Um museu de Praga que os guias evitam

Os programas e os guias de turismo o ignoram a favor de atrações mais ao gosto da modernidade de um setor que se pretende realista. A esse propósito, não faltam atrações à Cidade Velha, como o Castelo de Praga, o Relógio Astronômico da Praça da Cidade Velha, o Quarteirão Judaico, a Catedral de São Vito, os Jardins Reais, a Ponte São Carlos sobre o Rio Moldau, rio, aliás, navegável por esta época do ano.

Com tantas atrações, compreende-se que o Kafka Museum não conste dos programas essenciais do turismo oferecido pela capital tcheca. Essa realidade não sofre qualquer alteração se considerarmos que o nome do museu pode ser lido a uma razoável distância. De um passeio de barco pelo Moldau, por exemplo, ou por quem transite pela Ponte São Carlos à luz do dia.

Da mesma forma, a controversa estátua de Kafka sentado sobre os ombros de um personagem sem cabeça, do artista tcheco Jaroslav Róna, sequer é mencionada pelos guias que animam com seus grupos o turismo da alta estação praguense. A obra, instalada na entrada da Cidade Velha ladeando duas igrejas históricas, além de ter forte apelo turístico, tem outra curiosidade: foi inspirada no conto “Descrição de uma luta”, do homenageado, e retira daí seu caráter inverossímil.

Por isso, tanto a estátua como o museu têm seu público, minoritário que seja. A estátua, pela ousadia e originalidade do seu artista, vale pelo impacto duradouro que é capaz de produzir, na medida em que deixa interrogações nas mentes das pessoas que a veem pela primeira vez. Experiência mais ou menos idêntica à vivida por quem adentra pela primeira vez o colosso multiforme que é o Castelo de Praga.

O Museu Kafka, porém, merece uma visita programada. Qualquer pressa, qualquer negligência por parte do visitante, e aspectos preciosos da visitação podem se perder, e só um estudioso ou especialista na obra do escritor praguense se imaginaria voltando àquele lugar para uma possível segunda visita. Ou terceira.

Não é que faltem atrativos ao museu. Pelo contrário. As atrações começam já no seu pátio, no qual se veem duas esculturas masculinas em tamanho natural, que giram sob compasso regular e eventualmente se encaram. A curiosidade (ou o chiste kafkiano) é que ambos estão “urinando” concomitantemente, num ardiloso trabalho decorativo do pequeno lago que os abriga.

Mas é ao conjunto de peças do museu – áudios, vídeos, documentos, livros, fotos etc., que o visitante deve atentar, visto que forma um todo tão compacto que pode ser apreciado satisfatoriamente de uma única vez. A aquisição de alguns suvenires preservará, no futuro, algumas lembranças mais cruciais, poupando-as dos lapsos de memória em que a memória incorre com o passar dos dias.

Um habilidoso jogo de luzes concorre para o clima surreal que cerca o interior do Museu Kafka, reforçado por um tipo de música criteriosamente selecionada para realçar e uniformizar o ambiente. Cada uma das musas kafkianas ― Felicia Bauer, Dora Dymant e Milena Jesenskà ― tem o seu próprio panteão eletrônico, onde suas fotos e biografias brilham por trás do vidro fosco sob luz baça, adequada apenas à leitura íntima. Fotos evolutivas de Kafka e de seus familiares se multiplicam ao longo dos dois corredores superiores do edifício. Aqui e ali, edições originais dos livros e jornais contendo seus escritos, desenhos, manuscritos, sob escrínios invioláveis. Objetos pessoais do escritor também podem ser visualizados ao longo do percurso de cada corredor.

Talvez, ao deixar o Museu Kafka, o leitor kafkiano, agora travestido de turista efêmero, deixe-o com mais indagações do que ao entrar. Mas em se tratando de um personagem tão ou mais singular do que o seu Odradek e suas outras criações imaginosas, adquirir mais indagações a seu respeito é, de algum modo, uma forma de saber mais sobre esse autor.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Jarbas Martins 1 de junho de 2011 22:40

    que delícia, meu bróder.que tal um café amanhã, no natal shopping, no horário de sempre?

  2. João da Mata 1 de junho de 2011 22:31

    Tô gostando dessas viagens do Nelson. Foram falar de academia, jarbas ja tá querendo aprender o idioleto.
    Estive na República Checa e via alguns belos museus. De um deles, trouxe uma bomeca de palha que parece com as nossas.
    lembro tb da cerveja Pilsen e de uma coroa que tinha uns óculos fundo de garrafa. Quizer saber mais sobre essa coroa e loura, leia aqui no SP :. Viagem a Praha

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