas circunstâncias em que me encontro – prisioneiro de perfusões –, onde a presença de outras pessoas no meu quarto me importuna), os ensaios científicos e os policiais (muito cerebrais; por mais que recentemente eu tenha apreciado o renascimento darwinista e a releitura de grandes clássicos do crime, uma descrição detalhada dos genes do egoísmo e do cérebro do assassino não me pareceu o remédio adequado). Alimentei a ideia de surpreender as enfermeiras com O desespero humano: doença até a morte, de Kierkegaard. Mas não: eu queria uma espécie de alimento reconfortante, algo de que já tivesse gostado e pudesse reler tranquilamente e com prazer, mas que, ao mesmo tempo, me fizesse vibrar e trabalhar a mente. Pedi a meu companheiro que me trouxesse Dom Quixote de la Mancha.

Após minha primeira leitura dessa obra-prima, no liceu, já tinha feito muitas outras ao longo dos anos, nos mais variados lugares e estados de espírito. Li Dom Quixote durante minha primeira fase na Europa, quando os ecos de 1968 pareciam anunciar transformações gigantescas e o surgimento de alguma coisa ainda inominável e indefinível, semelhante ao mundo idealizado da cavalaria em busca do qual se lançou nosso honesto personagem. Li Dom Quixote no Pacífico Sul, quando tentava sustentar uma família com um orçamento ridiculamente limitado, e a cultura da Polinésia, que me era desconhecida, me deixou meio louco, como o pobre cavaleiro perdido entre os aristocratas. Li Dom Quixote no Canadá, onde a sociedade multicultural me atraiu por seu tom e estilo quixotescos. A essas leituras e muitas outras, posso agora acrescentar um Dom Quixote terapêutico, remédio e consolo ao mesmo tempo.

No entanto, todas essas diferentes versões não se encontram em nenhuma biblioteca, exceto na que minha memória em declínio conserva. Nela, obras que não têm existência material sobrecarregam constantemente as prateleiras: livros que são o amálgama de outros livros lidos no passado e dos quais guardo lembrança imprecisa; livros que trazem notas críticas, comentam e interpretam outros, muito ricos para serem realizáveis inteiramente sozinhos; livros escritos em sonhos ou pesadelos; livros que sabemos que deveriam existir mas jamais foram escritos; autobiografias relatando experiências indescritíveis; livros que evocam desejos indizíveis; livros que enunciam verdades outrora evidentes e hoje esquecidas; livros de criatividade magnífica e extraordinária. Todas as edições de Dom Quixote publicadas até hoje, em todas as línguas, podem ser reunidas – e o são, por exemplo, no Instituto Cervantes em Madri. Mas meus próprios Dom Quixote, aqueles que correspondem a cada uma de minhas leituras diferentes, aqueles que foram inventados por minha memória e publicados por meu esquecimento, somente podem encontrar lugar na mente de meu leitor.

Sou profundamente grato a meu Dom Quixote. Durante as duas semanas que passei no hospital, esses dois tomos cuidaram de mim: conversaram comigo quando eu queria me divertir, ou aguardaram silenciosamente, atentamente, perto de minha cama. Jamais manifestaram impaciência em relação a mim, nem afetação ou condescendência. Continuaram uma conversa iniciada havia muito tempo, quando eu era uma outra pessoa, como se o tempo os deixasse indiferentes, como se fosse óbvio que aquele momento também ia passar, apesar do desconforto e da ansiedade de seu leitor, e que somente as páginas que eles tinham deixado impressas em minha memória permaneceriam em minhas prateleiras e falariam de algo que me pertence, algo íntimo e sombrio, para o qual até hoje jamais tive palavras.

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