Um Mar telássico chamado Caymmi – Um lustro sem o menestrel do Mar que em 2014 faria 100 anos

Caymmi é um dos maiores poetas da MPB. Um artista que cantou o mar como
ninguém. Um mar telássico, baiano e apimentado. O mar e seus mistérios. O
mar tem mais segredos quando é calmaria, assim como Caymmi e sua eterna
placidez de homem que encontrou o segredo da vida. A vida e os costumes da
sua aldeia – suas cores, cheiros e pregões foram imortalizados em canções
buriladas como uma jóia.

“Quem quiser vatapá, que procure fazê”. João é valentão, mas tem seus
momentos na vida, quando a noite é de lua na beira da praia. Por quê?
“Porque não há sonho mais lindo do que sua terra, não há”. “Quem vem pra
beira do mar, ai. Nunca mais quer voltar”. O que é que a baiana tem?, foi
uma música imortalizada pela cantora Carmem Miranda e divulgou a baiana e
o Brasil para o mundo inteiro.

Um homem bonito e apaixonante que soube cantar o amor como ninguém: “você
não sabe amar, meu bem”. “Amar é tolice”. “O amor acontece na vida”, e o
poeta tá de mal com Marina: “Marina, você se pintou”. Um dos sambas mais
belos compostos por Caymmi é, Dora:

Dora
Rainha do frevo
E do maracatu.
Dora
Rainha cafuza de um maracatu
Te conheci no Recife
Dos rios cortados por pontes,
De bairros, das fontes,
coloniais

A poesia caymminiana é uma poesia com temática doméstica. São os pregões
que já não existem mais, os amores eternos, os pescadores e suas vidas
aventurosas, etc. O pescador tem dois amores, um na terra e outro no mar.
A jangada sai pro mar. O pescador quando sai não sabe se volta. Para
agradar, traz um peixinho do mar. Muitas vezes o vento dobra a esquina, o
mar fica bravo e o barco volta só. O poeta sublima e diz que “é doce
morrer no mar”. Em Cantiga de Nova, a tristeza da noiva: “é tão triste
ver partir”.

Um pouco mais de uma centena de obras primas foram compostas por esse
homem que tira das vozes do dia-a-dia e da natureza o alimento da alma de
suas músicas eternas. Muitos cantaram a sua música, mas ninguém melhor
que o próprio autor soube interpretar suas canções. Uma voz de baixo
aveludada e profunda com o mar que ele cantou como ninguém. A música
está no ar, e é de quem pegar primeiro, dizia o nosso senhor do samba,
Sinhô. A poesia está no ar e nas vozes dengosas que o “baiano
preguiçoso” transforma em canções e melodias, eternas. A suíte dos
pescadores de Caymmi é um dos hinos do Brasil oceânico. A música “O mar”
foi utilizada na peça “Joujoux e Balangandans”, de Henrique Pongetti.
Joujoux e Balangandans é uma marchinha do grande compositor Lamartine
Bobo e foi um espetáculo beneficente preparado pela primeira dama Dona
Darcy Vargas

“ O mar
quando quebra na praia
é bonito… é bonito

O mar…
Pescador quando sai
Nunca sabe se volta
Nem sabe se fica… ”

Para rezar, batizar, crismar e casar a Bahia tem trezentas e sessenta e
cinco igrejas. “Uma incelença entrou no paraíso. Adeus, irmão adeus. Até o
dia de juízo”.
Caymmi é um artista quase completo. Ele também foi um excelente pintor e
ator no filme “Estrela da Manhã“ (1948), dirigido por Oswaldo Marques de
Oliveira. Casado com a cantora Stella Maris, teve três filhos, grandes
músicos e cantores. Dori, Danilo e Nana Caymmi fazem parte da famosa
família Caymmi. A família Caymmi gravou os discos gravados em shows no
Scala 2 do RJ (1987) e Montreux ( 1991).
Para ninar a filha Nana Caymmi, uma das maiores cantoras do Brasil, ele
compôs a famosa “Canção de Ninar”, dedicada a Stella: “ É tão tarde/
amanhã já vem/ Todos dormem / A noite também/… . A música termina com um
trecho do folclore;

– Boi, boi, boi,
Boi da cara preta
Pegue essa menina
Que tem medo de careta.

Cancioneiro da Bahia

O primeiro Cancioneiro de um músico popular do Brasil foi o Cancioneiro da
Bahia de Dorival Caymmi. O livro foi editado pela Livraria Martins Editora
com prefácio do escritor Jorge Amado e belíssimas ilustrações do pintor
Clóvis Graciano, em 1947. O livro trás trechos de partituras e letras do
cancioneiro caymminiano e divide-se em três partes: Canções do Mar,
Cantigas do Folk-lore Baiano e Sambas. O cancioneiro, palavra tão bela
para designar um conjunto de canções ou conjunto de poesias líricas de uma
época, foi substituído pela feia palavra “songbook”. São famosos os
Cancioneiros da Ajuda e do Vaticano.

João da Mata Costa

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