Um nordestino em São Paulo

Amigos e amigas:

Li o manifesto “São Paulo para os paulistas”. É assustador. Preconceito, preconceito – sabemos para onde o preconceito leva, da Klu-Klux-Klan aos campos de concentração, ovo da anaconda, vontade de destruição.
Nasci em Natal (RN, nordeste, Brasil, planeta Terra), 1950. Vim para São Paulo em 1970. Moro aqui, portanto, há mais tempo que o período que vivi em Natal. Sou nordestino e paulista. Tenho imensa ligação com Natal. Tenho imensa ligação com São Paulo. Não quero abrir mão de uma nem de outra.
Que são Natal e São Paulo, para mim?
1) Duas cidades.
2) Dois universos culturais.
3) Dois mitos de auto-identificação.
Nem Natal nem São Paulo estão prontas ou estiveram ou estarão prontas em algum momento: são fazeres em aberto, com diferenciações internas e gigantescas potencialidades.
Meu ser natalense dialoga com meu ser paulista. Para que exterminar um dos dois?
São Paulo já era uma grande metrópole antes de eu vir morar aqui. Como tal, ela se fez e continua a se fazer com a presença de múltiplas identidades. Por que os judeus, por exemplo, deixariam de ser judeus quando vieram para São Paulo? Por que os mesmos judeus não se tornariam também paulistas, morando aqui?
Discordo do mito de identidades fixas, eternas, imutáveis. As identidades se inventam (e se tornam realidades) a cada momento.
O referido manifesto “São Paulo para os paulistas” é apenas preconceito e desinformação. Ele não consegue enxergar que nordestinos (em seus estados de origem ou em São Paulo) não formam uma unidade, exceto pelo olhar do preconceito: nordestinos são homens, mulheres, idosos, crianças, ricos, pobres, brancos, pretos. Ele não consegue identificar como o mosaico paulista engloba cearenses que se tornam sushimen, nisseis que desfilam em escolas de samba, libaneses que praticam capoeira e poloneses que lutam sumô, comendo virado à paulista e caldeirada. Mais judeus ortodoxos que usam suas roupas específicas no Bom Retiro e em Higienópolis, dentre outros bairros. E mussulmanos que fazem ablações nos banheiros públicos da USP.
A beleza da pluralidade não se coaduna com a estreiteza do preconceito. O esplendor de São Paulo (Volpi, Lasar Segall, Orides Fontela, Teatro Oficina) se confunde com essa beleza. São Paulo não se formou apenas no período colonial. Bandeirantes eram pessoas pobres que matavam índios e escravos fugidos para sobreviverem.
As universidades, os museus, as bibliotecas e outras instituições culturais de São Paulo são Brasil, felizmente – pesquisadores, poetas e atrizes vêm para São Paulo do Brasil inteiro, do mundo inteiro, empregadas domésticas, carregadores e porteiros também.
Gosto muito de viver em São Paulo. Defendo a São Paulo cosmopolita que me formou na idade adulta. Combato a São Paulo excludente que alguns querem formar agora.
Abraços para todos e todas:

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 5 comments for this article
  1. João da Mata
    João da Mata 9 de Julho de 2010 14:24

    Marcos, um cabra não marcado para morrer e, sim, vicer em Sampa
    São São Paulo meu amor. São Paulo que tb é minha Terra, onde estudei, morei, tive filhos e namorei.
    Minha segunda cidade

    Penso, amigo Marcos, que o que acontece com Sampa é um fenomeno mundial

    É o que acontece com os imigrantes estrangeiros na Europa

    É Barcelona querendo cobrar dos turistas

    Tb sofri discriminação em São Paulo, como estudante nordestino. Venci, vencemos e mostramos que somos capazes. Que construímos Sampa, Brasília, a Amazonia e a alegria

  2. nina rizzi 9 de Julho de 2010 16:24

    é lamentável que à essa altura do campeonato eu tenha ler linhas hediondas como a de stanley. isso beira ao fascismo, é nojento.

    aqui não, né: como somos (‘sudestinos’) bem recebidos no nordeste. eu fico envergonhada.

    belo texto, marcos.

    um beijo.

  3. Tácito Costa
    Tácito Costa 9 de Julho de 2010 16:42

    Nina, só esclarecendo: o Stanley apenas transcreveu os trechos que retirou do tal manifesto e de posts, para todos tomarem conhecimento e gerar a discussão. Eu acompanho o Vi o Mundo e ele tem posições que vão contra tudo o que está escrito no manifesto e nos comentários ao mesmo. Abs.

  4. Tácito Costa
    Tácito Costa 9 de Julho de 2010 16:49

    Depois do comentário de Nina eu voltei ao Vi o Mundo, para checar a referência ao Stanley, e por curiosidade abri os comentários ao manifesto. Só aguentei ler os primeiros. Comecei a engulhar. Muitos ali são fascistas, com alguns neo-nazistas infiltrados, pelo teor dos comentários não há a menor dúvida. São os mesmos que batem em punks, nordestinos e homossexuais. Gente perigosa.

  5. nina rizzi 9 de Julho de 2010 18:49

    tácito, obrigada pela correção.

    sabe que na minha sala, na unesp, tinha uma imbecil (eufemismo) que se achava neonazista. imagino esses tipos se encontrando com nazistas, lá na alemanha: seriam dos primeiros a minguar: latinos-miscigenados.

    e não adianta, não consigo entender de onde vem esse ódio/ repudio a nordestinos e outras ‘minorias’…

    beijos.

    beijos

    beijos.

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