Um olhar que (se) surpreende: vizinhanças

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Quando ingressei na Sala do NAC – Núcleo de Arte e Cultura da UFRN – para presenciar a exposição “Contíguos” (evento que durou de 20 de agosto a 03 de setembro), não imaginava que tipo de experiência estético-visual iria experimentar ao deitar o olho por sobre as novas obras (desenhos gravados em estampas serigráficas e em tecido sintético) elaboradas pelo múltiplo artista Cláudio Damasceno. A boa surpresa me veio num jorro, misto de espanto e gozo, prazer sensorial e satisfação intelectiva. A exposição revelava (e ao mesmo tempo ocultava e iludia, num verdadeiro jogo e dança labirínticos e caleidoscópicos) segredos que somente um talento especial e um operador desassombrado, mas muito meticuloso, é capaz de investigar, aventurando-se em escaninhos delicados da mente e da sensibilidade e nos trazendo raros efeitos psicofisiológicos, inclusive de caráter lúdico e erótico.

Damasceno trabalha os conceitos do estilo denominado OP ART com maestria. Utiliza-se de uma suave engenharia, uma chave geométrica sensual que impõe às suas imagens o movimento que há na própria vida e na natureza, mas principalmente nos escaninhos derradeiros do cérebro. E o olho é mesmo a porta de embarque para essa viagem. O jogo de cores, linhas, formas, dimensões, profundidades e perspectivas exige um examinar com a proximidade que ultrapasse a primeira impressão estática e estética e nos remeta a mistérios que só se revelam depois da partida para delírios que em tudo lembram o onírico, um caudaloso mundo do inconsciente. A aparência é somente aparência e por isso termina sendo superada pela magia do que está oculto. Tridimensionalidades que se firmam em monocromatismos ou em suas gradações que se movimentam, fixam-se e depois explodem em novas projeções de magia sedutora. A simplicidade originária se transmuda num mundo complexo e cheio de mistérios e inquietudes da (des)razão.

A competência e a evidenciada disciplina de Damasceno nessa captura hipnótica e tridimensional do olhar é algo que comove e provoca os demais sentidos. Não é demais dizer que se trata de um conjunto de obras de valor estético impressionante e que merece ser conhecido por todos os que apreciam a arte neste estado e em outras plagas. Até mesmo porque as linhas de contiguidade trazidas pelo artista são símbolos de que os limites são mesmo para serem ultrapassados, numa doce invasão e num essencial compartilhamento da(s) vizinhança(s). Vale dizer que elementos arquitetônicos e urbanos também emergem das obras, sendo um pretexto inicial para o ingresso do apreciador-voyeur em “cidades” muito mais ocultas, remetendo a outros artistas da própria OP ART, como o carioca Mavignier (nascido em 1925) e de outros instantes, como o cubista Mondrian (1872-1944) e outro célebre holandês, Escher (1898-1972), neste último caso com influência reconhecida pelo próprio artista de “Contíguos” em obras como a que intitulei carinhosamente, sem licença prévia do artista, de “Pirapora”.

E as contiguidades, as vizinhanças que Damasceno propõe a todos nós são mesmo universais. A começar de sua escolha por uma forma de manifestação artística que já vem sendo estudada mais profundamente desde que a revista Time usou a expressão OP ART pela primeira vez em 1964. Fronteiras do tempo e do espaço: todas são rompidas pela beleza da obra de raras qualidades que esse artista nos traz à apreciação e desfrute a partir de um olho e de um olhar nus, sem amarras, penetrando elementos quase insondáveis da imaginação e da criatividade. Eis uma exposição e um artista que não podem e não devem se ater aos limites natalenses e potiguares. Afinal, os contíguos estéticos-visuais-sensoriais com que Damasceno nos presenteia só se esgotam nas vizinhanças do infinito do olho e da alma.

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*Texto também publicado em: http://tribunadonorte.com.br/noticia/o-olhar-que-se-surpreende-vizinhancas/260710

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Anchieta Rolim 10 de setembro de 2013 21:27

    Parabéns, Damasceno, belos trabalhos! Grande Lívio, parabéns pelo belo texto!

  2. thiago gonzaga. 10 de setembro de 2013 19:42

    Valeu Lívio Oliveira, muito bom o texto. Me arrependi de não ter ido.

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