Um mergulho em Miyazaki

Hayao Miyazaki é um dos maiores cineastas vivos – talvez o maior deles. Este início joãodamatiano foi apenas uma isca para aqueles que, ao lerem a sentença, torceram a cara e pensaram: ‘quem djabo é Hayao Miyazaki?’.

(e aqui confesso que sempre titubeio ao tentar escrever o nome do cara)

O velhinho, que foi redescoberto pelo mercado internacional (leia-se EUA) em 2003, com A Viagem de Chihiro, tem uma longa estrada no Japão e, se você não o conhece, ou duvida de mim, é porque tem olhado pro lado errado do cinema.  Miyazaki faz desenho animado (ou animação, como diz o povo sério).

Pois bem. Sabe aquele desorientamento do juízo que dá quando você se depara com momentos de genuína beleza na arte, seja qual for? Num tem gente até que chora? ‘Ponyo – Uma amizade que veio do mar’, o filme mais recente do japa, oferece uma carrada deles.

A história é o desenrolar da amizade e amor que nasce entre o peixinho mágico Ponyo e Sosuke, um menino de cinco anos. A imaginação delirante de Miyazaki se faz notar logo na sequência de abertura, com a fuga de Ponyo do reino mágico subaquático para a superfície. Apenas com música e imagens – e que imagens, é uma referência-homenagem-diálogo com Fantasia, obra máxima de Disney (o homem, não a máquina de fazer filmes).

Por sinal, Ponyo é uma parceria entre o estúdio de Miyazaki, o mítico Ghibli, com a Disney. A injeção de grana e um empurrãozinho na distribuição internacional dados pela empresa norte-americana ajudaram o filme nas bilheterias. Lá no Japão derrubou até Batman – Cavaleiro das Trevas, quando foi lançado em 2008. Fez tanto sucesso que demorou só dois anos para entrar em cartaz aqui em João Pessoa. Parece mentira. Pelo menos passou, aí em Natal nem isso, acho.

Não bastasse o universo fantástico criado pelo diretor, no qual convivem sem o menor sobressalto poções mágicas capazes de manipular DNA, peixes devonianos, tsunamis em forma de cardume, uma Iemanjá tirada sabe-se lá de qual tradição milenar japonesa e gente como a gente vivendo sua vidinha na boa, há um apuro técnico de impressionar.

O cuidado com a qualidade do desenho pode ser notado em detalhes como a chuva sobre o parabrisa sendo vista de dentro do veículo, ou como quando, ao menino sair da água, as manchas d’água deixadas pelas pegadas dele na calçada vão sutilmente se alargando depois que ele passa.

Estão lá também traços comuns a vários filmes do cineasta, como o contraponto entre a natureza e o homem, a magia e a tecnologia, e ainda a crítica à poluição. Agora, o principal mérito de Ponyo é como Miyazaki trabalha elementos da infância a favor de sua história e das imagens que constrói. É também a chave para conquistar a criançada que assiste.

O mundo que conhecemos é desprovido de magia justamente porque nós o conhecemos, nomeamos, estudamos, analisamos (como bem nos lembra Walter Benjamin). Por isso, num dado momento, a personagem da deusa do mar cita que o auge da magia foi na era Devoniana (Wikipédia, please), um tempo antigo, anterior ao homem e, portanto, desconhecido.

O mundo de Ponyo é belo e fascinante, mas quando ele entra em contato com o ‘nosso’, uma sensação de medo e insegurança ante o absurdo. A fascinação se dá porque, mesmo sendo maravilhoso, o desconhecido e grandioso amedronta. Quer maior fonte de mistério e perigos do que o mar e sua imensidão?

No entanto, Hayo quer as crianças vidradas na tela, não caindo no choro. Por isso, mesmo com os espectadores estupefatos ante o fantástico, os personagens da película reagem de modo natural à modificação de seu cotidiano pelas criaturas mágicas, acrescentando um toque surreal à narrativa.

Outro elemento de identificação está na intermediação oferecida ao público pelo protagonista – geralmente uma criança, como em Chihiro e, se não me engano, em O Castelo Animado. Pode não parecer verossímil que as pessoas lidem numa boa com criaturas extraordinárias que elas jamais viram antes. Mas o mundo sempre pode se revelar de um momento para o outro  num lugar fantástico, aos olhos de qualquer criança de cinco anos.

Ponyo é daqueles filmes que dá vontade de assistir com mãe do lado. Segurando no braço e pedindo colo.

***

A título de adendo: nesses tempos bicudos, tive até medo de ficarem me achando com cara de pedófilo quando entrei sozinho na sessão para ver o desenho.

Outra: pretendia emendar a sessão com Predadores, mas saí tão de bobeira do cinema que encarar qualquer outro filme no mesmo dia seria um pecado. Fui pra casa.

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 3 comments for this article
  1. João da Mata
    João da Mata 26 de Julho de 2010 16:10

    Bacana, Alex

    Ficarei atento

    Obrigado pela abertura do texto

    abração,

  2. Tácito Costa
    Tácito Costa 27 de Julho de 2010 9:34

    DE JARBAS MARTINS:
    Muito boa a sua crítica, meu caro Alex.Eu não sabia que o criativo velhinnho Miyazaki (que talvez seja mais moço do que eu) era o diretor de “A Viagem de Chihiro”. Alguma falha na minha memória cansadíssima ? Talvez. Ultimamente, vez em quando, ando implicando com a autoria na arte cinematográfica.Sei não.Pode ser que isso, vez em quando, me faça esquecer os nomes dos diretores.Perdoem-me os intransigentes defensores do cinema autoral.

  3. Tácito Costa
    Tácito Costa 28 de Julho de 2010 9:42

    JARBAS MARTINS:
    Muito boa a sua crítica, meu caro Alex.Eu não sabia que o criativo velhinho Miyazaki (que talvez seja mais moço do que eu) era o diretor de “A Viagem de Chihiro”. Alguma falha na minha memória cansadíssima? Talvez. Ultimamente, vez em quando, ando implicando com a autoria na arte cinematográfica.Sei não. Pode ser que isso, vez em quando, me faça esquecer os nomes dos diretores.Perdoem-me os intransigentes defensores do cinema autoral.

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