[Conto] Um olhar passante

Passou por mim, na rua, por mero acaso, num daqueles dias de calor e burburinho, um olhar. Digo um olhar, porque não sei se havia alguém por trás do olhar. Não sei a quem pertencia, ou se o olhar pertencia. Quem pertence, a gente aprende, pertence a. Pertencer: verbo transitivo indireto. Carece de preposição. Não se pode pertencer sozinho, bem dizem uns versos lembrados ao meu ouvido: quero pertencer-te, e não posso.

Quanto ao olhar, não sei se queria pertencer. Não sei se tinha dono, possuidor, ou mesmo se tinha detentor. Não consigo lembrar de nada rodeando o olhar. E não é porque não tivesse visto, é porque o olhar ofuscou todo o resto. Não sei se o portava um homem, uma mulher, não sei o sexo do olhar, se tinha sexo. Podia ser um anjo, um anjo súbito portando um olhar súbito. Pode ter sido uma fera, um predador faminto. Um deus disfarçado de cisne. Se eu pensar só no olhar, não dá para dizer de quem era. Era um olhar. Não sei se o olhar tinha olhos, podia não ter. Afinal, existem tantos olhos desprovidos de olhar, o contrário também pode ser verdadeiro, pois uma coisa afirma-se na existência de seu oposto, ensinam filosofias e religiões: a luz pela escuridão, o bem pelo mal. Eu, mesmo sem entender filosofia nem religião, já experimentei na carne esse mistério.

Não sei dizer se o olhar tinha cor. Só sei de uma coisa: era um olhar que musicava a alma da gente. Era um olhar sonoro e com guizos dentro dele, mas sem nome, porque não era domável. Nomes domesticam coisas, lixam sentimentos, podam a natureza das emoções. Palavras tolhem, e o olhar, penso eu, não queria ser tolhido. Era sem peias, sem rédeas, e por certo queria continuar assim.

Também não sei se tinha grandes coisas guardadas dentro. Se as tinha, continuaram com ele. O que disse foram coisas muito pequenas, coisas corriqueiras, dessas bem cotidianas, lambuzadas de rapidez. Da mesma rapidez com a qual ele passava. Aliás, não deve ter dito nada. Devia saber que, de essencial, um olhar não tem nada a dizer. Um olhar é para olhar, quem diz é a boca, quando tem quem a ouça. Ou então diz sozinha, como as bocas errantes dos profetas.

Não sei para onde ia o olhar que passava, ou mesmo se tinha destino certo. Agora me vem a ideia de que olhares têm imunidade contra o destino. Qualquer destino. Olhares não são para ter fado. Nem muito menos fardo. Podem até ser fatais, mas não devem se importar com a existência de fatalidades. Devem viver, e pronto.

Foi um piscar de olhos, um mero movimento reflexo, e já não havia mais olhar. Pisquei de novo, e nada. Veio pousar em mim uma perplexidade. Só depois de algum tempo eu percebi que, com minha piscada, eu desperdiçara os últimos segundos da presença do olhar. Um desperdício do átimo. Eu nunca havia dado importância a instantes desperdiçados. Naquele momento eu também não pensei nisso, o que senti foi apenas uma falta, espremida num calafrio. Uma falta pior, feito picada de marimbondo. Procurei ao redor, nos passantes. Procurei primeiro nas pessoas, porque é onde a gente imagina que se encontram os olhares. Busquei dentro dos ônibus que corriam seu caminho diário carregando destinos. Nada. Depois procurei algum bicho por ali, mas em pleno centro de uma cidade movimentada, não se veem animais de carga, nem cachorros ou gatos, muitos menos galinhas. Nem ratos havia. Nem baratas. Nem formigas. Pelo menos eu não vi. Quando a gente quer muito uma coisa, aí parece que ela custa mais a acontecer. É a ansiedade, toma-se o hábito da vertigem. Imaginei que podia estar ficando doida, pois até em formigas eu estava procurando um olhar. E não tinha nada. Então comecei a procurar nos automóveis de olhos apagados debaixo do sol. Também não estava nos carros, embora estes, untados de pressa, nisso se assemelhassem ao olhar. Perguntei às pessoas mais próximas, e devo confessar que elas também pareciam achar-me louca. – Se vi um olhar? Claro, vi muitos. – E se postavam a rir. Algumas até se assustavam, e saíam, de posse da sua pressa reproduzida, mas olhando para trás, como quem quer descobrir se existe algo por trás da loucura. 

Com certeza, não o tinham visto, como eu vira. Eu também me postei a rir meu riso de segredo. Nem todos veem um olhar, talvez nem todos saibam fazer isso. Busquei no alto, sei lá, podia ter ido para o céu. Nada. Só o galo da igreja, morto de ser metal, nem olho pintado tinha. Quanto mais olhar. 

Podem crer, abriu-se o chão. Abriu-se o chão, como diz o povo, desde o dia em que o deus dos infernos raptou a filha da semeadura e a levou para dentro da terra. Abriu-se o chão. O olhar sumira mesmo, não adiantava escavar, nem se enfiar em lamentos. Não adiantava dar voltas em torno do coreto da praça e nem pedir aos seus moradores meninos um pouquinho de cola para cheirar. O olhar não voltaria.

Dei uma volta completa em torno de mim mesma e vislumbrei quatro palácios, mas em nenhum o olhar penetrara. Caminhei por um beco estreito, com pequenas mercearias coloridas de frutas, verduras, cereais. Mas vender-se não era da natureza do olhar. O que faria ali, ensacado, entre grãos de feijão? Olhares gostam de liberdade, de ficar devaneando. Pairando. Não são coisas de pegar ou de prender.  

Pois acreditem, eu nunca mais vi aquele olhar. E também desisti de persegui-lo, porque desde o tempo daquele rei que, querendo ser jovem eternamente, só conseguiu dar imortalidade às cobras, aprendi que se deve lutar sempre, até as últimas forças, mas apenas por coisas possíveis. 

Se nunca mais vi o olhar, também nunca mais o esqueci. Nada de concreto, nem uma lágrima. Só uma tatuagem na memória.               

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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