Um lugar a guardar: o da inocência

A inocência pode até nos fragilizar, mas a total falta de inocência (ou a sua perda) nos enfraquece. Quando por algum motivo ficamos menos ingênuos, parte de nossa energia se esvai. A vontade de agir depende muito das nossas crenças. Agimos para que alguma coisa dê certo, aconteça como queremos ou sonhamos.

Outro dia assisti a uma entrevista de Jorge Mautner, poeta, compositor, cantor e músico que semana passada completou setenta anos e está a pleno vapor com lançamento de CD e DVD, além de shows e entrevistas por todo lado. Ele é vitalidade pura. Pois bem. Mautner tem uma crença que a muitos pode soar ingênua: ele acredita no Brasil, acredita que a mistura cultural brasileira, à qual ele chama de amálgama e vem pesquisando, fundará uma nova cultura para o mundo. De certo modo (a seu modo), ele reedita o ?Brasil, país do futuro? livro de Stefan Zweig cujo título virou expressão nacional, primeiro de orgulho de ser brasileiro e depois de descrença e escárnio, quando os acontecimentos no país não corresponderam àquela profecia. Mautner parece estar entre os poucos ufanistas que ainda acreditam no Brasil, e, olhando para ele, também parece claro que, no seu caso, acreditar é sinônimo de amar.

A fala de Jorge Mautner me chamou atenção pelo fato de exaltar a ?amálgama brasileira?, segundo ele definida por José Bonifácio de Andrada e Silva, em 1923. A partir dessa idéia, ele procura ?tesouros culturais do Brasil?, porque ?toda arte é amálgama?. Para além da arte, eu sempre me encantei com a nossa miscigenação. Toda pessoa aqui é amálgama também. A melhor coisa deste país é ser essa mistura de raças, que se expandiu por centenas de anos. Aqui não há quem possa dizer que pertence a uma única estirpe. Cada um de nós é um mosaico, somos formados de tantas culturas e influências que é impossível especificar-nos.

Mas a idéia de que dessa amálgama fundar-se-á uma nova cultura, uma nova idéia de gente, que aqui nascerá essa nova era, por assim dizer, foi o que me prendeu na entrevista. Além de ingênuo, pode soar demagógico, mas Jorge Mautner não parece se importar nem um pouco com isso. Ele fala do que acredita, está sendo verdadeiro. É o que basta para energizar a criatividade desse cara de setenta anos, cheio de projetos, planos e força de vontade para concretizá-los.

É verdade, a inocência nos fragiliza, sabemos disso desde que nossos formadores nos avisam para ficar alertas, na defensiva, ter cuidado com as cercanias. Quanto mais crédulos somos, mais riscos corremos de ser enganados e decepcionados. É, o mundo não é mesmo um bom lugar para se acreditar. Porém, cada crença que perdemos (e nós perdemos tantas ao longo da vida) é uma força nossa que se dissipa. Cremos, e estamos prontos para agir, quer tenhamos oito ou oitenta anos. Descremos, e ficamos fracos, mirrados.

Por isso precisamos conservar um pouco de inocência até o fim da vida. Entre as dobras das inumeráveis capas de proteção, entre as frestas das cascas, entre as linhas das defesas, há de se deixar lugar a um tantinho de ingenuidade que nos energize. Afinal, de decepção em decepção não é raro que o cinismo acabe por ocupar os espaços guardados em nós com tanto zelo para a lucidez.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo